Reclamações contra o Uber aumentam vertiginosamente

Recebido como alternativa salvadora aos taxistas e seus desmandos, o aplicativo de motorista particular bate recorde de queixas dos passageiros

No início, era só alegria. Balas sortidas, chicletes, chocolatinhos, água gelada, sem contar a gentileza à moda antiga: alguém para abrir e fechar a porta do carro. Hoje, no entanto, o aplicativo de motorista particular Uber, que surgiu como uma alternativa aos mal-afamados táxis, vive uma crise no relacionamento com seu mais de 1,2 milhão de passageiros no Rio. Após as promessas de conforto, cordialidade e praticidade a preços competitivos, o serviço só piorou ao longo do ano passado. O fenômeno vem sendo chamado de “taxirização do Uber”, em alusão à má qualidade dos amarelinhos. Quem começou a recorrer às corridas pelo celular não esconde, por exemplo, a insatisfação com a omissão de detalhes sobre a tarifa dinâmica — o gatilho automático que multiplica o preço da viagem quando a procura é grande e a oferta de veículos é baixa vem surpreendendo muita gente. Há duas semanas, a empresa anunciou ainda o custo fixo adicional de 75 centavos por corrida. Há mais, muito mais, quando o assunto é o UberX, que pode custar até 40% menos do que um táxi. As reclamações vão de cobrança incorreta a falta de conhecimento geográfico da cidade, incluindo comportamento inadequado dos motoristas. Estudante de engenharia ambiental, Giulia Borges, 20 anos, já removeu o aplicativo do celular. “Não uso mais Uber desde o ano passado”, afirma, antes de explicar: “Além de motorista entrando na contramão porque não sabia usar o GPS, dois já deram em cima de mim falando da minha roupa e do meu perfume”.

Os números não mentem. Apenas no site Reclame Aqui, exatas 7 028 queixas foram registradas no estado em 2016. Trata-se de um aumento digno de tarifa dinâmica, de quase vinte vezes em relação ao ano anterior, quando houve 354 protestos contra a plataforma americana, introduzida no Brasil em maio de 2014. Com frequência, o aplicativo aparece na lista das empresas que mais recebem reclamações em um único dia — na última terça (17), ocupava a 17ª posição. “Uso a ferramenta desde o começo, e antes não havia nada do que reclamar. Hoje, meu principal problema é a dificuldade de ser ressarcido por um cancelamento que muitas vezes o próprio motorista me obriga a executar, porque está perdido e não consegue chegar até onde estou”, afirma Bruno Costa, 27 anos, empresário do ramo musical. Esse problema, os desentendimentos com motoristas e a cobrança abusiva brigam pelo alto do pódio no ranking do descontentamento com o Uber na cidade. Não faltam exemplos. Em uma viagem de Botafogo ao vizinho Leme, o casal Paula Bazzo e Ricardo Ourique desembolsou 70 reais — o preço comum para esse trajeto gira em torno de 10 reais. Segundo Ourique, o sistema não indicou na hora a estimativa de preço, e ele só se deu conta mais tarde da quantia cobrada em seu cartão. “Hoje, usamos o Google Maps para verificar o valor médio da corrida. Voltamos até a usar táxi em algumas ocasiões”, completa Paula.

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Há casos que beiram o surrealismo, e chegam até a parecer piada. No fim de 2016, o engenheiro de computação Paulo Mattos, de 42 anos, solicitou um carro na Barra da Tijuca, onde mora, para buscar a mãe no Aeroporto do Galeão. “O motorista estava inscrito no Uber havia apenas seis meses, então fui mostrando o caminho até a Ilha do Governador. Chegando lá, expliquei que era só seguir as placas”, conta Mattos. Quando o rapaz anunciou a chegada ao destino, o engenheiro, que estava distraído mexendo no celular, levantou a cabeça e tomou um susto. “Estávamos parados em frente a uma borracharia chamada Galeão, na entrada de uma favela”, conta. A baixista Eliza Schinner, de 35 anos, foi expulsa de um UberX de madrugada, na Zona Norte. Após pedir educadamente para trocar a estação de música gospel no rádio, foi ignorada e resolveu então provocar, dizendo que era satanista. A brincadeira foi levada a sério pelo motorista, que perdeu o controle. Já a terapeuta holística Carolina Lobão, de 30 anos, passou por sufoco ainda maior. Certa vez, ao sair do trabalho em Santa Teresa, perguntou se o motorista sabia como sair do bairro e a resposta foi sim. “O cara pegou uma rua esquisita e demos de cara com bandidos armados. Por sorte, nos deixaram passar em paz, mas fiquei em pânico. O motorista olhou para trás e começou a rir do meu nervosismo”, lembra. Segundo Carolina, a qualidade dos carros também caiu muito. Além de serem modelos antigos, os veículos rodam constantemente em­porcalhados. É tanto perrengue que a blogueira Carolina Rabello, de 32 anos, criou a hashtag #CarolnoUber para narrar nas redes sociais suas desventuras com o aplicativo, que incluem até mesmo um episódio em que ela e os amigos precisaram trocar um pneu furado.

