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Reis e príncipes aproveitam a Olimpíada para desfrutar das delícias do Rio

Realeza de toda parte do mundo, da Europa ao Oriente Médio, vem ao Rio para os Jogos Olímpicos e aproveita para se esbaldar em jantares e passeios na cidade

Por Daniela Pessoa, Pedro Moraes e Sofia Cerqueira - Atualizado em 2 jun 2017, 12h01 - Publicado em 12 ago 2016, 18h08

Residência de reis e rainhas da Dinamarca há quase 300 anos, o Palácio de Amalienborg, localizado em Copenhague, esbanja opulência nos quatro prédios em estilo rococó agrupados em torno de um vasto pátio interno. A rainha Margrethe II e o príncipe consorte Henrik passam os invernos em um deles, conhecido como Palácio de Schack. O herdeiro do trono dinamarquês, Frederik, 48 anos, e sua família vivem em outro, o Palácio de Brockdorff. O segundo filho da rainha, Joachim, de 47, mora com a segunda mulher em um terceiro, o Palácio de Levetzau. Na última semana, os dois irmãos trocaram a vida na metrópole nórdica pelos agitos do Rio olímpico. Animadíssimo e hospedado em um hotel quatro-estrelas sem graça nenhuma em Copacabana, Joachim andou de bicicleta com a mulher, Marie, e os quatro filhos pela orla e aproveitou as delícias locais. “O Rio é muito especial. Já joguei vôlei na Praia de Copacabana, comi uma carne maravilhosa e experimentei açaí, que fez o maior sucesso com as minhas crianças”, disse Sua Alteza Real em entrevista a VEJA RIO.

Mais reservado, o primogênito da família real escandinava e sua mulher, a australiana Mary Elizabeth Donaldson, restringiram a maior parte de suas atividades públicas a uma agenda protocolar, com compromissos como a abertura da Casa da Dinamarca, em Ipanema, e o jantar no Iate Clube, na Urca — Frederik é amante da vela, já correu maratonas em Nova York e Paris, disputou torneios de Ironman em seu país e desde 2009 é membro do Comitê Olímpico Internacional (COI). No entanto, nem mesmo o temperamento comedido o impediu de comemorar com berros e socos no ar a vitória do time de handebol masculino da Dinamarca sobre o da Argentina, na Arena do Futuro, no Parque Olímpico da Barra, no domingo (7). 

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Os príncipes dinamarqueses fazem parte de uma comitiva formada por membros de dez casas monárquicas da Europa, da Ásia e do Oriente Médio, os quais desembarcaram na cidade para conferir ao vivo a abertura dos Jogos Olímpicos e o desempenho de sua delegação. Quase todos têm fortes vínculos com o esporte, e outros tantos, a exemplo do herdeiro escandinavo, também são membros do COI. O príncipe Albert II, de Mônaco, enquadra-se nessa categoria. Casado com a ex-nadadora sul-africana Charlene Wittstock (que não veio ao Brasil), Sua Alteza Sereníssima se mostrou um festeiro de primeira. Correu com a tocha olímpica, fez selfies no jogo de basquete masculino entre Brasil e Espanha e demonstrou um bom humor impagável em eventos ligados à sua atividade de dirigente esportivo. No dia anterior à abertura dos Jogos, inaugurou o espaço da Associação Mundial dos Atletas Olímpicos, na Lagoa. Em meio a incontáveis tapinhas nas costas e cumprimentos de mão, demonstrou grande intimidade com os esportistas de seu principado. Um deles, em uma conversa bastante animada, teve direito a receber uns apertões reais em seu bíceps. Solícito a todos os pedidos de fotos, o filho da atriz Grace Kelly (1929-1982) chegou a passar um rápido sufoco em meio à algazarra dos fãs. A um discreto sinal seu, a equipe de seguranças abriu um corredor entre os admiradores. A surpresa ficou por conta do destino final do espaço liberado: a porta de um banheiro. Sem impedimentos, o príncipe seguiu rapidamente para o local, onde encerrou sua participação no evento.

