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A volta dos filhos pródigos

Eles deixaram o Rio desanimados com a falta de perspectivas. Agora retornam para ajudar a reerguer a cidade, que receberá o maior volume de investimentos de sua história

Por Carla Knoplech
Atualizado em 5 jun 2017, 14h38 - Publicado em 24 fev 2012, 19h08

Entre todas as decisões que o especialista em comércio internacional Rafael Thomé já tomou em sua vida, há duas que ele considera fundamentais. Ambas envolveram o Rio, a cidade onde nasceu, em 1981, e de onde se mudou, junto com a família, aos 10 anos de idade. A primeira, quando ele atingiu a maioridade, foi a de não acompanhar os pais e os dois irmãos no retorno à terra natal. Thomé preferiu ficar sozinho na Inglaterra para cursar a faculdade. Naquela época, nem mesmo as visitas que fazia no Natal serviam de estímulo para convencer o rapaz, vascaíno fanático, a fincar raízes por aqui. A insegurança, a bagunça generalizada e as poucas perspectivas de crescimento profissional levavam a balança a pender sempre para o dia a dia organizado e tranquilo que tinha na Europa. Concluído o curso, Thomé se encantou pela área de petróleo e gás, o que o fez morar no longínquo Azerbaijão, em Barcelona, Genebra, Tóquio e Singapura. Foi nessa última localidade que, em setembro passado, ele tomou a segunda decisão. “Em uma manhã de sábado, recebi um e-mail com uma proposta de trabalho no Rio na hora em que eu ia saindo para correr em um parque”, lembra. “Eu vinha amadurecendo a ideia da volta havia algum tempo. Percebi que, enfim, era chegado o momento de regressar para o lugar onde estavam minhas origens.”

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Longe de ser fundamentada em impressões subjetivas ou arroubos emocionais, a resolução de Thomé tem sólida base em números. Nos próximos três anos, deverão ser investidos no estado cerca de 181,4 bilhões de reais, vindos tanto do setor público quanto da iniciativa privada. Levando-se em conta a área do território fluminense, isso significa o aporte de 4,17 milhões de reais por metro quadrado, a maior concentração de recursos do mundo. Trata-se da mais volumosa massa de investimentos já recebida pelo estado. Só na área de petróleo, a Petrobras e suas parceiras injetarão 107 bilhões de reais. Os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 deverão consumir outros 11,5 bilhões de reais na construção e reforma de instalações esportivas, em obras de infraestrutura e em transportes. “É uma oportunidade imperdível para quem tem negócios nessas áreas”, diz a engenheira de produção Viviane Villaverde, 32 anos. Depois de viver na Espanha por seis anos, ela não só voltou para ficar como aplicou suas economias em um negócio próprio no ramo de peças para tratores e caminhões, aberto com o marido, o francês Didier Prieto Parmo, em janeiro de 2010. Com isso, o casal trocou o país ibérico, hoje mergulhado em uma profunda crise econômica, pelas perspectivas alvissareiras de uma ampla loja em Olaria, às margens da Avenida Brasil. “Minha volta foi emocionante, principalmente porque eu estava grávida de meu filho, hoje com 1 ano e meio. Eu sempre quis que ele fosse carioca, como eu.”

[—FI—]

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Não é fácil para quem nasce em uma cidade como o Rio, com sua combinação rara de paisagens espetaculares, cosmopolitismo, opulento patrimônio histórico, incontáveis tesouros artísticos e uma rica herança cultural, resolver viver em outro lugar. Apesar disso, no passado recente, minado pela incompetência crônica dos governantes e por um crescente descaso da população pelas mais básicas noções de civilidade, não foram poucos os que preferiram abrir mão das delícias locais em troca da perspectiva de progredir fora daqui. Não há números precisos sobre tal diáspora, mas estima-se que 200?000 profissionais qualificados tenham deixado a capital entre 1980 e 2000 – e que 70% deles tenham voltado desde 2009. Há doze anos, o engenheiro Carlos Almir Souza se viu diante de um dilema. A multinacional americana na qual ele trabalhava resolveu fechar sua fábrica na Zona Norte da cidade. Os funcionários tinham duas opções: deixar a empresa amparados por uma indenização ou se mudar para Manaus, onde ficava outra filial. Souza preferiu a segunda possibilidade e partiu para a Amazônia com a mulher, Cristina, e duas filhas, Luisa, de 6 anos, e Julia, de 3. Para a família, os anos passados lá não foram fáceis. “A saudade era proporcional à distância”, resume Cristina. Em 2007, depois de a companhia ter sido comprada por uma concorrente do ramo de higiene pessoal, os quatro enfrentaram mais uma mudança. Dessa vez, para São Paulo. O retorno se deu, coincidentemente, diante do interesse do grupo em investir aqui, com a implantação de uma nova fábrica e a ampliação dos escritórios em Botafogo. “Eu pedi a transferência e consegui”, conta Souza, que se instalou temporariamente com a família em um apartamento na Barra da Tijuca até que a casa que está construindo no Recreio fique pronta.

