Clique e assine por apenas 7,90/mês

AquaRio recebe ajustes finais e se prepara para abrir as portas

O maior aquário de água salgada da América Latina desponta como uma das atrações mais espetaculares da cidade 

Por Sofia Cerqueira - Atualizado em 2 jun 2017, 11h57 - Publicado em 8 out 2016, 01h00

Logo à entrada, a sensação é de puro deslumbramento. Cercado de água por todos os lados, como se estivesse de fato submerso, o visitante é recebido por cardumes de olhos-de-cão, pampos, baiacus e tainhas, arraias de diversas espécies e um tubarão galha-branca-de-recife que se movem em um envolvente vaivém, à direita, à esquerda e por cima da cabeça também. Em meio à imensidão azul, rodeado por milhões de litros de água e separado daquele inacreditável mundo subaquático apenas por uma casca transparente — na verdade, uma estrutura tubular de acrílico ultrarresistente — , não há como não se sentir protagonista de filmes como Procurando Nemo, por exemplo. A espetacular experiência se estende por um percurso de 20 metros, sob uma coluna d’água de 5 metros de altura. Trata-se do túnel que corta o chamado Tanque Oceânico, a atração mais vistosa do Aquário Marinho do Rio, o AquaRio, que abre as portas oficialmente em 9 de novembro. O tanque gigantesco é o ápice de uma visita que antes passa por um grande hall decorado com uma ossada de baleia jubarte e percorre um circuito com 28 recintos de observação da vida marinha. Foram criados tanques com espécies do costão rochoso, de regiões arenosas, só com animais perigosos e outros destinados a tubarões-bebês. Há ainda uma sequência de estruturas de acrílico reservadas aos coloridíssimos peixes do Caribe e do ponto em que o Oceano Índico se encontra com o Pacífico, próximo à Indonésia. Todo esse grandioso complexo é a materialização de um sonho que começou há nove anos, enfrentou uma sucessão de percalços e em poucos dias, enfim, poderá ser conhecido pelos cariocas. “Não temos dúvida de que o aquário se tornará um ícone do Rio, junto com o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar”, comemora o biólogo marinho Marcelo Szpilman, idealizador e diretor-presidente do AquaRio.     

+ Ameaçado de extinção, tubarão-mangona chega ao AquaRio em outubro

Depois de sucessivas mudanças no cronograma, e de muitos duvidarem que o AquaRio sairia do papel, o complexo está praticamente pronto. A iluminação que ressalta o ambiente marinho foi aprovada nos testes e a loja de suvenires, por onde as pessoas passarão após o tour, teve sua pintura e marcenaria concluídas. Falta apenas instalar os quiosques de alimentação no lobby e concluir o processo de equilíbrio biológico de alguns tanques. O aquário carioca, que quando inaugurado se tornará o maior da América do Sul, surgiu da vontade ferrenha e obstinada de Szpilman, um apaixonado por tubarões. Em 2007, ele obteve da prefeitura a cessão de uso por cinquenta anos de um prédio da antiga Companhia Brasileira de Armazenamento (Cibrazem), que já foi um frigorífico, localizado na região portuária. Na ocasião, ninguém imaginava que a construção estaria no epicentro da área que viria a ser conhecida como Porto Maravilha, totalmente remodelada.     

AquaRio
AquaRio

+ Começa a temporada de pesca para o novo aquário do Rio

Exemplar solitário de empreendimento cultural erguido sem um tostão de dinheiro público na região do Porto, o projeto estava com abertura prevista para 2010 ao custo de 65 milhões de reais. Passados seis anos do prazo, consumiu o dobro do valor. Durante esse período, patrocinadores retiraram-se da empreitada, as obras tiveram seu ritmo reduzido e os incorporadores, como todo o país, depararam com a recessão econômica avassaladora. Szpilman, em conjunto com Roberto Kreimer, diretor da Kreimer Engenharia, responsável pelas obras e especializada em estruturação de negócios, montou um plano que decolou com o apoio de três parceiros. A atração foi financiada e será gerida pelo Grupo Cataratas, que administra parques como o de Iguaçu, pela Esfeco, que opera os trens do Corcovado, e pela empresa de transporte Bel-Tour. “É uma enorme realização entregar um projeto ousado, autossustentável, de porte internacional e feito totalmente com recursos privados”, enfatiza Kreimer.

