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Begha Silva criou um cinema comunitário na Maré

Batizado de Cineminha no Beco, o projeto é bancado com a reciclagem de óleo de cozinha

Por Thaís Meinicke - Atualizado em 5 dez 2016, 11h30 - Publicado em 13 fev 2016, 00h00

Morador da Maré há 27 anos, o músico Lindenberg da Silva é figura popular na região. Ele costuma circular pelas vielas com sua bicicleta equipada com alto-falantes vendendo seus CDs ou fazendo propaganda para os comerciantes locais. Desde novembro de 2013, no entanto, o veículo ganhou nova utilidade e, além de ser seu instrumento de trabalho, colabora para levar cultura às crianças do complexo de favelas, de cerca de 130 000 habitantes. Decidido a distrair a garotada da Maré, ele resolveu criar um cinema — e a solução que encontrou para tirar a ideia do papel presta outro grande serviço à comunidade. Begha, como é chamado por ali, começou a recolher óleo de cozinha para reciclagem e, com o dinheiro que arrecadou com a venda do material, a 80 centavos o litro, comprou, de segunda mão, parte dos equipamentos, como a lona e o DVD. “O projeto tem apelo tanto ambiental, ao investir na reciclagem, como de atendimento às crianças”, conta ele.

“Não temos poltrona nem ar condicionado, mas saio de cada sessão de alma lavada”

O projetor foi doado pelo dono de um mercadinho da comunidade e, desde então, Begha realiza duas sessões por semana, sempre em vielas do complexo. “Nós fazemos um mutirão de limpeza e arrumamos o espaço para abrigar o cinema. Uma hora antes de começar, eu faço a divulgação com a bicicleta”, explica. Batizado de Cineminha no Beco, o projeto chega a reunir setenta crianças a cada exibição. Os filmes são escolhidos pelo próprio público, por meio de votação, e a cada encontro os pequenos ainda recebem pipoca e refrigerante de graça, doados pelos moradores ou pelo próprio Begha, que não esconde a satisfação com a iniciativa. “Há muitas crianças aqui que nunca foram ao cinema. Não temos poltrona nem ar condicionado, mas saio de cada sessão de alma lavada.” No ano passado, a iniciativa foi selecionada por um edital da Secretaria Municipal de Cultura e ganhou 30 000 reais a título de incentivo, com os quais Begha pôde comprar novos equipamentos. A campanha de reciclagem de óleo, no entanto, continua. “Quero um dia montar um cinema de verdade para as crianças.”

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