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Marcha contra a violência na Maré une celebridades e moradores

Protesto foi contra uma rotina cruel que, só neste ano, já provocou a morte de treze pessoas

Por Pedro Tinoco 27 Maio 2017, 00h00

Fernanda Pinheiro, 7 anos, tinha olhos amendoados e, a julgar pela pose na foto, devia se orgulhar bastante de seus cachinhos. Ela brincava de boneca na laje de casa quando foi atingida por um tiro, em 19 de fevereiro. A menina virou estatística: foi uma das treze vítimas contabilizadas desde o início do ano na longeva guerra urbana travada dentro do Complexo da Maré. Como o retrato de Fernanda, muitas outras imagens de triste lembrança, de inocentes mortos por armas de policiais e criminosos no Rio inteiro, foram estampadas em cartazes, bandeiras e camisetas carregados pelos participantes da Marcha contra a Violência na Maré, realizada na tarde de quarta 24. Convocado por representantes da sociedade civil reunidos no Forum Basta de Violência! Outra Maré É Possível, o ato contou com o apoio de cidadãos de toda parte. Entre eles estavam artistas como Betty Gofman, Caio Blat, Camila Pitanga, Enrique Diaz, Maria Luísa Mendonça, Mariana Lima e Patrícia Pillar. Espera-­se que a solidariedade das presenças ilustres contribua para levar a mais ouvidos um grito de socorro. Nas dezessete favelas do Complexo, cerca de 140 000 pessoas vivem em pouco menos de 5 quilômetros quadrados, delimitados por vias importantes, como a Avenida Brasil, além das linhas Amarela e Vermelha. De janeiro a março, os postos de saúde locais permaneceram fechados por dezessete dias. Nas escolas, no mesmo período, as aulas foram suspensas por outros onze dias. O motivo: falta de segurança, provocada por escaramuças entre bandidos ou por uma das catorze incursões policiais já feitas em 2017. Na marcha, um grupo partiu do Parque União, enquanto o outro veio do Conjunto Esperança. O encontro final se deu no lugar conhecido como “divisa”, a fronteira entre territórios dominados por facções rivais, onde as fachadas exibem incontáveis marcas de bala. Alguém teve a ideia de colocar flores nos buracos espalhados pelas paredes. Ficou bonito, mas a esperança maior é que o breve momento em que a cidade partida virou cidade unida sensibilize autoridades e resulte em ações públicas consequentes.

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