Explosão no número de roubos de celulares aquece mercado informal

Quantidade de aparelhos roubados cresceu mais de 40%, em comparação com 2016

 (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Americana radicada no Rio, Kiratiana Freelon circula à vontade pela cidade. No primeiro sábado de setembro, a jornalista viveu um desses dias típicos de carioca — no que a rotina por aqui pode ter de bom e de ruim. Saiu de casa, no Catete, rumo a uma feijoada com samba em Oswaldo Cruz. Pegou o trem na Central e, devidamente acomodada, decidiu distrair­-se com seu smartphone. A viagem corria tranquilamente até que, em uma das paradas, o estranho com quem dividia o banco tomou o aparelho de suas mãos e desceu da composição. A porta se fechou, o trem partiu e Kiratiana engrossou a enorme lista das vítimas de roubo de celular. “Nos últimos meses, seis amigos meus, em lugares variados, já passaram por isso”, conta ela. Histórias de igual desfecho, que só se diferenciam pelo grau de violência envolvido, multiplicaram-se em 2017. Segundo o Instituto de Segurança Pública, órgão ligado ao governo do estado, a quantidade de aparelhos roubados na cidade entre janeiro e julho deste ano cresceu mais de 40%, em comparação com o mesmo período de 2016. Na frieza dos números, o salto foi de 2 707 casos para 3 828.

Feitas as contas, são dezoito assaltos por dia. Pela ordem, Bangu, Madureira e Bonsucesso lideram o ranking vergonhoso, mas o fenômeno é generalizado: no Leblon e na Barra, o aumento da incidência desse tipo de crime bateu em 100%. Dados da seguradora Assurant também registram o descalabro. A empresa anotou uma elevação superior a 30% nos sinistros com celulares entre cariocas. Em São Paulo, Belo Horizonte e outras cidades onde a companhia opera, houve crescimento, mas à razão de 20%, em média. Cidadãos a pé, no trem ou onde for não são o único alvo. Na opinião de Venâncio Moura, diretor de segurança do Sindicato das Empresas do Transporte Rodoviário de Cargas e Logística do Rio de Janeiro (Sindicarga), o interesse bem específico da bandidagem colaborou fortemente para impulsionar o roubo de carregamentos no estado — das 4 848 ocorrências do primeiro semestre de 2016 para 6 087 no mesmo período deste ano. Além de pedestres distraídos e caminhoneiros em serviço, os lojistas estão na mira. No dia 8, a filial do Ponto Frio em Ipanema foi invadida pela 18ª vez só neste ano — o ataque anterior, de 22 de agosto, resultou em 130 smartphones a menos no estoque.

De janeiro a abril, a polícia estima que os comerciantes cariocas tenham perdido 30 milhões de reais com essa modalidade criminosa. Há, porém, quem saia ganhando com a situação. O negócio de carga roubada espalha-se pelo Rio e leva má fama ao camelódromo da Uruguaiana, no Centro, inaugurado em 1994 como uma tentativa de organizar o comércio informal no bairro. Nos boxes há de tudo: entre empreendimentos honestos, como barbearias, loja de produtos para pesca e serviços de assistência técnica, encontram-se itens de origem pouco confiável. Em plena calçada, dias atrás, um ambulante oferecia um iPhone 5S por 50 reais.

Negociantes sérios da área recomendam distância desse tipo de pechincha. Os preços mais atraentes são, além de suspeitos, impraticáveis (veja o quadro). Aquele “negócio da China” pode até ser importado de fato — em geral, trata-se de uma réplica barata, feita para enganar incautos, incompatível com carregadores e outros componentes originais —, mas quase sempre é produto do crime. Há outros pontos de venda ilegal pela cidade, mas a Uruguaiana sobressai como uma espécie de “zona franca”, no mau sentido. Agentes de segurança do Centro Presente alegam que o lugar não faz parte do perímetro de atuação do projeto. Para a Polícia Civil, a fiscalização das mercadorias à venda é atribuição da Guarda Municipal e da Secretaria de Ordem Pública (Seop). Representantes desse segundo órgão municipal, por sua vez, prometem anunciar medidas saneadoras até novembro. Por enquanto, é bom tomar cuidado duplo: na hora de usar e na hora de comprar o seu celular.

 (Veja Rio/Veja Rio)

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