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Partiu, Rio de Janeiro: turismo interno ganha força com a pandemia

Em busca de novos ares, carioca explora paisagens estonteantes de carro pelo estado ou pega táxi para um hotel na cidade. Eles estão repletos de novidades

Por Fabio Codeço - Atualizado em 18 set 2020, 15h18 - Publicado em 18 set 2020, 07h00

Fusão das palavras stay (ficar, em inglês) e vacation (férias, também no idioma anglo-saxão), o termo staycation serve para definir o turismo a lazer em sua própria cidade. Surgida na crise econômica americana de 2007, a expressão virou palavra de ordem para o setor, que começa a retomar as atividades dentro da nova ordem mundial.

Apesar de a flexibilização do isolamento social avançar mundo afora – o Rio acaba de entrar na fase 6, que liberou museus e centros culturais – , muita gente ainda pisa no freio  e prefere uma aventura nas cercanias a encarar aeroporto e avião. Estão em alta traslados de carro para destinos próximos, de preferência, integrados à natureza. E o carioca os tem em abundância, seja pela imensidão de sua costa, seja pelo pontilhado de montanhas que emolduram suas rotas. Ou ainda dentro do próprio perímetro urbano.

Para quem quer se presentear com a sensação de viajar sem ir longe, um novo mercado está ganhando impulso no novo normal: os principais hotéis da cidade estão criando pacotes para proporcionar experiências singulares na, vá lá, staycation. Reaberto em 17 de julho com 100% de ocupação (considerando a capacidade reduzida), o Fasano, que no cenário pré-pandemia ocupava dois terços de seus quartos com americanos, franceses e italianos – proporção agora de cariocas -, oferece 50% de desconto na segunda diária, incluindo café da manhã e almoço  para duas pessoas no quiosque da grife à beira-mar. Frequentar a área da badalada piscina do hotel com sua vista panorâmica faz parte do tour.

O restaurante Gero, de cozinha italiana, está instalado  temporariamente na área, antes restrita a hóspedes. “É uma oportunidade para que as pessoas passem a olhar as belezas da sua própria cidade e do Brasil com outros olhos”, avalia Constantino Bittencourt, sócio-diretor do Grupo Fasano, que também preparou pacotes com diárias grátis mais café da manhã e jantar incluídos na unidade de Angra dos Reis.

Outros expoentes da rede hoteleira estão desbravando os novos caminhos para existir neste mundo mudado. O Hotel Arpoador voltou a distribuir mesas no pedaço de calçadão mais charmoso e cobiçado da orla, servido pelo restaurante Arp, mirando também a turma carioca que ainda está em home office. “A ideia é que a pessoa possa vir fazer uma reunião, tomar um café da manhã, dar um mergulho. É um produto que estou chamando de ‘meu escritório é na praia”, explica o gerente-geral Daniel Gorin, que aposta no nicho das experiências. Entram aí em cena, por exemplo, aulas de ioga na cobertura toda quarta e sexta (gratuitas para hóspedes, saem a 320 reais no pacote de dez aulas para não hóspedes).

Quem pernoitar no Grand Hyatt, na Barra, poderá associar a estadia a atividades ao ar livre comandadas pela triatleta Fernanda Keller. “Vamos oferecer no pacote pedaladas pela praia e corrida na estrada das Paineiras”, explica a diretora de vendas Patrícia Gonçalves. Ícone do luxo carioca, o Copacabana Palace – que tem registrado uma média de 100 reservas por dia desde seu retorno, em 20 de agosto – criou um pacote que permite fechar para uso exclusivo todo o 6º andar do prédio principal, incluindo piscina, quatro suítes debruçadas para o mar e lounge de convivência (onde podem ser feitas as refeições).

O custo do mimo é elevado: três noites por lá saem por 60 000 reais, acomodando oito adultos e quatro crianças. Há opção menos dispendiosas no Copa. Uma diária estendida de trinta horas, com check-in a partir das 10h e saída às 16h do dia seguinte, parte de 1 500 reais.

