A vida de turista profissional de Pedro Andrade

Com um programa de viagens na TV, que estreia a terceira temporada, o jornalista acumula cinco passaportes cheios de carimbos e mais de 1 milhão de milhas

O apresentador no Parque Lage: um de seus lugares preferidos na cidade

O apresentador no Parque Lage: um de seus lugares preferidos na cidade (Anna Fischer/Veja Rio)

Sexta-feira, 23 horas, Aeroporto Internacional JFK, Nova York. Com apenas uma mala de mão e inúmeros recortes de jornais e revistas contendo informações sobre a Ásia, Pedro Andrade aguarda para embarcar. Todo o roteiro foi organizado minuciosamente. Depois de duas escalas e 25 horas de voo, ele chega ao Sri Lanka. No país insular, que por duas décadas enfrentou uma guerra civil, vai a lugares revitalizados, conhece mercados tradicionais, prova comidas típicas e bate papo com moradores. Após seis dias, divididos entre Colombo, uma cidade cosmopolita, e Kandy, região que sedia o maior festival de budismo do mundo, Pedro volta a Manhattan para compromissos. No dia seguinte, refaz a mala, segue para o JFK e embarca em outra aventura. Só em agosto passado, seu passaporte recebeu o carimbo de quatro nações. Em 2017, o apresentador pisou em pelo menos vinte países, em dez deles para gravar a terceira temporada do programa Pedro pelo Mundo, exibido no canal GNT, que estreia em 21 de março. Os novos episódios incluem, além do Sri Lanka, lugares como Rússia, Tailândia, Líbano, China e Tanzânia. O carioca radicado em Nova York ainda cruzou oceanos para estrelar campanhas publicitárias e dar palestras. Pode-s­­e dizer, sem exagero, que por ano ele passa quase um mês dentro do avião. Não à toa, acumula mais de 1 milhão de milhas, divididas entre companhias americanas e empresas aéreas remotas, como a asiática Air Yangon. Nesse montante estão computadas também as seis vindas anuais ao Rio, quando não escapa de comentários do tipo: “Quero um vidão desse”, “Você ainda ganha para viajar” e “Me leva na mala”.

 

O apresentador, em Myanmar: um de seus episódios preferidos em Pedro Pelo Mundo

O apresentador, em Myanmar: um de seus episódios preferidos em Pedro Pelo Mundo (Gustavo Nasr/Veja Rio)

 (Reprodução Veja Rio/Veja Rio)

É inegável que, para quem adora conhecer culturas diferentes e sonha em desbravar o planeta, Pedro tem o melhor emprego do mundo. Mas não é bem assim. Embora não transpareça no vídeo, a vida de turista profissional não é exatamente sombra e água fresca. Suas viagens são uma maratona insana. Ele e uma equipe de três pessoas (uma diretora, outro diretor que faz a câmera e um diretor de fotografia) passam 48 horas em cada cidade e gravam, em média, sete pautas por dia. A única exigência que faz é dar uma paradinha para satisfazer um vício: comprar cartões-postais para a família e amigos. O tempo é tão apertado que, quando surge uma eventualidade, a surpresa é incorporada ao episódio. Foi assim quando o apresentador teve uma intoxicação alimentar brutal em Mianmar, gravou com a camisa empapada de suor no verão chinês ou enfrentou uma baita ressaca após provar uma sucessão de drinques na Islândia. Para piorar, não prega os olhos nos voos, mesmo com as cápsulas de melatonina (hormônio natural) que toma para driblar a insônia. Como toda a equipe, viaja na classe econômica. “Apesar dos percalços, não troco isso por nada. Muita gente viaja para escapar da vida, eu viajo para que ela não me escape”, diz o jornalista, que ainda integra a bancada do Manhattan Connection, exibido semanalmente pela Globo News, e faz reportagens como freelancer para a rede americana ABC.

Nascido em Laranjeiras, filho de uma professora e de um advogado, ele sempre teve o desejo de se lançar pelo mundo. Pensou em ser piloto, diplomata, comissário e correspondente internacional. No terceiro período de jornalismo, porém, foi surpreendido por um convite: “Quer ser modelo?”. Pedro, com 1,84 metro de altura, 74 quilos e óculos fundo de garrafa (tinha 6,5 graus de miopia), chamou a atenção, nas ruas do Leblon, do fotógrafo peruano Mario Testino e do caça-talentos Sergio Mattos. O jovem viu ali a chance de pôr em prática seu sonho. Passou temporadas na Grécia, Japão, França, Itália, Inglaterra e Nova York. Até então sua experiência de viajante resumia-se a um intercâmbio em Lynchburg, no Estado da Virgínia, nos EUA, e às excursões de ônibus pelo Brasil, pela antiga Soletur, com a avó. Aos 21 anos, certo de que não queria ser top model e decidido a abandonar de vez a faculdade, foi tentar a sorte em Manhattan. Chegou sem emprego, sem amigos nem pedigree. Foi carregador de gelo, guardador de casacos, passeador de cachorros e bartender. Com oito inquilinos, dividiu um apartamento no Harlem e depois morou por seis anos numa quitinete com banheiro comunitário no Brooklyn. “A diversidade de Nova York me fascina. Ninguém nasce, cresce, se reproduz e morre ali. Todo mundo vem de algum lugar e tem um objetivo”, ressalta Pedro, que hoje vive num quarto e sala, ainda alugado, na badalada região do West Village. “Sempre vou ter um pé lá, embora seja apaixonado pelo Rio”, diz ele, que quando vem à cidade não dispensa um mergulho na Prainha, uma ida ao Parque Lage e um copo de açaí.

