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Museu Histórico Nacional terá busto hiper-realista de Dom Pedro I

Produzida por impressora 3D com base em reconstituição científica feita da face real do monarca, a escultura deverá ficar pronta até o início de setembro

Por Agência Estado - 2 jul 2018, 16h38

O Museu Histórico Nacional, no Centro, será a primeira instituição brasileira a ter um busto hiper-realista do imperador d. Pedro I. A escultura, que está sendo produzida por impressora 3D com base em reconstituição científica feita em computador da face real do monarca, deverá ficar pronta até o início de setembro.

Para produzir a imagem base, o designer Cicero Moraes partiu de uma foto do crânio do imperador obtida em 2012, quando a arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel realizou inédita exumação dos restos mortais da família imperial, sepultada na cripta do Ipiranga, na zona sul paulistana – trabalho que resultou em estudo pela Universidade de São Paulo (USP).

Divulgada em 22 de abril, a imagem revelou um imperador – o primeiro do Brasil – muito menos garboso do que aquele construído em 200 anos de cartilhas escolares, pinturas oficiais e imaginário popular. Ele tinha feições rústicas e uma deformidade no nariz, que indica que houve uma fratura, em vida, não tratada corretamente – que acabaria cicatrizando de forma irregular.

E foi graças a um empurrãozinho da Wikipédia, a enciclopédia colaborativa online, que o trabalho está se transformando em uma impressão 3D. Isso porque Moraes é parceiro da Wiki Educação Brasil, organização que busca melhorar o conteúdo da enciclopédia com a incorporação, em seus artigos, de conteúdos de bibliotecas, museus e outras instituições.

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“Ao saber desse novo projeto desenvolvido por ele, como de costume, tratamos de organizar as informações e referências para a publicação deste material raro e único na Wikipédia”, afirma o mestre em Informática Rodrigo Padula de Oliveira, coordenador de projetos e parcerias da organização Wiki Educação Brasil.

Ele pensou que uma obra dessa dimensão merecia também um anteparo no mundo físico. E procurou, pessoalmente, o diretor do Museu Histórico Nacional, o historiador Paulo Knauss de Mendonça “Como esse projeto desenvolvido é sério e com embasamento científico, julgamos ser de extrema relevância ter o produto final exibido em um importante museu nacional.”

O Museu Histórico Nacional topou e agora aguarda a conclusão da obra para definir onde ficará a escultura. “Na sua exposição de longa duração, o museu possui um módulo expositivo sobre a construção do Estado Nacional, que aborda a história da Independência e do Império no Brasil, no qual podemos ver diferentes retratos de d. Pedro I. Esse módulo pode vir a ser o espaço adequado para a obra de reconstituição do busto”, informou a administração do museu, por meio de nota.

O advogado José Luís Lira, que adquiriu os direitos de uma imagem do crânio, concordou. “Ali estão gravuras, vestimentas de membros da Família Imperial – um dos tronos de d. Pedro II, busto do nosso segundo imperador, entre outras peças valiosas”, diz.

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Surpresa

Acostumado a trabalhar sempre com imagens digitais, Moraes não nega que ficou um tanto surpreso com a ideia de construir uma peça de um museu físico. O formato, diz, permite uma abordagem diferente em relação à arte digital. “O busto está em tamanho real e isso possibilita ao visitante mirar a figura histórica à altura dos olhos e ter uma ideia de como

poderia ser fitá-la em vida”, avalia. “É um trabalho feito a muitas mãos, uma oportunidade de criar algo em grupo e dar um valor único à peça.”

A partir dos arquivos feitos por Moraes, a empresa dOne 3D, de Ribeirão Preto, imprimiu a face em uma impressora 3D. A máquina demorou 75 horas para concluir o busto, que ficou com 40 centímetros de altura. “Há tecnologias diferentes de impressão 3D para aplicações diversas. Hoje já é possível imprimir com resinas, metais, gesso, cerâmica e muitos outros materiais. No caso da reconstrução de d. Pedro, usamos uma impressora de filamento, que funciona derretendo um plástico e empilhando o mesmo, camada por camada”, explica Ricardo Kimura, um dos diretores da dOne 3D.

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Mas esse material ainda não será revelado ao público. Porque antes, em um processo que deve ser concluído até o fim de agosto, uma artista plástica vai pigmentar o busto “É um processo com várias camadas de tinta e requer boa secagem de uma camada para a outra, por isso planejamos a entrega para a segunda quinzena de agosto”, diz a artista Mari Bueno. A preocupação com a fidedignidade da figura histórica deve ser a tônica do trabalho. “Partimos embasados por estudos e discussões sobre os detalhes juntamente com toda a equipe envolvida no processo de reconstrução. É uma peça artística, terá características das técnicas que trabalho, mas também buscaremos bom resultado através de elementos minuciosamente analisados.”

Família

Toda a reconstituição facial, seja em duas dimensões, seja agora em 3D, teve a autorização da Casa Imperial do Brasil. As conversas com o tetraneto de d. Pedro I, Bertrand de Orleans e Bragança, vinham ocorrendo desde 2015.

“Considero o trabalho muito bem feito. Mas a versão final, bom, o cabelo poderia ter ficado menos desgrenhado. E a fisionomia do imperador poderia ter ficado mais sofrida, realçando as viagens e as lutas de toda a sua vida, uma vida não muito longa, mas cheia de atividades e batalhas. Isso não aparece na reconstituição”, diz o tetraneto de D. Pedro.

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Exumação foi em 2012

A reconstrução facial de d. Pedro I foi possível graças ao estudo da arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel ao longo de 2012 na Universidade de São Paulo (USP). Ela analisou os restos mortais do imperador e de suas duas mulheres, Amélia e Leopoldina, o que foi revelado pelo jornal O Estado de São Paulo

Moraes já havia reconstruído digitalmente quase 30 figuras históricas – de Santo Antonio de Pádua a ancestrais como o Homem da Lagoa Santa. Com a parceria do advogado e professor José Luís Lira, que comprou os direitos de uma imagem do crânio de d. Pedro, Moraes desenvolveu o 3D.

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