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O vaivém da família Souza exemplifica na vida real um fenômeno já constatado por economistas e especialistas em recursos humanos. Depois de anos de estagnação, o estado voltou a ser atraente para empresas que fabricam no Rio de Janeiro de xampus a automóveis. Até 2013, elas aplicarão aqui 67 bilhões de reais na construção de fábricas novas ou na ampliação das que já existem. A reboque desse fenômeno, a procura por profissionais qualificados explodiu ? aumentando 150% em dois anos -, e até mesmo setores quase extintos, como a publicidade, começam a ressurgir das cinzas. “O Rio finalmente está renascendo como centro de negócios. É claro que não terá o tamanho de São Paulo, mas a distância vai diminuir”, afirma o publicitário José Guilherme Vereza, sócio da agência de propaganda 11:21, com sede na Zona Sul e filial na capital paulista, onde ele viveu entre 2008 e 2011.

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Esse bom cenário econômico e a consequente volta dos cariocas que partiram no passado em busca de melhores oportunidades se assentam sobre três pilares. Os dois primeiros são a exploração do pré-sal e a realização dos eventos esportivos mais importantes do mundo, a Copa e a Olimpíada. O terceiro é o bem-sucedido programa de combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas, pragas que apodreciam o frágil tecido social da cidade. Iniciada em dezembro de 2008, a política de implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) tem apresentado resultados consistentes principalmente no que diz respeito à redução de crimes violentos, como homicídios. No mês passado, ocorreram 323 assassinatos no estado, o número mais baixo já registrado desde 1991. Em janeiro de 1995, o mês mais sangrento que o Rio chegou a ter, houve 831 mortes. Quando o médico cirurgião Carlos André Loja, 31 anos, resolveu partir para São José dos Campos, no interior de São Paulo, em janeiro de 2010, o programa das UPPs estava implantado. No entanto, os enclaves mais violentos do crime, como o Complexo do Alemão e a Rocinha, ainda permaneciam sob o jugo da bandidagem. “Estava cansado daquela sensação de eterna insegurança e não acreditava que a situação melhoraria em curto prazo”, relata o médico, que morava no Recreio. Outro motivo que pesou foi o trânsito infernal que enfrentava diariamente de casa para o trabalho. Instalado na nova cidade, Loja percebeu que o processo de adaptação seria mais complexo do que imaginava. Sua mulher, que é farmacêutica, sentia muita falta dos amigos e da família. “Em apenas um ano, a situação do Rio melhorou tanto que as aparentes vantagens da mudança deixaram de existir”, recorda. Em agosto do ano passado, o casal estava de volta. “Agora só falta mudar essa cultura de tentar resolver tudo no jeitinho e de tirar vantagem em cima dos outros”, afirma o médico.

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É claro que, ao desembarcarem, os filhos pródigos não reencontram na Baía de Guanabara o paraíso sobre a face da Terra. Muitas das nossas velhas mazelas persistem, várias delas profundamente enraizadas no caráter carioca. E, ao serem observadas por quem vem de fora, tornam-se ainda mais gritantes. O publicitário baiano Nizan Guanaes, dono da agência Africa, que acaba de abrir uma filial aqui, no Leblon, tem na ponta da língua sua definição para o Rio: “É como a Gisele Bündchen aos 15 anos. Não está totalmente pronta, mas já está lá”. Formada em turismo e com especialização em publicidade, Tamara Araújo, 32 anos, sabe bem o que significa esse “não estar totalmente pronta”. Ela mudou-se do Rio com os pais aos 9 anos. Viveu em Montevidéu, Buenos Aires e São Paulo. Em 2010, fez o caminho de volta e abriu uma empresa na área de eventos no Centro. No comando de uma equipe de dez funcionários, organiza basicamente ações de marketing para clientes paulistas. “Em algumas áreas, como a minha, o mercado local não acompanhou o salto que a cidade deu. É comum, por exemplo, uma espécie de bairrismo, onde só se trabalha entre amigos”, critica. De qualquer forma, Tamara se diz encantada com a nova vida que leva na cidade natal. “Como organizo muitos eventos à noite ou nos fins de semana, consigo ir à praia pela manhã. É o melhor lugar do mundo para ler meus livros e relatórios de trabalho”, afirma ela. Entende-se o encanto de Tamara. Afinal, combinar qualidade de vida com bons desafios profissionais é um privilégio que não se encontra tão facilmente por aí.

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