Até ostentar cinco passaportes coalhados de carimbos, percorreu um longo caminho — em solo americano. Estreou no jornalismo como apresentador de um programa de variedades na internet. Com o ouvido aguçado, o sotaque latino, alvo de preconceito no início, sumiu. Além de inglês, fala espanhol, arranha o francês e o italiano e, como diz, tem muita cara de pau. O que o ajudou, sem dúvida, a se firmar na rede NBC, que comprou o tal programa da web para reproduzir na grade aberta. Na emissora, comandou um reality de bartenders e a atração First Look, no qual mostrava o melhor da gastronomia, da arte e do entretenimento na Big Apple e depois pelo país. Orgulha-se da indicação ao Emmy (Oscar da TV) por esse trabalho e de ter sido o primeiro brasileiro a apresentar um programa americano em rede nacional. Foi nessa época que surgiu o convite para o Manhattan Connection. Num único dia, o âncora Lucas Mendes deparou com a imagem dele três vezes: na TV do avião, num monitor do aeroporto e na telinha do táxi, todos parceiros da NBC. “Era o homem-vídeo. Tinha presença, voz e se mostrava à vontade na reportagem e na bancada”, conta. Convidado para uma participação no Manhattan, sem saber que buscavam outro apresentador, foi tão bem que o contrataram. Alvo de críticas cruéis no início, como “Quem é o almofadinha?” ou “Tirem esse modelo do ar!”, Pedro provou ter personalidade, como há poucas semanas, quando rebateu um comentário do próprio Lucas Mendes, que levantou suspeitas sobre os relatos de ginastas vítimas de abuso sexual. Ao longo de oito temporadas, ele conquistou não só o público como os tarimbados colegas. “É moleza gostar do Pedro. Seus talentos ficaram evidentes desde o primeiro programa: inteligente, articulado, carismático, modesto e bonito. Ele se tornou maior que o Manhattan, mas não abandona seus velhinhos”, elogia Diogo Mainardi, conhecido pelos comentários ácidos.

 (Reprodução/Veja Rio)

O jornalista carioca, de fato, é hoje um globe-tr­otter. Conseguiu se destacar em meio a uma avalanche de blogs, canais no YouTube e atrações sobre turismo na televisão paga. Para se ter a dimensão, só em três canais da Globosat, a maior programadora de TV da América Latina, há dezesseis programas de aventuras mundo afora. Com uma fórmula singular, Pedro pelo Mundo não se propõe a exaltar os hotéis mais luxuosos nem as paisagens mais espetaculares do planeta. As imagens são incríveis, mas o foco é mostrar destinos em transformação e dar voz a pessoas com histórias relevantes. Pode ser um ativista mexicano na era Trump, uma vítima do genocídio no Camboja, uma jovem obcecada por beleza em Seul ou um hacker na Rússia. “Prefiro lugares problemáticos. Mesmo em capitais prósperas, como Copenhague, exploro outro viés. Por que ali, a cidade mais feliz do mundo, há tanto suicídio?”, exemplifica. O jornalista começou o programa, em 2015, já com uma bela bagagem. Além da experiência na NBC e no Man­hattan, ele tem no currículo o trabalho como âncora de uma produção matinal na rede ABC, entrevistados que vão de Michele Obama ao ator Keanu Reeves e reportagens para várias atrações da emissora. “Pedro é bem informado, consistente em suas colocações, e tem alto índice de credibilidade”, resume Daniela Mignani, diretora do GNT. O programa fechou 2017 entre os top 10 de faturamento do canal, resultado do misto de informação com entretenimento e certa dose de exotismo. O apresentador já apareceu experimentando tarântula, barata, sopa de cobra e uma goma alucinógena, com textura de chiclete, numa tribo em Botsuana. Pode ser visto mergulhando no esgoto de Hanói ou no mar cristalino de Malta. Suas hospedagens vão de riads (construções típicas marroquinas) a tendas no deserto. “Ele nunca se coloca na posição de apresentador-estrela. Não tem frescura”, comenta Tatiana Issa, uma das diretoras do programa, uma criação da Producing Partners, que também põe no ar atrações como o Além da Conta, com Ingrid Guimarães.

Best-seller: com dicas da cidade onde vive, o livro ficou 1 ano entre os mais vendidos

Best-seller: com dicas da cidade onde vive, o livro ficou 1 ano entre os mais vendidos (Reprodução/Veja Rio)

Mesmo com essa rotina, ou melhor, diante da falta dela, Pedro é uma pessoa metódica e de hábitos fiéis. Quando está em Nova York, acorda sempre às 6 horas, adora ir aos mesmos restaurantes (não sabe cozinhar) e, apesar de dominar os recursos da internet e ser ativo nas redes sociais, anota todas as funções do dia seguinte num papelzinho. O apresentador sonha em ser pai. Reservado, a única vez em que um relacionamento seu se tornou público foi quando surgiram notícias de que estava namorando Lance Bass, ex-integrante da banda americana ’N Sync. “Ele é só um grande amigo, mas nunca me preocupei em desmentir. Não tenho preconceito com relação a nada, mas tomo cuidado com rótulos”, diz. Workaholic inveterado, Pedro é viciado em notícias. Chegou a ponto de ter parado de ler publicações de ficção para se concentrar em páginas mais informativas. Autor de um guia com dicas sobre Nova York que ficou um ano na lista dos mais vendidos no Brasil, ele planeja atualizar as recomendações e ainda prepara mais um livro, com textos e fotos que tira em suas andanças pelo mundo. Do tipo que não consegue se desligar do trabalho, faz análise, tenta se distrair pintando e começou recentemente a praticar jiu-jítsu e meditação. Isso, claro, quando não está viajando.

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