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Turismo do Rio prepara estratégias para retomada pós-pandemia

Setor, um dos mais baqueados pela pandemia, tem tudo para se reerguer e reanimar outras áreas quando tudo se normalizar

Por Fabio Codeço - Atualizado em 5 jun 2020, 18h12 - Publicado em 5 jun 2020, 06h00

Acostumado a receber celebridades e chefes de Estado, o Copacabana Palace ainda aguarda o dia em que poderá ver a pérgola de sua famosa piscina cheia de vida novamente. O hotel-símbolo do glamour carioca, que dá verniz a um cartão-postal já tão lindo por natureza, está vazio pela primeira vez desde que abriu as portas, em 1923. Na Zona Portuária, a roda-gigante que o Rio inaugurou em dezembro, a exemplo do que ocorreu em cidades como Paris e Londres, também parou de girar. O Cristo Redentor e o Pão de Açúcar estão envoltos em silêncio – e o Maracanã, cujo gramado já testemunhou de tudo um pouco na história do futebol, foi convertido em um hospital de campanha. O jogo agora é salvar vidas.

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E assim, de três meses para cá, a pandemia paralisou o turismo no Rio, o principal motor da economia fluminense, atrás apenas do petróleo. “Estamos em um túnel e ainda desconhecemos sua extensão, mas certos de que o turismo será uma mola vital para a retomada do Rio”, diz o secretário estadual da pasta, Otavio Leite.

Novos protocolos no Pão de Açúcar: teleféricos desinfetados a cada viagem Alexandre Macieira/Riotur

Apesar de ter sido um dos setores mais baqueados pela pandemia, o turismo tem tudo para se reerguer aos poucos e reanimar muitas outras áreas que dependem dele quando a rotina for se normalizando. São ao todo 52, entre elas cultura, entretenimento, eventos, transporte, gastronomia e segurança. Sim, por ora cartões-postais de tirar o fôlego seguem em quarentena, mas isso não quer dizer que o setor esteja aguardando o retorno das atividades para agir. “As pessoas vão querer se sentir seguras quando voltarem a viajar, e é nisso que estamos focados neste momento”, afirma Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih-RJ).

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Copacabana Palace: vazio pela primeira vez desde 1923 Alexandre Macieira/Riotur

Hotéis, atrações turísticas, centros culturais e parques da cidade já passaram a treinar suas equipes segundo a cartilha da prevenção e da segurança para a saúde: ela inclui distanciamento social, uso de máscara e demais equipamentos de proteção individual, os EPIs (fornecidos também a clientes em alguns casos), e higienização regular de espaços e objetos.

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Para ajudar a recuperar a confiança da população, foi criado um selo para estabelecimentos que implantarem esse rol de boas práticas. Quem obedecer aos parâmetros estará habilitado a solicitar o certificado para afixar em suas paredes, mediante a assinatura de um termo de compromisso – o descumprimento poderá gerar multas e até a cassação de alvará. O modelo foi inspirado em Portugal, onde hotéis começaram a reabrir em maio com a adoção de regras como lotação reduzida, mesas e espreguiçadeiras exclusivas para cada hóspede, check-in on-line e proteções de acrílico na recepção. O grupo Moov, com unidades no Porto e em Évora, permite que o hóspede durma cada noite em um quarto ou opte por não ter limpeza, para evitar que mais gente circule no cômodo.

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Pesquisas já deixam vislumbrar como será o futuro do turismo pelo menos em curto prazo. A britânica Mail Metro Media identificou que, neste primeiro momento, o público vai privilegiar destinos ao ar livre, que ofereçam maior possibilidade de distanciamento, como praias e áreas rurais. Também levará algum tempo até que as pessoas se sintam seguras para entrar em um avião. No caso do Rio, com a queda no número de estrangeiros na cidade, o foco será o turismo nacional, estratégia seguida por países europeus depois da Segunda Guerra Mundial. O esforço se concentrará em atrair turistas que se situem em um raio de até 500 quilômetros ou a seis horas de carro, arco que abarca São Paulo, Belo Horizonte e Vitória.

