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Pop, inteligente e formidável

Sem usar nem 1 centímetro de fita isolante, Rubel faz de Casas, seu segundo disco, uma pequena joia da nova música brasileira

Por Pedro Tinoco - Atualizado em 2 mar 2018, 20h49 - Publicado em 2 mar 2018, 19h39
Rubel: revelação da Internet, o músico esbanja talento e maturidade no novo disco Guido Argel/Divulgação

Ele queria fazer cinema, entrou na faculdade para isso. Durante o curso, descolou um intercâmbio no Texas, Estados Unidos. Por lá, instalado em uma república de estudantes numerosa e animada, encontrou parceiros musicais e seus primeiros fãs, na plateia de um barzinho onde tocava com a galera. O repertório ia de música brasileira (Jorge Ben, Mutantes etc) ao gênero local, o folk, estilos misturados nas canções que Rubel gravou como lembrança daquela temporada, jogou na Internet para mostrar aos amigos e… estouraram. De forma surpreendente, um monte de gente Brasil afora começou a pedir mais, a cobrar show – a plateia on-line se encantou com um artista que, àquela altura, não existia profissionalmente. Empurrado pelo sucesso virtual, Rubel trocou o papel de candidato a cineasta pelo de cantor e compositor, montou uma banda no final de 2014 e caiu na estrada. O clipe de Quando Bate Aquela Saudade, uma das sete faixas do disco de estreia, Pearl (reunião das gravações feitas como suvenir da boa vida no Texas), ultrapassou 17 milhões de visualizações no YouTube.

O parágrafo acima é mais ou menos como o comecinho do filme UP! Altas Aventuras: uma linda história contada antes do assunto principal, a título de introdução – afinal, Rubel já foi assunto por aqui em um post de 2015. Prestigiado pelos algoritmos (e pelas algoritmas, mas essa é outra história), mais tarimbado, o músico nascido em Volta Redonda e criado no Rio chegou ao segundo disco. O recém-lançado Casas, produzido com apoio do projeto Natura Musical, é formidável. Esbanja maturidade em catorze faixas que transportam para recantos insuspeitados a suavidade na voz e nos arranjos, marca de Rubel. O novo repertório avança em direções diversas para abrigar samba (Casquinha), programação eletrônica, sopros, a elegância das cordas de Felipe Prazeres (violino) e David Chew (cello), além de parcerias tremendamente felizes. Rubel somou seu talento ao de dois colegas que, como ele, estão fazendo diferença na música brasileira: Rincon Sapiência (em Chiste) e Emicida (em Mantra). As influências ao longo de Casas vão do hip-hop de Kendrick Lamar e Frank Ocean a Gilberto Gil – lembrado, em Mantra, com citação a Aqui e Agora, canção do LP Refavela, de 1977. Na mesma música, aliás, um Tim Maia sampleado marca presença com uma de suas tiradas impagáveis, em discreta demonstração do bom uso musical da tecnologia. Nas letras, bem mais elaboradas do que a média recente, Rubel trata com coragem serena de assuntos diversos: estão lá o relato autobiográfico de Colégio, com o qual muita gente se identificará, a paixão rasgada de Partilha e o lirismo agridoce de Chiste, a parceria com Rincon, um tratado certeiro e sintético sobre a dor e o riso. Ficou bom, viu?

CHISTE, OUÇAM SÓ:

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