Uma(s) conversa(s) com Paulinho da Viola

Paulinho da Viola brilhou no time dos Cariocas do Ano de 2015, cidadãos que representam (e fazem) o melhor da cidade celebrados na edição de Veja Rio a caminho das bancas neste sábado (5). A cerimônia de anúncio dos homenageados ocupou o Hotel Copacabana Palace no dia 1º. Último a receber o troféu, o cantor, […]

Paulinho: muita história para contar

Paulinho: muita história para contar

Paulinho da Viola brilhou no time dos Cariocas do Ano de 2015, cidadãos que representam (e fazem) o melhor da cidade celebrados na edição de Veja Rio a caminho das bancas neste sábado (5). A cerimônia de anúncio dos homenageados ocupou o Hotel Copacabana Palace no dia 1º. Último a receber o troféu, o cantor, compositor e instrumentista foi aplaudido de pé e agradeceu em delicado discurso da gema, fazendo piada com a Muda, reino encantado do compositor Aldir Blanc, situado em algum lugar mágico ali entre a Tijuca e a Usina. Curto, o texto na revista rende homenagem ao bom ano de Paulinho, que começou a comemorar seus 50 anos de carreira em 2014 e atravessou 2015 na mesma toada. Aliás, ele só encerra a turnê do cinquentenário no Vivo Rio, no dia 16 de janeiro de 2016. Como a conversa foi ótima, seguem abaixo alguns outros tópicos da mais alta relevância. Registros para a posteridade sobre futebol, música e literatura.

FUTEBOL

O vascaíno Paulo César Baptista de Faria passou a vida inteira dividido entre as paixões pela música e pela bola. Garoto, 12, 13 anos, já rodava o Rio de bonde atrás de partidas de futebol. De Botafogo, partia nas férias e sempre que podia para a casa da tia Trindade, em Vila Valqueire, perto de um quarteirão privilegiado. “Era um lugar com cinco campos”, contou outro dia, os olhinhos brilhando, durante a sessão de fotos para a edição Cariocas do Ano. No dia da festa, no Copacabana Palace, passou um tempo olhando para orla em frente. Foi a deixa para virem à tona lembranças do Amigos Praia Clube, perto dali, nas areias do Leme, onde o pai dele, seu César (1919-2007), jogou bola a vida inteira. Futebol de praia, disputado a sério, com até vinte atletas de cada lado e participação religiosa de cada integrante. Paulinho só foi autorizado a entrar em campo lá para os 15, 16 anos. “Meu pai jogou até depois dos 70, na areia, só parou porque as partidas andaram interrompidas um tempo, a prefeitura instalou alguma coisa ali no meio, atrapalhou. Quando eles voltaram a jogar ele desanimou”, lembra. Um dos integrantes do Amigos, já velhinho e cego (desgraçadamente, não lembro o nome, mas Paulinho lembra), continuou a frequentar as partidas com um amigo ao lado, narrando cada lance. Outro personagem dessa turma, o Baiano, também era Pai de Santo. Um belo dia, todos a postos, bola à espera do pontapé inicial e eis que surge um despacho no meio do campo, ali na areia. Parou tudo. “Foi o Baiano que, dizendo as palavras certas, ali baixinho, tratou de remover o despacho”, narra Paulinho. Só mais uma do mundo da bola: em um dos vários times em que Paulinho jogou, a escalação incluía, entre outros, João Araújo, profissional da indústria fonográfica e pai do cantor Cazuza. Era 1970 e, terminado mais um embate, no vestiário, Araújo contou que estava de casa nova, a RGE. Naquela intimidade de boleiros, o executivo perguntou se Paulinho tinha alguma ideia de disco. Nascia ali o projeto do clássico Portela Passado de Glória, o disco que deu forma à instituição da Velha Guarda.