Turismo no Rio: ideia inicial é atrair moradores de estados vizinhos, como São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo Veja Rio/Veja Rio

O Rio tem seus óbvios atrativos – é uma metrópole margeada de praias paradisíacas e ainda dispõe de pontos perfeitos para o ecoturismo. Mas, nestes tempos, é preciso criar estímulos para o bolso. A Abih, por exemplo, está em busca de parcerias com postos para oferecer tarifas especiais de combustível àqueles que comprovarem a reserva em um hotel da cidade. O Pão de Açúcar vai estender o programa de descontos hoje restrito a cariocas a moradores de municípios vizinhos.

Na linha da proteção, acaba de comprar câmeras de imagem térmica, para medir a temperatura dos visitantes. “Os teleféricos serão desinfetados a cada viagem”, acrescenta o CEO, Sandro Fernandes. Medidas semelhantes se estabelecerão no AquaRio e no Centro de Visitantes Paineiras. As visitas vão ser escalonadas e os ambientes, higienizados com tecnologia UV-C, que utiliza radiação ultravioleta para eliminar vírus, bactérias e outros microrganismos.

Seis quiosques serão inaugurados em praias cariocas no segundo semestre: o do hotel Fairmont é um deles Alexandre Macieira/Riotur

Em Barcelona, onde as praias foram apenas parcialmente liberadas, as regras também se amoldaram à realidade pós-pandemia, com a exigência do distanciamento de 2 metros entre os grupos (pequenos) e do uso da já inseparável máscara. Enquanto esse tipo de disposição ainda está em estudo para as praias daqui, a Orla Rio, que administra 309 quiosques do Leme ao Pontal, contratou uma infectologista para treinar donos e funcionários de acordo com a nova cartilha. “Adotaremos menu via QR-code e formas de pagamento com o mínimo de contato possível”, adianta João Marcello Barreto, presidente da concessionária.

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Apesar da crise, seis quiosques se preparam para ser inaugurados – um deles é o do hotel Fairmont, no Posto 6. Do outro lado da Avenida Atlântica, quando voltarem os tradicionais shows realizados à beira da piscina do hotel, a transmissão vai ser simultânea nas TVs dos quartos, para quem preferir o isolamento. “Saúde será um fator preponderante na hora da escolha de onde se hospedar”, avalia o diretor de vendas e marketing do Fairmont Rio, Michael Nagy.

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Atividades que vivem das aglomerações, empregam 350 000 profissionais (80% deles temporários) e geram mais de 700 milhões de reais em impostos, os eventos enfrentam obstáculos da mais alta complexidade. Na retomada da cena cultural, que deverá ocorrer por fases, shows, festivais e afins se encontram no fim da fila. Segundo o planejado em países que estão mais avançados no combate à epidemia, a agenda desse tipo de espetáculo deverá ser reativada mais ou menos três meses depois do fim da quarentena.

Entidade que tem feito o elo com os governos federal, estaduais e municipais, o Apresenta Rio elaborou um detalhado documento que estabelece graus de risco – de “alta restrição” até “sem restrição” – para nortear a reabertura. “Levaremos em conta aspectos como o local do evento (aberto ou fechado), se dispõe de controle de acesso, se o público fica em pé ou sentado, e por aí vai”, explica Pedro Guimarães, à frente da organização.

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Países bem-sucedidos no controle da pandemia, como China, Coreia do Sul e Alemanha, começam a reabrir suas atrações com muita cautela. Enquanto não há uma vacina, é crucial respeitar de forma disciplinada as normas da Organização Mundial da Saúde.

Para dar visibilidade ampla às medidas que estão sendo tomadas nessa direção e atrair os primeiros visitantes da era pós-Covid-19, o empresário Roberto Medina criou uma campanha que contempla toda a cadeia do turismo. Na largada, a ideia é que, de hotéis a pontos turísticos, passando por espaços culturais e shopping centers, se ofereçam descontos de 30%, uma espécie de grande Black Friday carioca. Prevista para setembro, deverá durar três semanas. “O turismo é nossa grande vocação”, reafirma Medina, com a experiência de quem há 35 anos inventou o maior festival de música do mundo, o Rock in Rio. “É só acender a luz e abrir a bilheteria que o público virá”, diz o empresário, otimista. A cidade agradece a preferência.

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