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Mirian Goldenberg: a falta de tesão em tempos de coronavírus

'Na interminável lista de obrigações diárias, o sexo parece ter se tornado, para muitos, apenas mais um dever que rouba alguns minutos do sono'

Por Mirian Goldenberg - Atualizado em 22 Maio 2020, 19h17 - Publicado em 1 Maio 2020, 08h00

Em 1º de março de 2020 terminei de escrever um livro sobre amor, sexo e traição, fruto da minha pesquisa com 5000 moradores da cidade do Rio entre 18 e 98 anos. Prontinha, a obra seria lançada no Dia dos Namorados, 12 de junho. Mas até hoje não a enviei para a minha editora. Sabe por quê? Simplesmente porque não sei se, após o fim da pandemia, alguém terá interesse em ler um livro sobre esse tema. Afinal, como será a vida amorosa e sexual dos sobreviventes dessa calamidade mundial? Será que tudo o que pesquisei nos últimos trinta anos fará algum sentido depois que isso passar? Será que essas questões serão importantes para os brasileiros como eram até o dia em que finalizei o livro?

Na obra, analiso algumas pesquisas que afirmam que o brasileiro é um dos povos mais ativos sexualmente do mundo: por aqui se faz sexo 145 vezes por ano. Só perderia para os gregos, que transam 164 vezes por ano. Outras dizem que o brasileiro dedica mais tempo ao sexo do que os demais povos: cerca de 21 minutos, enquanto a média mundial é de dezoito. Também seria o campeão, na América Latina, em número de parceiros sexuais ao longo da vida: média de doze, contra dez dos nossos vizinhos. E por aí vai: o brasileiro faz sexo, em média, três vezes por semana; o brasileiro é o povo mais infiel do mundo…

Na verdade, esse estereótipo é bem diferente do que tenho encontrado. Vamos tentar resumir quatro possíveis classificações para os desejos e experiências sexuais das mulheres e homens que pesquisei: os satisfeitos com sua vida sexual, tanto com parceiros fixos quanto com eventuais (os aplicativos de paquera foram um facilitador do sexo casual), procuram todos os recursos disponíveis no mercado para continuar tendo prazer na cama, inclusive durante a pandemia. Ou seja, nesse grupo, sexo virtual e masturbação estão bastante presentes. Há aqueles que já não gostam tanto e não o fazem quando não estão a fim — entre eles alguns que são ou já foram casados e têm filhos e, com mais idade, decidiram aproveitar o tempo para priorizar outros prazeres. Nessa turma, uns preferem usar desculpas como a velhice ou problemas de saúde ou de dinheiro para dispensar o sexo.

Temos ainda os que gostam, mas não têm sexo à disposição quando querem. Afirmam que sentem vergonha do próprio corpo, culpa, cansaço, falta de tempo, de oportunidade, de coragem, de iniciativa e, também, falta de parceiro. Alguns querem ter uma vida sexual, mas não com o atual cônjuge. Nesse caso, a questão que mais pesa é a falta de desejo pelo parceiro. Por fim, deparei com aqueles que não gostam, mas que transam mesmo a contragosto. O motivo? Alegam ter dificuldade para dizer não, sentem-se cobrados e obrigados, têm medo de desagradar ao parceiro e de perdê-lo.

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É óbvio que o desejo pode mudar ao longo da vida, especialmente em circunstâncias extremas como a que estamos atravessando. Dependendo da fase, um mesmo indivíduo pode se encaixar nos diferentes tipos: gosta e não faz; não gosta, mas faz; gosta e faz; não gosta e não faz. Vale enfatizar que os principais problemas apontados no casamento foram falta de compreensão, de carinho, de cuidado, de atenção, de escuta, de conversa, de intimidade, de reconhecimento, de reciprocidade, de respeito, de fidelidade, de confiança etc. Por incrível que pareça, poucos responderam “falta de sexo”.

No entanto, muitos reclamaram que não sentem mais tesão, que não conseguem atingir o orgasmo com o parceiro, que têm medo de falar sobre o que gostam na cama, que têm vergonha do próprio corpo, que se tornaram invisíveis e que estão frustrados sexualmente.

Afirmaram que faltam vontade, tempo, energia e disposição para o sexo, já que se sentem exaustos, estressados, deprimidos e angustiados com problemas pessoais, familiares e profissionais e, mais do que nunca, com a situação do país e do mundo. Na interminável lista de obrigações que precisam cumprir todos os dias, o sexo parece ter se tornado, para muitos, apenas mais um dever que rouba alguns minutos do sono. A falta de tesão neste momento dramático é muito evidente no universo que pesquiso. Muitos se perguntam: quando ele vai voltar? Outros vão além: será que ele vai voltar?

Para falar a verdade, não tenho a menor ideia e, talvez, meu novo livro nunca seja publicado. Se for, pode ser que ninguém tenha interesse na vida sexual pré-pandemia. Quem sabe? Ou será que essa falta de tesão também vai passar?

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