O eu é uma personagem fictícia

Como as experiências subjetivas moldam o sujeito aparente

Uma mente despreocupada é o oposto da angústia que a vida nos traz: preocupação com dinheiro, trabalho demais, crises familiares, problemas de saúde. Poucas vezes consigo, tão facilmente, manter a mente nesse estado de tranquilidade como nos dias em que estou na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Desde a sua inauguração, são 16 anos circulando pelas ruas do centro histórico deixando a cidade fazer parte de mim.
Cada ano uma saudade: amigas casando, a reforma da igreja da Matriz, amigas parindo, convites de emprego, os bombons de brigadeiro da Maga, o show improvisado do Yamandu Costa, num bar de esquina. Paraty é uma baita personagem na minha vida. Como um espelho, a cidade reflete a mim mesma de fora para que eu acompanhe as mudanças do meu “eu” desta edição.
É um alento estudar neurociência e entender que a ideia do “eu” unificado é uma ilusão. Lembra aquelas vezes em que você perdeu o sono porque achou que foi incoerente ou porque ficou se julgando por uma decisão que não fazia sentido? Pois bem, foi desnecessária. O eu aparente – aquele que vive as experiências –  é uma reunião de vários momentos subjetivos ao longo da vida. A noção de “eu” se constrói e descontrói o tempo todo no cérebro.
Funciona assim: a consciência tem uma subjetividade inerente, mas não possui um “eu” inerente. Não existe um dono da experiência. A maior parte dos pensamentos, por exemplo, surge espontaneamente. Executamos atividades físicas sem determinar: pé esquerdo, direito, esquerdo, direito. Na verdade, temos a sensação de que somos lógicos e lineares pela maneira como o cérebro estrutura esse processamento das interações do corpo com o mundo externo. A subjetividade, na verdade, é construída a partir da relação desse corpo com este mundo.
E como disse a curadora da festa literária desse ano, Josélia Aguiar,  temos uma FLIP voltada para o mundo de dentro. Tudo é autoexpressão. Se você imaginar que é um mash up do que permite  entrar na sua vida, faz sentido dar vazão ao inconsciente, já que ele é uma fonte de criatividade, nos livrando dos limites da mente prática e lógica do ego. É tudo muito junguiano.
No livro País das Maravilhas, Alice pergunta ao Gato de Cheshire: “que caminho devo tomar? Ele responde: “depende de onde você quer chegar”. O conselho do gato é válido para a meditação e para circular pelas ruas de Paraty. Relaxe no momento presente. E se perca dentro de si. Aprenda a meditar meditando.
O “eu”, de fato, é uma personagem fictícia muito útil porque distingue você de outra pessoa.  É claro que vale interpretar “aquele” papel quando for necessário; desde que você lembre quem você é como pessoa: aquela dinamicamente entrelaçada com o mundo, que é mais viva, interessante e capaz do que o eu aparente.
**Vanessa Aragão é instrutora de meditação, com formação no monastério Kopan, no Nepal. É criadora do projeto @meditanteurbana,  com aulas às segundas na Academia da Ahlma, no Leblon, e às terças e sextas no Espaço Dharma, na Barra.
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