Hortas cultivadas em terrenos ociosos estimulam vida comunitária

Existem pelo menos 66 hortas urbanas espalhadas pelo Rio, segundo dados da Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserva)

(Anna Fischer//Hortas cultivadas em terrenos ociosos estimulam vida comunitária/Veja Rio)

A placa pregada em uma árvore ao lado de uma pilha de galões vazios convida os moradores: “Quer ajudar? Quer colaborar? Precisamos de muita água. Muita água mesmo!”. No canto oposto do terreno, batizado de Horta Comunitária da Rua General Glicério, em Laranjeiras, um monte de folhas esconde uma mistura de terra e lixo orgânico, onde minhocas se proliferam e fertilizam o solo. Aos sábados, por volta das 15 horas, logo depois da tradicional apresentação de choro, que ocorre semanalmente a alguns metros dali, cerca de vinte moradores do entorno dedicam-se ao mutirão para cuidar dos canteiros. Uns varrem as folhas, outros buscam água em um prédio próximo. Depois, aram a terra, doada pelo Jardim Botânico, e finalmente regam os canteiros, construídos com recursos de uma campanha de financiamento coletivo que arrecadou 24 000 reais. A empresa de cosméticos Natura doou a metade desse valor.

Na área de 2 800 metros quadrados, onde hoje o alemão Manfred Bert lidera o grupo que planta frutas, legumes e hortaliças, existiam três prédios, cujas estruturas cederam depois de um deslizamento de terra provocado por um temporal, em 1967. O local foi interditado, e ainda hoje é possível ver resquícios dos edifícios por ali. “Foram necessários quatro caminhões para tirar o lixo. Agora, é um lugar onde fazemos piquenique, plantamos e as crianças brincam e aprendem sobre a natureza”, conta Bert.

Os dados da Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserva) contabilizam a existência de pelo menos 66 hortas urbanas espalhadas pelo Rio. São áreas mantidas por voluntários com o apoio do poder público e, eventualmente, de empresas privadas. O movimento levou à criação do Hortas Cariocas, um programa de estímulo ao cultivo de alimentos orgânicos em áreas subutilizadas da cidade. A prefeitura paga bolsas mensais de 570 reais aos administradores dos terrenos e de 450 reais aos hortelões em trinta projetos. “O objetivo é estimular hábitos alimentares mais saudáveis e o empreendedorismo ambiental”, explica Aline Meira, gerente do programa.

Estruturar hortas orgânicas em meio ao caos urbano é uma tarefa que não tem nada de trivial. Além de todo o trabalho duro, é comum o enfrentamento com vizinhos que não aceitam os projetos. Depois de quatro anos cultivando um terreno na Praça do Ipê, na Gávea, Felipe Gavazza e seus colegas do Coletivo Horta Nossa foram expulsos pelo síndico de um prédio vizinho. Ele adotou oficialmente a área na prefeitura e a cercou, para impedir que a iniciativa tivesse prosseguimento. Agora, o grupo de jovens dedica-­se a cultivar um canteiro em frente ao Colégio Pedro Ernesto, na Lagoa. “A escola empresta a mangueira para que possamos regar as nossas mudas, e está interessada em aulas de educação ambiental para o ano que vem”, anima-se Gavazza, que comemora o nascimento do primeiro girassol no local.

Nos arredores da estação do Trem do Corcovado, no Cosme Velho, em um terreno que fazia parte da Praça São Judas Tadeu, Sônia Miranda comanda uma miniplantação que virou ponto de encontro, sobretudo em datas festivas. Nessas ocasiões, até os turistas aproveitam para conhecer frutas e hortaliças brasileiras. Pimenta, hortelã e capim-­limão são fornecidos ao Prana, restaurante vegetariano situado em frente ao local. Em contrapartida, a casa contribui com matéria orgânica que abastece as composteiras. “Quase todos os nossos pratos levam algum insumo que a Sônia nos dá. A hortelã, por exemplo, é usada na cafta, um dos pratos mais pedidos”, revela Jackson Silva, gerente do Prana. O sabor dos produtos pode até ser igual ao de similares vindos do supermercado, mas a origem deles, ligada à nossa cidade, confere um charme todo especial à comida.

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