PORTELA PASSADO DE GLÓRIA

O disco, de 1970, é um marco – Paulinho já era um nome conhecido, mas impressiona imaginar que tinha tenros 28 anos quando concebeu e realizou esse projeto maravilhoso. O bairro de Botafogo onde ele nasceu e cresceu fervia no Carnaval. Nos dias de folia, a turma se esbaldava atrás do São Clemente (embrião da escola atual), do Foliões de Botafogo, do Sem Rival, do Funil, do Bloco da Chuva, por aí vai. No subúrbio, nas temporadas na casa da tia Trindade, o músico viria a criar seu próprio bloco, o Foliões da Anália Franco, com amigos de Vila Valqueire. Depois, começou a compor na União de Jacarepaguá antes de, pelas mãos do amigo Oscar Bigode, ser apresentado à ala de compositores da Portela. Ali, fez-se a mágica. Na primeira visita, em 1963, Paulinho mostrou a primeira parte de um samba aos presentes. Um deles, o bamba Casquinha, fez a segunda na hora e nasceu o clássico Recado. Começava uma paixão de vida inteira. Anos depois, já como membro da ala (foi presidente, inclusive), ele se aproximou dos compositores mais antigos da escola, que se reuniam à parte, no antigo bar do Nozinho. Parava para ouvir as histórias, lembrar de sambas antigos. Quando João Araújo, na gravadora RGE, perguntou se tinha alguma ideia para um disco, não deu outra. Paulinho falou com o veterano Ventura, que convocou Manacéa, Armando Santos, Alberto Lonato, Aniceto, João da Gente (uma das mais belas vozes da história do samba). Depois, reuniu esses e outros pioneiros portelenses para uma sessão de gravação em Botafogo. “Levei o gravador de rolo emprestado de um amigo, registramos 28 sambas e fizemos a seleção”, conta. Metade dessas pérolas foi parar no disco, gravado em módicos quatro canais no estúdio Havaí, nos arredores da Central do Brasil. Acontece que poucos daqueles bambas tocavam instrumentos. “Para acompanhar, convidei seu Jair (Jair do Cavaquinho), meu pai (César Faria, o tarimbado violonista do grupo Época de Ouro), o Casquinha para fazer o ritmo, entre outros”, explica. Naquele tempo, Casquinha e Monarco eram novos demais para ser considerados da “velha guarda”. Monarco, mesmo assim, marcou presença no repertório como autor da faixa-título, mas perdeu as gravações, segundo consta, porque tinha que dar expediente no mercado de peixe da Praça Quinze. As pastoras foram Vicentina e Iara. Paulinho lembra até hoje dos “pandeirinhos oitavados, sem platinela”, que os mais antigos carregavam. “Eles faziam uma batucada maravilhosa com esses instrumentos. Não existem mais, nunca mais vi isso”.

LITERATURA

Essa é curtinha, prá respirar. No dia da cerimônia de anúncio dos Cariocas do Ano, da revista Veja Rio, Paulinho estava chateado com a notícia do fechamento da editora Cosac & Naify. Elogiou muito as esmeradas publicações da empresa e desatou a tratar de literatura. Estava feliz da vida terminando de ler pela primeira vez Dom Quixote, o marco inicial do romance moderno. Antes, também de Cervantes, tinha enveredado pelas Novelas Exemplares e recomenda fortemente. À Cosac & Naify ele agradece pela descoberta de, nas palavras dele, “um tremendo escritor uruguaio”: Felisberto Hernández (1902-1964), dono de biografia fabulosa, pianista que, a certa altura da vida, trocou a música pela ficção.

PAULINHO E O ROCK

Nosso herói tinha uns 15, 16 anos quando o filme Ao Balanço das Horas tomou de assalto as salas de cinema da cidade. Nos jornais, a produção era anunciada como a ponta de lança de um novo gênero musical americano, o rock, “um ritmo alucinante”. Cevado por samba e choro, Paulinho não conseguia (não consegue, até hoje) entender como um determinado tipo de música pode ser alucinante, pode enlouquecer alguém. O fato é que os jovens espectadores do filme, que no original levava o nome do primeiro sucesso de Bill Haley & His Comets (Rock Around the Clock), desenvolveram o curioso hábito de destruir as salas de cinema após cada sessão. “Teve um cara que deu um tiro na tela. Eu entrei em pânico, já comecei a torcer contra. O período da minha adolescência foi longe disso”, conta. Muitos anos depois, já um sambista consagrado, Paulinho assistiu ao surgimento avassalador do Rock Brasil, ali no começo dos anos 80. Blitz e Barão aqui no Rio, “a turma de Brasília”, como ele definiu, eram o sucesso do momento e as apostas principais das gravadoras. “Aí vem o Agepê, com Deixa Eu Te Amar, e faz sucesso no Brasil inteiro. O pessoal das gravadoras ficou tentando entender aquilo”, lembra, matreiro. O sambista Agepê, que não por acaso também militou na ala de compositores da Portela, lançou seu sucesso romântico em 1984 – o LP com a música, Mistura Brasileira, ultrapassou 1,5 milhão de cópias vendidas. Paulinho recomenda que os estudiosos dediquem mais atenção ao fenômeno, mas tem sua (dele) própria teoria: “o samba nunca saiu de cena. Sempre esteve na boca do povo. Nesse começo dos anos 80, eu via a galera fazendo pagode na Barra, os ginásios do subúrbio lotados com shows de sambistas. O povo não deixa o samba morrer”.

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