Agente da Guarda Municipal faz sucesso na web com dicas de moda

Luanda Almeida faz vídeos em provadores de loja e compartilha achados fashion com 260 000 seguidores no Instagram

Em uma pacata rua em Vila Valqueire, na Zona Oeste, uma casa de muro verde desbotado, toda em reforma, esconde um quarto dos sonhos. Parece a casa da Barbie: dos móveis aos objetos de decoração, quase tudo é rosa, até o frigobar. O cômodo tem uma pequena arara de roupas, duas máquinas de costura, uma estante que abriga pelo menos dez bolsas, entre réplicas da Gucci e da Chanel, e uma prateleira com cerca de 150 vidrinhos de esmalte organizados meticulosamente por cor, em dégradé. Sobre a penteadeira­-camarim, repousa uma infinidade de pincéis de maquiagem, batons, sombras e perfumes. No ar paira o aroma adocicado de La Vie Est Belle, da Lancôme, a fragrância preferida de Luanda Almeida, de 32 anos. Ali, em seu estúdio, ela deixa de lado a farda da Guarda Municipal, onde trabalha há seis anos, grava vídeos sobre moda para o YouTube e faz fotos de seus looks para o Instagram, onde é seguida por 260 000 pessoas. Entre os fãs virtuais da agente de trânsito fashion, que vai trabalhar maquiada todos os dias, estão promoters descoladas da Barra, como Nina Kaufmann e Ana Paula Barbosa, e até o ex-prefeito Eduardo Paes. “Houve uma época em que ele assistia a todos os meus vídeos no Insta, tenho até cópia de tela em que aparece o nome dele”, diverte-se Luanda, que usa lentes de contato azul-­topázio. “Na guarda, muitas agentes me seguem, e as esposas dos colegas também.”

Pelo menos duas vezes por semana, a blogueira, que já foi dona de uma marca de roupas, visita centros comerciais, como BarraShopping, Norte Shopping e Mercadão de Madureira, em busca de achados e novidades. Apesar de já ter desembolsado 7 000 reais por uma bolsa Louis Vuitton original, suas marcas preferidas são as de fast-fashion, como Renner, Riachuelo, C&A, Zara e Forever 21, onde costuma gravar a série “Look no provador”. Como o nome diz, são vídeos feitos por ela mesma, dentro da cabine, experimentando as peças eleitas do dia. A guarda fashion também usa a internet para ensinar a customizar camisetas, dar dicas de onde comprar maquiagem baratinha e cópias de óculos escuros de grifes como Prada e Miu Miu, além de indicar tratamentos faciais e corporais que ela costuma ganhar em troca de divulgação — alguns insólitos, como o jump, uma máquina que suga os glúteos e promete empiná-los (tudo é devidamente postado em sua conta no Instagram). Vaidosa ao extremo, a blogueira é adepta ainda do preenchimento labial e do Botox, e já passou por cinco cirurgias plásticas, entre procedimentos no nariz, nas pálpebras, lipoaspiração e implante de próteses de silicone nos seios.

Seu estilo, que ela define como casual-chique, foi conquistado aos poucos por meio de cursos como o de consultora de moda e o de maquiadora no Senai Cetiqt. “Já me vesti muito mal, e ainda tinha um megahair enorme, louro branco. Eu parecia uma mistura de ‘ném’ com travesti. Hoje, estou mais chique”, dispara ela, sem se preocupar em ser politicamente correta. Com a ajuda do marido, um microempresário do ramo de automóveis, a blogueira já chegou a pagar 9 000 reais por uma viagem a Paris, na França, onde ficou uma semana para estudar o assunto, com o projeto Moda Mundo Circuito, que teve a badalada influenciadora digital Boca Rosa como convidada. “Ninguém nasce pronto, tudo é um processo de aprendizado. Fiz questão de investir em cursos para não detonar a vida de ninguém dando dicas ruins. Sou espelho para muita gente”, conta Luanda, que trancou a matrícula na faculdade de direito e, no ano que vem, começará a estudar design de moda. “A Luanda encarna as mulheres da vida real e mostra que dá, sim, para compor looks bacanas sem gastar muito. Chique é isso”, afirma Alê Duprat, stylist de celebridades como Fernanda Lima, Paolla Oliveira, Juliana Paes e Deborah Secco.

Comprado pelo Facebook em 2012 por 1 bilhão de dólares, o Instagram sempre teve a moda entre os conteúdos de destaque. A hashtag “fashion” é a sexta mais popular no Brasil, atrás apenas de “love”, “bom dia”, “boa noite”, “instagood” e “amor”. E mais: segundo uma pesquisa do Facebook, 80% dos usuários da plataforma já fizeram alguma compra inspirados no que viram nas fotos. Não à toa, grifes pagam caro para ter seus produtos citados pelas celebridades virtuais que têm milhares de seguidores. No caso de Luanda, os ganhos mensais com a internet já superam o salário de 3 000 reais da Guarda Municipal. “Houve mês em que tirei 7 000 reais. Também já recebi hospedagem de graça com a minha família em Cabo Frio e Angra dos Reis”, conta ela, que cobra a partir de 500 reais por um post patrocinado e o mesmo valor pela presença vip em eventos como a inauguração da Clínica do Dr. Hollywood, há um ano, na Ilha do Governador. Paralelamente ao expediente na Guarda Municipal, a blogueira planeja cuidadosamente o lançamento de uma grife de roupas descoladas criadas por ela. Mas Luanda sonha mesmo é com o dia em que sentará na primeira fila da Semana de Moda de Paris.

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