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Para fazer charme de intelectual

A Festa Literária Internacional de Paraty, maior evento do gênero no país, acontece nessa semana. Eis algumas dicas para você se dar bem entre livros, caipirinhas e marias-teclados

Por Ronaldo Bressane, da ALFA Atualizado em 5 dez 2016, 16h11 - Publicado em 4 jul 2011, 15h42

Você já ouviu alguém dizer que a Flip transforma cultura em fetiche, escritores em celebridades e visitantes em caçadores de verniz cultural. Pode ser verdade – mas não a única verdade. Quem procura lugares calmos para comer, minas desencanadas ou quer “aparecer”, vai se decepcionar. As ruas pedregosas de Paraty – um mar imóvel – não foram feitas para isso. Vai à Flip quem gosta de ler, e para esse público a festa é suficiente para empanturrar espírito e carne em doses iguais. A seguir, as dicas para curtir a programação, de quarta 6 a domingo 10 de julho.

FESTA(S)

Ao contrário das edições anteriores, a oitava Flip será focada em literatura – a maioria dos escritores é europeia. O padroeiro escolhido foi o iconoclasta Oswald de Andrade. A abertura, na quarta, está a cargo de Antonio Candido, 93 anos, maior ensaísta vivo do país. Para contrabalançar, tem show com Zé Miguel Wisnik, Celso Sim, Elza Soares… Ok, você pode pular essa parte e ir direto a uma das várias festas que agitam Paraty. O esquenta costuma ser no Margarida Café ou no Paraty 33.

QUEDA DE BRAÇO

A quinta-feira promete um bom embate entre o cientista lulista Miguel Nicolelis e o filósofo conservador Luis Felipe Pondé. Em comum, ambos têm a falastronice e a descrença em Deus – ou seja, os dilemas entre ciência e ética esquentarão a mesa.

MUSA ARGENTINA

Se Chico Buarque foi o divo da segunda Flip, nesta é a portenha Pola Oloixarac quem vai atrair todos os olhares do evento. Na sexta-feira, a charmosa garota-prodígio, uma das melhores escritoras de sua geração segundo a revista Granta, lança seu As Teorias Selvagens, história de amor entre dois nerds, grande tiração de onda em cima do cerebralismo portenho. No mesmo dia, seu conterrâneo boa-praça Andrés Neuman fala sobre o insólito O Viajante do Século.

DIA MASTROIANNI

Na sexta-feira rola uma das mesas mais concorridas, a de Antonio Tabucchi, autor do belo Afirma Pereira, inspiração para um dos últimos filmes de Marcello Mastroianni. O italiano é muito ligado à cultura portuguesa: uma de suas obras-primas é o ligeiro Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa e ele traduziu o controverso romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, seu parceiro de mesa.

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PINGA NI MIM

Se você gosta de pizza, vai se irritar. Se gosta de chegar a um restaurante e sentar, vai se irritar. Se gosta de preços razoáveis e ser bem atendido, vai se irritar mais ainda. Apesar da quantidade de ótimos restaurantes em Paraty, durante a Flip os preços voam, a qualidade despenca e os bons serviços somem. Peça mais uma caipirinha (de preferência feita de Maria Isabel, a cachaça local), observe o movimento e relaxe. Ou chegue bem cedo aos melhores lugares: O Porto, Banana da Terra, Punto Divino, Blend Café, Lê Castellet, Hiltinho, Refúgio e Thai Brasil.

JORNALISMO & HQ

No sábado, uma das estrelas da Flip, o destemido Joe Sacco, fala de sua maneira pessoal de conjugar jornalismo literário, ciência política e quadrinhos – ele é autor de Notas sobre Gaza e Área de Segurança: Gorazde, graphic novels ambientadas em zonas de guerra. Provavelmente a mesa mais pop da Flip.

O BOÊMIO E O MATADOR

O bem-humorado João Ubaldo Ribeiro promete uma das palestras mais divertidas. Ele se desconvidou de uma Flip anterior, enciumado com o destaque dado aos gringos – e um urubu que zanzava na praça principal acabou ganhando o nome de Urubaldo. Vamos ver se desta vez espanta a zica. Outra chance de mesa intrigante será com o grande romancista criminal James Ellroy – seus livros originaram filmes como Dália Negra e Los Angeles Cidade Proibida. Tem fama de ser ótimo contador de causos escabrosos.

ARTE & POLÍTICA

Domingo é a terça-feira de Carnaval da Flip: a última chance para assistir a uma boa palestra, tomar a enésima caipirinha e fazer aquele contato, digamos, literário. Antes da mesa final, em que tradicionalmente os principais convidados leem trechos de seus livros favoritos, há a mesa com David Byrne – que, pena, não vem para tocar no lugar do Wisnik, mas para falar de seus multifacetados projetos em música, fotografia, artes plásticas e até cicloativismo, conforme conta em Diários de Bicicleta.

BALADAS & MOÇAS

Vitaminadas pelo álcool, as discussões e as histórias do dia ganham ar de ficção à noite e, quando você menos espera, está debatendo a melhor receita de caipirinha com um escritor do naipe de sir Ian McEwan. Como cenário, escolha a Casa Coupê, o Porto da Pinga, o Santa Trindade ou o Café Paraty. Bacana mesmo é descolar um convite para alguma das inúmeras festas fechadas, hábitat natural das maravilhosas marias-teclados – aquelas meninas para quem o odor de um bom livro velho é o perfume dos deuses. Caso você não seja escritor, crítico, intelectual, jornalista ou mesmo estagiário de uma editora, sempre pode pôr uma boina, pegar um livrão tipo o 2666, de Roberto Bolaño, enfiar debaixo do braço, caprichar no olhar de apocalipse e ir à luta com as moças.

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