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Teatro de Revista Por Blog Espetáculos, personagens, bastidores e tudo mais sobre o que acontece na cena teatral carioca, pelo olhar do crítico da Veja Rio

Com longa carreira na televisão, diretor Roberto Naar estreia no teatro com Anônimas

Com quase 25 anos de carreira na televisão, o carioca Roberto Naar já esteve à frente de produções de enorme sucesso, como as novelas Pantanal, da extinta TV Manchete, e A Favorita, estreia do autor João Emanuel Carneiro (de Avenida Brasil) no horário nobre da TV Globo. Apesar do currículo estrelado, que a muitos poderia […]

Por rafaelteixeira - Atualizado em 25 fev 2017, 18h35 - Publicado em 25 jul 2014, 17h25

Com quase 25 anos de carreira na televisão, o carioca Roberto Naar já esteve à frente de produções de enorme sucesso, como as novelas Pantanal, da extinta TV Manchete, e A Favorita, estreia do autor João Emanuel Carneiro (de Avenida Brasil) no horário nobre da TV Globo. Apesar do currículo estrelado, que a muitos poderia induzir à acomodação, ele decidiu se mover para fora da zona de conforto: estreia nesta sexta (25) sua primeira peça, Anônimas, no Teatro do Jockey. Montagem sem gênero definido, mais próxima do teatro documental, o espetáculo aborda o universo feminino, e é defendido em cena por doze mulheres. Ao lado do diretor, sete delas (Carolina Floare, Mariana Cortines, Monica Bittencourt, Camilla Molica, Dayse Pozato, Roberta Teixeira e Thiana Bialli) criaram os textos, alguns fictícios, outros baseados em episódios reais.

O blog conversou com Naar. Confiram:

Depois de mais de duas décadas em televisão, você finalmente estreia como diretor teatral. Era uma vontade antiga? Por que apenas agora isso aconteceu?

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A direção de atores sempre foi minha paixão. Mas, como diretor na TV Globo, minha responsabilidade é muito maior. Numa novela, o diretor geral é, na prática, quem toca uma pequena empresa. Minhas equipes, somadas ao elenco, têm uma média de 500 pessoas. São, por assim dizer, pelo menos 500 pessoas perguntando todos os dias o que deve ser feito. Administrar o tempo é um grande desafio. Produzir o momento de calma para realizar as cenas, dirigir os atores, trocar ideias, ir mais fundo na análise do texto e das personagens é o objetivo. Sempre encontro uma maneira de estabelecer essa troca com a equipe de diretores que trabalha comigo, e com o elenco, meu maior aliado. Trabalho com os atores mais talentosos do mundo, não é exagero. Não é fácil, especialmente para quem atua, fazer novelas. É a arte do tiro certo. É uma indústria, e como qualquer outra tudo deve funcionar perfeitamente, como um relógio. E o fator tempo é decisivo. O ator brasileiro tem um talento e um treinamento raro para esta mídia. Um poder de improviso, plasticidade, concentração, bom humor e tantas outras qualidades, que seria inimaginável fazer televisão sem contar com elas. E foi do elenco que veio meu maior e mais consistente incentivo. Em centenas de conversas entre uma cena e outra, fui encorajado a dirigir teatro. Me lembro de alguns atores, que admiro e respeito muito, transmitindo seu amor e entusiasmo pelos palcos. Eva Wilma, Marieta Severo, Ary Fontoura, Fernanda Montenegro, Osmar Prado, Stênio Garcia, Antonio Fagundes, a lista é enorme. Verdadeiros monstros sagrados com os quais aprendi muito e de quem ouvi sempre: “Naar, você dirige atores, tem que fazer teatro!” De certa maneira, eu obedeci.

Como foi construído o texto de Anônimas e como se deu a participação das atrizes nesse processo?

O texto não nasceu, simplesmente. Foi gestado. Há muito tempo ganho a vida contando estórias. É verdade que pra isso sempre contei com textos de autores consagrados. E ninguém passa anos lendo Dias Gomes, Gilberto Braga, Manoel Carlos, Aguinaldo Silva e sai incólume. Equivale a alguns anos de uma excelente universidade. Deixar de lado o teclado e gravar em áudio as histórias que quis contar foi o que permitiu desatar um nó. E assim, começar a criar. O surpreendente foi me dar conta de que minha paixão pelas mulheres, meu carinho, e meu desejo de ouvir o que elas têm a dizer, acabou surgindo em meus textos, na primeira pessoa. Mais surpreendente ainda foi ouvir, das atrizes que convidei para as primeiras leituras, que os textos eram bons e que falavam com muita propriedade do universo feminino. Minha vontade de escutar as mulheres só cresceu desde que comecei este trabalho. Soma-se à minha preocupação. A história da humanidade nos mostra o quanto a mulher é oprimida. E não há nenhum pressuposto feminista em minha posição. Não vejo a questão de gênero como uma disputa, e sim como encontro e descoberta. Mas isso parece ser muito difícil, e o caminho mais fácil é o da subjugação. Em Anônimas, quem fala alto são elas. Foram incentivadas, tiveram apoio, foram encorajadas a fazê-lo. Desse clima de carinho e troca, começaram a brotar os textos que já estavam prontos no peito de todas elas. Em cada uma destas atrizes, como em qualquer ser humano, mulher ou homem, existe o desejo de se expressar. E de ser escutado sem censura ou crítica. E por tudo que disse, no caso da mulher, foi preciso apenas dizer que existe um lugar. Este lugar, agora, é o palco.

Considerando que a peça é fincada em depoimentos de mulheres, em que medida o público masculino ficará interessado? 

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Homem que é homem gosta de mulher, mantendo o bom humor. São atrizes lindas, simpáticas, inteligentes e talentosas. Suas histórias são divertidas, comoventes, interessantes e surpreendentes. Sim, porque muitas contam muito do que não diriam em casa, pra melhor amiga, no analista ou nem mesmo para o namorado ou marido. Então, se não for por um destes motivos, que seja pelo menos pra se sentir grudando a orelha na porta da sauna, e escutando tudo que elas contam. Só que confortavelmente, na poltrona do teatro.

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