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Paulo Niemeyer Filho aponta os riscos do acidente vascular cerebral

Na coluna Letra de médico, o neurocirurgião, à frente do Instituto Estadual do Cérebro, fala sobre os sintomas e as consequências do AVC

Por Paulo Niemeyer Filho Atualizado em 13 fev 2020, 11h53 - Publicado em 31 jan 2020, 18h37

Em agosto de 1969, o então presidente Arthur da Costa e Silva começou a ter dificuldades para se expressar. Vítima de um acidente vascular cerebral, ele foi tratado no Palácio das Laranjeiras. Naquela época, não era comum a internação, já que não havia muitos recursos. O político acabou hemiplégico (leia-se com paralisia em um lado do corpo) e afásico (sem conseguir falar). Ficou recluso até sua morte, em 17 de dezembro, quando sofreu um infarto cardíaco.

O mal que acometeu o ex-­presidente atende pelo nome de AVC isquêmico, que consiste no entupimento de uma artéria e na falta de sangue para irrigar a área. Esse tipo de AVC corresponde a 80% dos casos da doença, hoje a segunda maior causa de morte no Brasil, perdendo apenas para o infarto cardíaco. Não é só isso: um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que a ocorrência de AVC vem aumentando substancialmente entre a população jovem. Entre 2000 e 2010, houve uma elevação de 44% nos casos em indivíduos com idade entre 25 e 44 anos.

É preciso ficar atento aos sinais dessa doença silenciosa — até porque o AVC nunca foi visto pela população como algo grave. É muito comum que até hoje a pessoa tenha uma dormência, um formigamento e não leve isso a sério. No entanto, pode ser um aviso de que uma artéria está começando a se obstruir. Grosso modo, é como alguém que sente uma dor no peito antes de infartar. A meu ver, o acidente vascular é muito mais grave do que o infarto cardíaco, porque ele pode deixar sequelas. Quando repetidas com frequência, essas pequenas isquemias levam a uma demência semelhante ao Alzheimer, difícil até de distingui-la.

No caso do AVC hemorrágico, as consequências podem ser ainda mais graves. Uma de suas principais causas é a ruptura de um aneurisma, a dilatação anormal de uma artéria. Trata-­se de algo que pode ser facilmente detectado através de uma angiorressonância, exame recomendado a cada cinco anos a partir dos 30, mas muito pouco prescrito. Aí eu deixo a pergunta: se você dispõe de um plano de saúde e costuma fazer check-up, por que ignorar o cérebro nessa hora?

Felizmente, a medicina evoluiu muito desde a época em que Costa e Silva teve um AVC, sobretudo com a disponibilidade de recursos como a tomografia e a ressonância. Hoje, uma série de avanços permite o socorro imediato. Por isso, num primeiro sintoma, como dormência, formigamento, dificuldade na fala, confusão mental, deve-se acionar o Samu pelo telefone 192. Mais perigoso que o risco de morte, pode ser o tipo de sequela (paralisia, alterações na fala, para citar algumas), algo que destrói não só a vida do doente, mas também a das famílias.

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