Neguinho da Beija-Flor não esconde as lágrimas em seu adeus à Sapucaí
Despedindo-se do cargo de puxador da escola após cinquenta anos, cantor foi ovacionado pelo público presente em desfile que homenageou Laíla, morto em 2021

Neguinho da Beija-Flor não escondeu as lágrimas em sua despedida da Sapucaí, na madrugada desta segunda (3) para terça (4), após cinquenta anos como puxador da escola de Nilópolis. Diversos membros da agremiação, a segunda da noite, também transbordaram de emoção com o anúncio de aposentadoria desse símbolo da escola.
Aos 75 anos de idade, mais de cinquenta de Beija-Flor, o cantor foi ovacionado pelo público presente e precisou fazer exercícios de respiração para se acalmar. “Sapucaí, meu penúltimo dia, porque o último vai ser no sábado das campeãs”, anunciou ele, para em seguida dar seu famoso grito de guerra: “Olha a Beija-Flor aí, gente. Chora, cavaco!”.
+ Lexa se emociona com homenagem da Unidos da Tijuca

Integrantes emblemáticas, como a porta-bandeira Selminha Sorriso e a passista Pinah, lamentaram a decisão de Neguinho de deixar o posto de puxador da escola. “Não aceito”, disse Selminha aos jornalistas presentes. “Coração tá a mil. É muito difícil. Cinquenta anos são cinquenta anos”, refletiu o eterno puxador da escola de Nilópolis.
Antes da apresentação, ele comparação seu longo relacionamento com a escola que carrega no nome artístico ao um casamento. “Termino com o sorriso de sempre, que está melhor agora. Agora mesmo é que ele vai de orelha a orelha, porque está sendo um divórcio amigável, com separação de bens (risos)”, brincou.

O desfile do enredo Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas já prometia mexer com os corações dos torcedores da escola, já que homenageou Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, que ajudou a transformar a Beija-Flor em escola vencedora de muitos campeonatos e morreu de complicações da Covid-19, em 2021.
“Esse homem que fez história na Beija-Flor. Ele transformou o modelo de desfile no Brasil”, disse Selminha Sorriso ao GShow. “Um revolucionário, um autoditada”, elogiou a porta-bandeira.
+ Fernanda Torres será destaque em carro alegórico no desfile das campeãs

Sete familiares de Laíla participam do desfile, entre eles sua viúva, Marli Ribeiro, e seus dois filhos, Luiz Cláudio e Denize. “É o gurufim que ele não teve, sei que ele está aqui entre a gente e está feliz”, disse Marli, referindo-se aos velórios com festa, comuns no mundo do samba. Devido às restrições da pandemia, a família não pôde se despedir devidamente de Laíla na época de sua morte.
A apresentação contou com um carro com uma imagem muito realista de Laíla, e outro retratou o emblemático carnavalesco Joãosinho Trinta, que fez história na escola de Nilópolis ao lado de Laíla e é citado no samba-enredo: “Chama João pra matar a saudade”.
+ Desfile vibrante: bateria da Mangueira empolga com paradinhas, funk e jongo

Outro carro fez referência à alegoria mais famosa da Beija-Flor, o Cristo proibido de Ratos E Urubus… Larguem Minha Fantasia, de 1989. Originalmente, era um Jesus morador de rua, mas a Arqudiocese proibiu, e o carro entrou com a escultura coberto. Em 2025, a frase original (“Mesmo proibido, olhai por nós!”) foi adaptada para “Do Orum (reino espiritual no candomblé), olhei por nós!”.
A novíssima geração do samba também marcou presença, dentro das barrigas das futuras mamães. A rainha de bateria da escola, Lorena Raissa, de 18 anos, atravessou a Avenida grávida de quatro meses. Ela repete o que sua mãe, Aline Souza, que era passista da escola, fez: em janeiro de 2007, após participar de um ensaio técnico, Aline deu à luz Lorena, indo direto da Sapucaí para a maternidade.
+ Imperatriz enfrenta concorrência do Oscar, mas faz bonito e pode ser premiada

Casada com Ludmilla, a dançarina Brunna Gonçalves também cruzou o Sambódromo grávida. Usando uma sandália antiderrapante, antes do desfile ela disse que iria tentar controlar a emoção ao sambar. “A Ludmilla pediu para eu ir com calma porque ela sabe que eu me empolgo”, contou ao G1. O cardiologista e a obstetra de Brunna estavam na Sapucaí, acompanhando a dançarina.
Com o refrão “Da casa de Ogum / Xangô me guia / Dobram atabaques / no quilombo Beija-Flor / Terreiro de Laíla, meu griô”, o samba da Beija-Flor é considerado um dos melhores de 2025 (comentarista da Globo, Pretinho da Serrinha elegeu a composição sua preferida do ano) e levantou o público na Avenida.
A bateria da escola fez não uma paradinha, mas uma “paradona”, uma pausa prolongada de quase um minuto no meio do desfile, mostrando que a letra estava na ponta da língua do público, que fez um emocionante coro na Sapucaí.