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Lançado em 2010 em São Francisco, na Califórnia, e presente em 554 cidades do mundo, o Uber apresenta queda de qualidade no serviço que presta em função do crescimento desordenado da empresa, ao menos no Rio. “O alto índice de desemprego contribuiu para o aumento do número de motoristas e, consequentemente, para a queda do padrão. Muitos estão ali simplesmente fazendo um bico”, afirma o professor de engenharia de transporte da Coppe, Paulo Cezar Ribeiro. Frente à crise econômica, a alternativa aparentemente fácil se torna sedutora. Enquanto no início da implementação do Uber no Brasil era realizado um treinamento com os candidatos a motorista, hoje as exigências se limitam à apresentação de documentos e licenças para o transporte de passageiros e atividade remunerada. O procedimento pode ser realizado on-line, o que dificulta a fiscalização. “Quando quis me cadastrar, passei mais de duas semanas fazendo aulas, provas de conhecimento da cidade e testes psicotécnicos. Era obrigatório o uso de terno e gravata e meu carro sofreu uma vistoria meticulosa. Coisa de primeiro mundo”, lembra Mauricélio Mesquita, técnico de contabilidade e um dos primeiros a aderir à empresa, em 2014, quando ficou desempregado. Por mês, ele tirava entre 9 000 e 10 000 reais. Hoje, percebe os problemas e observa que, da turma de 100 pessoas da qual fez parte, só ele e mais um continuam prestando o serviço. “Não consigo tirar o mesmo salário, e o tratamento do Uber com o motorista piorou muito. Tive meu carro roubado em serviço e fui aconselhado apenas a registrar um boletim de ocorrência.” Seu rendimento médio atual é de 4 000 reais. Segundo o professor Paulo Cezar Ribeiro, a saída estaria na regulamentação da plataforma. “É preciso haver o estabelecimento de políticas públicas para que esses serviços inovadores funcionem de fato, com respeito aos passageiros e também aos motoristas”, conclui.

Taxista Pedro Garces

 (Felipe Fittipaldi/)

Inimigo número 1 dos taxistas, responsáveis por uma série de protestos, alguns bem violentos, pela cidade, o Uber começa a ser ameaçado no campo virtual. Já há plataformas rivais em atividade, como a espanhola Cabify e a indiana WillGo, em crescimento no Brasil, o que amplia ainda mais esse nicho de mercado nos grandes centros urbanos. Os profissionais de táxi também começam a se mexer para tentar recuperar o mercado perdido. Presente em 550 cidades, o aplicativo nacional 99 Táxis, dedicado aos amarelinhos, foi rebatizado de 99 e aposta em promoções competitivas. No ano passado, registrou um crescimento de 32% no Rio com o modo “desconto”, que faz frente às faixas mais baixas da tarifa dinâmica do Uber. Após o aporte financeiro de 320 milhões de reais que recebeu recentemente da chinesa Didi Chuxing, uma das principais concorrentes do Uber mundo afora, a startup planeja oferecer a opção de motoristas particulares na cidade ainda em 2017, e testar novidades como tuk-tuks e bike-tuks, que vão circular durante todo o verão carioca. Segundo pesquisa conduzida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Nova York, os serviços de motorista particular aniquilarão em breve o táxi convencional. Modalidades mais em conta, como o UberX e o Uber Pool, podem absorver 80% da demanda pelo transporte particular convencional. Atento às mudanças, o taxista Pedro Garcês Augusto, 33 anos, tem investido na fidelização da clientela. Em seu Toyota Corolla ano 2015, dispõe de mimos como wi-fi, TV digital e até massageador para os passageiros, bem como aceita pagamento com cartões de débito e crédito. “Tem dado tão certo que me procuram inclusive para fazer viagens a outros municípios, como Angra dos Reis”, conta. Além da “taxirização do Uber”, temos outro fenômeno em curso, a “uberização dos táxis”. Melhor para o passageiro.

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Comentários
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  1. Jaime Júnior

    Aposto q isso é reportagem comprada. Estive aí e não me decepcionei com o Uber. Já com táxi fui me enrolaram. Mas só uma vez. Depois fui de Uber.

  2. Jaime,
    Seu comentário está baseado somente em você, essa reportagem está baseada não somente nas informações que dispõe, muitas delas lógicas! E também no que vemos e ouvimos de conhecidos, nas ruas e dos próprios e inúmeros motoristas. Infelizmente a Uber se perdeu. Concorrência é necessário.

  3. Roberto Maciel

    As pessoas querem pagar uma micharia pela corrida e ainda querem exigir, façam me o favor né.

  4. Matéria comprada, sou usuário do uber é não tenho nada a reclamar, sem comentários para a diferença de serviço, valor muito bom para deslocamento. Tudo que essa matéria falou não condiz com a uber, os taxistas são tão piores.

  5. Adalberon Junior

    Reportagem padrão VEJA, tendenciosa e velha. Isso eh falta de assunto ou tem alguém pagando vcs? Lamentável esse tipo de jornalismo.

  6. Jose Gaspar Araujo

    Nunca teve nenhum tipo de treinamento na uber aonde eles ofereciam este treinamento nunca vi só vocês usuários que acreditam até hoje nisso ……

  7. Paulo Penteado

    ok

  8. Na minha opinião deve constar que está em dinâmico para então decidirmos tomar uma decisão!
    Quanto ao uso do GPS, por experiência aí… aqui nos EUA só se anda com GPS!
    E observando aqui as roupas dos motoristas, cansei de ver motorista de camisa t-shirt e bermuda, afinal não é usando uma bermuda e camisa que vai definir a qualidade do serviço!
    Acontece que as pessoas querem chofer, contrate!!! Ou ande de Uber black

  9. Pedir UberBLACK que é bom nada ne! Quer pagar 20 conto do aeroporto pra copa e quer regalias? Esse relato ai do cara do Galeão é kaoo, cara com 6 meses de Uber não saber onde é o Galeão não tem como

  10. ALBERTO RODRIGUES

    Claro que a reportagem não é paga. UBER é uma empresa péssima no Rio de Janeiro. Esta com qualidades de carros inferior ao desejável. Os carros não são feitos vistorias pela empresa, o motorista não é admitido a teste tóxicológico e nem tem que apresentar antecedentes criminais. Taí a consequencia ainda bem que existem outros aplicativos mais sérios e com excelente qualidade. UBER NUNCA MAIS SÓ NA CADEIA