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Com o número de chefes de Estado bastante reduzido em relação às expectativas iniciais (de 100 para pouco mais de 40), o quórum de aristocratas também acabou frustrando os organizadores. Até alguns meses atrás, dava-se como certa a presença do herdeiro do trono britânico, William, e sua mulher, Kate Middleton, a duquesa de Cambridge. O receio de contrair zika afastou o casal do Rio. Em seu lugar veio a tia, a princesa Anne, ex-amazona que fez parte da equipe de hipismo da Grã-Bretanha na Olimpíada de Montreal, em 1976. Bem-humorada, a única filha da rainha Elizabeth II visitou os atletas britânicos concentrados em Belo Horizonte, aplaudiu de pé a delegação de seu país no Maracanã e protagonizou um filme hilariante, disponibilizado no YouTube, em que o tenista Andy Murray a encobre com a bandeira da Inglaterra enquanto posavam para uma foto no Parque Lage. Como uma garota serelepe, a princesa de 66 anos salta de repente entre Murray e o ex-corredor Sebastian Coe, um dos organizadores dos Jogos de Londres, em 2012, e ri do constrangimento do atleta. Descontraída e jovial, em nada lembrava a rigidez protocolar dos Windsor, a família real mais famosa do mundo.

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Soberano de um país com uma população de 500 000 pessoas — o mesmo número de habitantes de Niterói —, o grão-duque de Luxemburgo, Henri Albert Gabriel Félix Marie Guillaume, encaixa-se na categoria de monarcas que gostam de mostrar ao mundo que têm o estilo de vida “gente como a gente”. Na semana passada, entrou com a delegação de seu país na Vila dos Atletas e, no dia seguinte, agitou a bandeira de seu grão-ducado (um leão rampante vermelho sobre fundo listrado de azul e branco) na tribuna do Maracanã. Por pouco não atingiu em cheio o elaborado penteado entupido de laquê da presidente da Lituânia, Dalia Grybauskaite, sentada ao seu lado. Em uma de suas voltas pelo Rio, aproveitou para dar uma caminhada noturna pelo calçadão de Copacabana e encerrou a jornada com um jantar no restaurante Fiorentina, no Leme, onde pediu um prato de frutos do mar. Fez todo o trajeto sem nenhum entourage. Na festa oferecida pelo presidente interino do Brasil, Michel Temer, a 37 chefes de Estado no Palácio do Itamaraty, no Centro, ele se espantou com o luxo do palacete, onde reluziam cristais e obras de arte em meio a vasos com palmeiras e iluminação cenográfica. “Uma festa assim é sinal de que a crise no Brasil está passando, não?”, alfinetou o nobre de 61 anos, comandante de um dos países mais ricos do planeta, com a maior parte de sua economia focada em serviços financeiros e uma renda per capita de 80 000 dólares.

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Ali, em meio a um cenário impressionante, as festas chamam atenção pela riqueza na decoração, pela falta de animação e pela incapacidade (ou desinteresse) dos catarianos de interagir com os estrangeiros. Em um desses eventos, todos os homens se vestiam da mesma forma, com uma longa túnica branca, chamada thobe, e usavam na cabeça um lenço da mesma cor (a ghutra), preso por um grosso cordão preto feito de lã de camelo. A única concessão à vaidade eram os relógios Rolex e Omega nos pulsos e a profusão de perfume. As fidalgas catarianas, por sua vez, usavam túnica de cor escura e o indefectível hijab, lenço que envolve a cabeça. Nos jantares, homens e mulheres ocupam mesas separadas. Sobrinha do emir e diretora de marketing do Comitê Olímpico do Catar, Asma Al Thani, 27 anos, é a única face pública da família real no Rio. Montanhista, ela já escalou o Kilimanjaro e veio várias vezes à cidade. “Virei fã de brigadeiro, fiz um voo de helicóptero e me apaixonei pelo Pão de Açúcar”, elogia. No entanto, apesar da simpatia, o protocolo é rígido. Antes das entrevistas, os jornalistas são alertados de que não devem fazer perguntas espinhosas sobre a família real nem a respeito das denúncias de suborno de dirigentes da Fifa para sediar a Copa do Mundo, sob o risco de, com isso, o encontro ser abruptamente encerrado.

