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Nelito Fernandes surfa na onda de sucesso do Sensacionalista

Rir de si mesmo, para ele, sempre foi técnica de sobrevivência. Ao criar o hilariante “jornalismo mentira”, com um grupo de amigos, virou fenômeno em escala nacional

Por Pedro Moraes - 10 dez 2016, 00h00

Adolescente no bairro da Pavuna, na Zona Norte do Rio, Nelito Fernandes costumava ser alvo de bullying da meninada, quando ninguém sabia o que era isso. Muito magro, com orelhas de abano e um cabelo horroroso, segundo sua descrição, estava longe de ser popular. “Rir de mim mesmo era minha técnica de sobrevivência”, recorda. Sua diversão predileta era participar de desafios lançados por uma rádio FM, que convidava os ouvintes a inventar frases engraçadas e piadas para serem lidas no ar. Suas criações eram quase sempre premiadas, a ponto de se acumularem em seu quarto brindes como camisetas e discos. Dali, passou a locutor de uma rádio de poste, por alto-falantes, em São João de Meriti — sua especialidade era traduzir letras de músicas melosas de Michael Jackson. “O sujeito fritava no sol enquanto eu declamava a letra de Ben”, recorda.

Aos 46 anos, jornalista por profissão e humorista por ofício, Nelito é o criador do site Sensacionalista, que nasceu em 2009 como um portal de notícias falsas, ou “jornalismo mentira”, de acordo com definição própria. Um clássico dessa fase é a história que confundiu leitores de mais de sessenta países sobre uma mulher que havia engravidado depois de assistir a um filme pornô em 3D. Transformado em uma vibrante usina de tiradas sarcásticas e hilariantes, o site administrado pelo radialista improvisado da Pavuna e seus parceiros Marcelo Zorzanelli, Martha Mendonça (com quem é casado) e Leonardo Lanna acaba de cravar 3 milhões de seguidores no Facebook.

Descendente de uma família de migrantes nordestinos, filho de uma enfermeira e de um detetive de polícia, Nelito experimentou uma trajetória eclética. Como repórter, trabalhou nas principais redações cariocas até desistir da profissão em 2013. Abriu uma franquia de depilação para se manter. “Mas não deu muito certo. Em vez de cuidar da loja, eu ficava pensando em slogans como ‘aqui não tem pelo em ovo’ ”, recorda. Chamado para integrar o time de redatores da TV Globo, abandonou para sempre os potes de cera quente. O site, entretanto, continuou ativo. A partir de 2015, quando a Lava-Jato se transformou em matéria‑prima das piadas, a quantidade de seguidores cresceu até bater na marca do milhão. De lá para cá, o número triplicou. “Deve ser difícil ser humorista na Suécia, mas no Brasil o ambiente é bastante fértil”, graceja.

Ágil e afiada, a equipe do Sensacionalista chega a postar dez textos satíricos por dia. Ninguém comenta números nem valores, mas também não esconde que o site já rende dinheiro suficiente para pagar as contas dos quatro sócios e bancar investimentos, como uma nova equipe de vídeo. “Nosso humor agrada porque se baseia em fatos, e não em ridicularizar pessoas feias, por exemplo”, define Nelito. “Quer dizer, o Nestor Cerveró a gente ridiculariza. Mas, tudo bem, ele merece.”

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