A hotelaria carioca está se valendo ainda de outro fruto do turismo pós-pandêmico – o bleisure, neologismo para definir escapulidas que unem negócios (business) e lazer (leisure). “Notamos em hotéis da rede na Ásia e na Europa que as viagens de negócios estão menos frequentes, porém mais longas. As pessoas agora aproveitam para emendar o fim de semana para relaxar no hotel, curtir a cidade ou rever um amigo”, descreve Netto Moreira, do Fairmont Rio.

Praias da Região dos Lagos e friozinho de Mauá estão entre os destinos preferidos do carioca Redação/Veja Rio

Operando somente com metade de seus 375 apartamentos, o hotel adotou medidas de segurança antivírus, como uso individual da sauna, iluminação ultravioleta nos elevadores e controle de frequência na academia.

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“Estamos esperando autorização para retomarmos os shows da piscina. A ideia é que os hóspedes assistam às apresentações da varanda do quarto, uma espécie de camarote particular”, conta Moreira. Com características de resort urbano e uma vista arrebatadora das areias de Copacabana, o Fairmont também aderiu a tarifas promocionais para moradores do Rio (o desconto é de 30%).

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O que se observa é que, depois de meses de confinamento, as pessoas estão em busca de respirar novos ares. Isso se revela em refúgios como a Serra e balneários da Região dos Lagos e da Costa Verde. “Paraty reabriu para o turismo no primeiro fim de semana de agosto com ocupação máxima da rede hoteleira, levando em conta a limitação de 50% da capacidade exigida pela prefeitura”, exemplifica Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-RJ).

Com treze chalés confortáveis e distantes uns dos outros, cachoeira e espaço ao ar livre à vontade para toda a família, o Parador Lumiar voltou à ativa em 17 de julho após quatro meses fechado. Foi uma surpresa. Em agosto, mês em que tradicionalmente a procura cai por ser fim da temporada de inverno, a pousada teve 20% mais hóspedes do que no mesmo período de 2019.

“Estamos lotados durante os fins de semana e trabalhando com metade da ocupação ao longo da semana, quando costumávamos ter um ou dois chalés”, calcula o dono Marcelo Fontes, que enfatiza um aumento também no período das estadas. “Uma vez aqui, muita gente acaba prolongando a viagem.”

Há muitos casos, quem diria, de fila de espera por um quarto. Vem acontecendo no Le Canton, destino de lazer em família na Serra de Teresópolis. Até nos dias de semana lota. O resultado foi impulsionado por uma ideia interessante, o Le Canton Escolar, que disponibiliza um local para estudantes do 1º ao 9º ano assistirem a aulas on-line, acompanhados de uma pedagoga para auxiliá-los – e com todas as medidas de higiene requeridas nestes tempos.

“Pode até ser que em algum momento as pessoas não precisem mais andar de máscara, mas certos procedimentos devem ficar de vez”, acredita Priscila Bentes, CEO do Circuito Elegante, associação hoteleira que criou um selo para propriedades que seguem os protocolos sanitários recomendados pela Organização Mundial da Saúde. Chancelado pela certificadora Bureau Veritas, o Clean & Safe já aprovou 25 estabelecimentos no estado.

São endereços que adotaram medidas antivírus além do básico, como check-in on-line, cartão-chave embalado em saquinhos biodegradáveis e desinfecção de bagagens por lâmpadas UVC, só para citar alguns exemplos. Com essas novas práticas, o Casas Brancas, em Búzios, o mais bem colocado hotel-butique do Rio, reabriu em 2 de agosto, depois de mais de três meses, e desde então segue com lotação máxima nos fins de semana (dentro da capacidade limitada a 70%). “Notamos uma enorme demanda reprimida de clientes que nos perguntavam quando voltaríamos”, lembra Santiago Bebianno, um dos sócios.

Os cariocas representam até 90% do público, seguidos de paulistas e mineiros que chegam de carro. São números auspiciosos para quem viu o faturamento despencar a zero e as dívidas com fornecedores se acumular até o patamar de 300 000 reais. “A expectativa era de recuperar as contas em dois anos e meio, mas, neste ritmo, conseguiremos na metade do tempo”, comemora o empresário, que, sim, teve fila de espera no feriadão de 7 de setembro e já registra pedidos para o réveillon. Devagar e sempre, o Rio se levanta.

 

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