Incêndio no velódromo é símbolo do descaso com o legado olímpico

O teto calcinado de uma das instalações da Olimpíada mostra como, em um ano, passamos do sonho de grandeza e glória para a realidade do descaso

A imagem não poderia ser mais melancólica, exatamente na semana em que a maior festa que a cidade já sediou completa um ano. Por volta da 1 da madrugada de domingo (30), o velódromo, uma das estruturas mais vistosas do Parque Olímpico da Barra da Tijuca, ardeu em chamas. Os bombeiros levaram apenas uma hora e meia para controlar o incêndio, mas pela manhã era possível ver o estrago na forma de uma mancha calcinada no telhado branco. Até quinta (3) ainda não havia uma confirmação oficial da causa do desastre, mas o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, publicou em uma rede social que a queda de um balão fora a causadora da destruição. O laudo provisório da perícia, entretanto, se limitou a reconhecer “causa externa”. Pela falta de seguro para cobrir os danos, o destino do local era uma incógnita.

Última estrutura a ser inaugurada antes dos Jogos, o complexo que sediou as provas de ciclismo abriga a pista mais rápida do planeta. Para construí-la, o governo federal investiu 150 milhões de reais em requintes como milhares de lâminas de pinho-­siberiano importadas da Alemanha que forram o piso destinado às bicicletas. Para mantê-las impecáveis são gastos 180 000 reais em energia consumida pelas máquinas de ar condicionado. Se a temperatura não for controlada entre a mínima de 18 e a máxima de 26 graus, com umidade do ar em 30%, o piso se estragará. Desde o fim dos Jogos, a arena recebeu apenas uma competição. Ela é parte de um grupo de quatro instalações repassadas ao Ministério do Esporte pela prefeitura, que não conseguiu encontrar investidores interessados em ocupá-las. Se alguém procurava um símbolo dos tempos atuais no Rio, o velódromo assume o posto à perfeição. Com sua mancha enegrecida, é o exemplo de como passamos do sonho de glória olímpico para uma realidade de corrupção, negligência e descaso.

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