A festa dos sheiks do Catar (à esq.), e a sobrinha do emir, Asma Al Thani: vida de aristocrata
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Para receber simultaneamente tantos figurões de sangue azul, o Ministério das Relações Exteriores elaborou uma complexa operação logística, em parceria com as forças de segurança e o Comitê Rio 2016. A equipe do Itamaraty disponibilizou 300 funcionários, entre eles 120 diplomatas, para atender às demandas dos chefes de Estado, de governo e membros de casas reais. “Mesmo com tanto planejamento, há muitos imprevistos”, conta o embaixador João Mendes, ministro interino do Cerimonial. Em um desses episódios, o rei Philippe e a rainha Mathilde, da Bélgica, decidiram visitar a sede de uma associação filantrópica no Grajaú exatamente no dia da festa de abertura dos Jogos. Por questões de segurança, as autoridades brasileiras convenceram os soberanos a abortar a ida ao local. O encontro com as crianças da ONG acabou acontecendo no Aterro do Flamengo. “Nesse dia, o protocolo foi quebrado: a meninada abraçou e beijou os reis, mas eles adoraram”, disse o cônsul-geral da Bélgica no Rio, Bernard Quintin. Por mais simples que seja, cada deslocamento de uma comitiva real no Rio exige uma equipe que inclui agentes da Polícia Federal e batedores da Polícia Rodoviária Federal. Isso sem contar a equipe de guarda-costas vinda de cada país. Na quinta (4), o príncipe regente da Jordânia, Faisal Bin Al-Hussein, que passou uma semana na cidade, almoçou na churrascaria Mocellin Steak, na Barra, onde ocupou três mesas — a uma delas estavam ele e um assistente, à outra, quatro seguranças e à terceira, mais sete. Ele se fartou com o rodízio de carnes nobres, comeu abacaxi e mamão de sobremesa e desembolsou 2 000 reais pela refeição. Fora os 10%, fez questão de dar 200 reais de gorjeta aos garçons.

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Evento-chave para o sucesso dos Jogos como um todo, a cerimônia de abertura contou com uma operação de segurança inédita no país. Só dentro do estádio havia 3 800 agentes, 800 deles com a missão de proteger os mandatários presentes. Das comitivas reais que estão no Rio, a do Catar, emirado do Oriente Médio que vai sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2022, é a que mais se faz notar pela opulência e pelo sigilo que envolve seus membros. As agendas não são divulgadas e os representantes do país nem sequer confirmam a presença do emir Tamim bin Hamad Al Thani na cidade. Entretanto, uma portentosa estrutura foi montada para receber o governante e seus familiares no Jardim Botânico, em um conjunto de mansões. Entre as residências alugadas para os catarianos destaca-se a imensa casa localizada na rua Bento Cruz. Com 7 000 metros quadrados e sete suítes, o imóvel tem salões com pé-direito de 9 metros de altura, telhado com espelho d’água e bosque de mata nativa nos fundos com uma passarela suspensa em meio à copa das árvores. Estima-se que foi alugado por cerca de 1 milhão de reais. Todos os móveis que decoram os ambientes foram trazidos de Doha, a capital do emirado, assim como as peças que adornam o centro de hospitalidade do Catar, instalado na antiga Casa Daros, em Botafogo.

Em seus 451 anos de história, o Rio estabeleceu fortes vínculos com monarcas e com a realeza. Sede do reino português entre 1808 e 1821, a cidade e seus moradores habituaram-se às peculiaridades, intrigas e rapapés da vida na Corte. De 1822 a 1889, foi a capital do Império do Brasil, serviu de cenário à coroação de dois monarcas e de moradia a condes, barões, marqueses e duques. Mesmo com a República, a cidade nunca perdeu o fascínio pelos aristocratas. Há quase cinquenta anos, o Rio praticamente parou, em 1968, para receber a rainha Elizabeth II, do Reino Unido. Aqui, ela inaugurou as obras da construção da Ponte Rio-Niterói, financiada pelo braço inglês do Banco Rothschild. Os cariocas, naquela época, puderam ver a monarca ainda jovem desfilar em carro aberto, um Rolls Royce, pela Avenida Atlântica. Onze anos depois, seu filho, o príncipe Charles, causou furor ao sambar desengonçadamente ao lado da passista Maria da Penha Ferreira, a Pinah da Beija‑Flor. Na década de 90, foi a vez de a princesa Diana fazer a festa dos paparazzi ao nadar na piscina do Copacabana Palace. O calendário de competições da Rio 2016 ainda está na metade e outras comitivas reais estão previstas para desembarcar por aqui. Entre elas, a dos reis da Suécia, Carl XVI Gustaf e Silvia, figuras habituais no país. Em tempos olímpicos, o Rio vive um gostinho da época em que os reis e rainhas eram parte da vida da cidade.

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