AquaRio
AquaRio

Com capacidade para abrigar 8 000 animais de 350 espécies, o aquário será aberto, no entanto, com 2 000 seres marinhos de 200 tipos. O intuito é que eles se desenvolvam no bioma artificial e que os reservatórios recebam novos moradores gradativamente. O foco principal é o litoral brasileiro — 90% dos peixes que compõem o plantel são iguais aos capturados na nossa costa e consumidos pela população. Para dar vida, literalmente, à estrutura, foram feitas parcerias com pescadores esportivos e profissionais de todo o estado. Antes de povoarem os tanques, os animais passam por uma quarentena, que vem registrando quase 100% de aproveitamento. VEJA RIO acompanhou, há um ano, a primeira pescaria, no Arquipélago das Cagarras. O xerelete que inaugurou os tanques do local — e cuja captura foi registrada pela reportagem — hoje se encontra em um tanque cilíndrico com um domo, onde o visitante tem a chance de ver um cardume nadar ao redor da sua cabeça. Como em qualquer atração do gênero, os tubarões despertam especial interesse. A expectativa é que o complexo tenha pelo menos quarenta deles, de espécies como mangona, galha-preta-de-recife, lixa, porco e bambu. O primeiro, um galha-branca-­de-recife, veio da Indonésia há um mês. Mais dois animais chegarão nos próximos dias. “É preciso desmistificar algumas espécies. À medida que você aproxima as pessoas desse universo extraordinário, o desejo de preservação é despertado”, acredita o diretor do aquário.

QUADRO AquaRio
QUADRO AquaRio

Com cinco andares, 26 000 metros quadrados de área construída e tanques que somam 4,5 milhões de litros de água salgada — o equivalente a duas piscinas olímpicas cheias —, o AquaRio fica na extremidade da Orla Conde, a dez minutos de caminhada do Museu do Amanhã. Para quem não quer andar, há uma estação do VLT na porta. O espaço funcionará das 10 às 18 horas, sete dias por semana, com capacidade para receber até 1 000 pessoas por hora. Espera-se que já no ano de estreia contabilize 1 milhão de visitantes, e nos seguintes atinja o dobro dessa marca. Os primeiros lotes de passaportes individuais e para a família (dois adultos e dois menores até 17 anos), com acesso ilimitado por um ano, esgotaram-se rapidamente. Nos próximos dias serão disponibilizados para venda pela internet os ingressos para as visitas, cujos preços variam de 40 a 80 reais. “Por todas as suas características, o AquaRio é considerado um equipamento de classe mundial. Não deixa a desejar em nada em relação aos principais aquários lá de fora”, diz Fernando Duarte Menezes, diretor de operações do complexo.

QUADRO2 AquaRio
QUADRO2 AquaRio

Alinhada com os maiores aquários do mundo, a nova atração do Rio não se propõe apenas a deslumbrar o público. Educação, pesquisa e conservação também estão entre as suas prioridades. Ao final do roteiro de visitação, por exemplo, será possível acompanhar por janelões de vidro a rotina de um laboratório. A unidade, em parceria com a Universidade Federal do Rio (UFRJ), fará análises da água do local, pesquisas científicas e reprodução em cativeiro de seres marinhos. Estão em fase de montagem um museu do surfe, uma mostra de conchas e uma exposição sobre projetos como o Tamar, de preservação das tartarugas. Os frequentadores terão acesso ainda a recintos onde se poderá tocar em arraias e tubarões do tipo bentônicos, que ficam rentes ao solo. O tour reserva ainda uma experiência virtual, com grutas interativas. O mergulho com os tubarões e a visita aos bastidores serão disponibilizados numa segunda etapa. Embora guarde características peculiares, o AquaRio foi inspirado nas maiores referências do gênero, entre elas o Oceanário de Lisboa, aberto em 1998 e considerado o melhor da Europa, e o Monterey Bay Aquarium, na Califórnia, inaugurado há trinta anos, e que recebe água direto daquela baía. “Ao longo dos últimos anos vivi uma montanha-russa de emoções. Em certos momentos, estava confiante e, em outros, achava que tudo estava perdido, mas nunca desisti do projeto”, completa o biólogo Marcelo Szpilman. O Rio só teve a ganhar.     

Publicidade