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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

Que venha a Era de Aquário!

O ano que nos surpreendeu com pandemia, isolamento e muitas perdas, termina também com muita arte produzida pelos guerrilheiros da cultura

Por Rita Fernandes Atualizado em 25 dez 2020, 19h34 - Publicado em 25 dez 2020, 12h04

Em tempos de Gambito da Rainha, quem caiu fora foi o Bispo. E já foi tarde! Foram quatro anos de desmonte de uma cidade que a gente insiste ainda em chamar de maravilhosa. O Rio nunca foi tão maltratado, tão deixado de lado, tão usurpado em suas riquezas. E não falo apenas de riquezas materiais, mas principalmente das imateriais.

Mas tudo tem um fim e lá se foi a era Crivella, graças a Deus. Fica um estrago do tamanho de um bonde, especialmente na cultura. São 13 centros culturais, dez lonas, quatro museus, dois planetários e oito teatros em situação de total abandono, patrimônios deteriorados, falta de investimento, falta de profissionais, sem falar no extermínio dos editais de fomento que a secretaria dedicava a diferentes linguagens, como teatro, música e audiovisual. Dá pena olhar a cultura sucateada da cidade.

Contra todas as adversidades, o artista brasileiro é resistente, criativo e vai tocando a bola pra frente, acreditando que uma hora tudo vai melhorar. Esperança é o que não falta a essa turma de músicos, dançarinos, artistas, atores e um contingente de profissionais da cultura.

Mas não quero terminar esse ano, que foi tão difícil (não tenho mais adjetivos para 2021), chorando mágoas. Quero aproveitar esse espaço e destacar os guerrilheiros que foram para trincheira e que se viraram para tornar o nosso ano melhor, com suas artes. Então vamos lá:

Como diz a fantasia do Thales Brown, da Charanga Talismã: o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
Renata Feller/Divulgação

Blocos de rua – mesmo com um prefeito que não gostava de carnaval, lutando para se manter na rua, o carnaval dos blocos fez um festão em fevereiro quando ainda nem sabíamos o que vinha pela frente. Blocos tradicionais, blocos novos, múltiplas sonoridades e tipos de manifestação ocuparam de forma pacífica e alegre as ruas da cidade. Mal sabíamos o que nos aguardava logo depois.

Teresa Cristina – a cantora e sambista, sem imaginar no que se tornariam suas lives, acalentou com suas histórias, músicas e desabafos emocionados as nossas noites, especialmente nos primeiros tempos da pandemia quando a gente nem sabia quanto tempo essa loucura ia durar. TT saiu do casulo, deixou de lado a timidez e se jogou na web. Sorte nossa!

Mônica Salmaso – a delicadeza do projeto Ô de Casas, criado pela cantora, foi um bálsamo em dias em que acreditávamos que tudo estava perdido e que as notícias só iam piorar. Mônica reuniu vozes e talentos no quadro que criou em sua página do Instagran, ela mesma uma virtuose. Como canta, essa Mônica! E que vozes ela conseguiu reunir e nos apresentar.

Martins, Almerio e Isabela Moraes – compositores e cantores, os jovens artistas da nova cena  pernambucana arrasaram nas lives e transmissões de seus shows. Martins aqueceu minhas noites, mostrou cara e voz doce ao mundo, tornou-se gigante. Almerio juntou novas forças lá do meio do agreste de Pernambuco e montou um repertório de tirar o fôlego. Junto com Mariene de Castro, foi indicado ao Grammy Latino com o show “Acaso Casa”. Isabela Moraes é música quando respira, mostrando suas entranhas, seus sentimentos, sua potência. Pernambuco realmente é um lugar muito especial!

About Carnaval/About Quim – o projeto de lives carnavalescas apresentadas pela dupla Tatyane Meyer e Marcelo Cebukin foram uma delícia, lembrando a todos que o carnaval no Rio é parte da nossa alma, e que contra tudo e contra todos, ele sempre estará por aqui. Foram noites animadas e inesquecíveis.

Moyseis Marques – o cantor e compositor nos presenteou com lives incríveis, trazendo sambas clássicos e outros inéditos para o nosso cotidiano, lembrando que a cena carioca vai driblando obstáculos e encontrando caminhos, e que apesar do isolamento, nós ainda somos do samba, da música e do afeto.

MAM – a nova gestão do Museu de Arte Moderna do Rio chegou chegando, trazendo uma equipe feminina da pesada, projetos consistentes, ousados e colocando a arte num lugar de destaque, contra tudo e contra todos, fazendo o museu respirar pelas frestas e trazendo ares novos. Está lá a exposição em homenagem a Helio Oiticica.

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Leandro Vieira – destaco o trabalho potente, consistente, comprometido, brilhante do carnavalesco da Verde e Rosa, tanto no desfile do último carnaval, quanto na apresentação sem pressa do enredo da escola, que vai homenagear três baluartes da escola e do seu lugar: Cartola, Delegado e Jamelão. Seja lá quando tiver carnaval, será bonito de ver esse desfile, que virá carregado de homenagem, simbologia e afeto.

Museu Bispo do Rosário – Outro museu que deu a volta por cima, principalmente em um ano em que a luta antimanicomial se tornou ainda mais árdua com o desmonte por parte do governo federal. Exposição virtual Utopias, projeto Arte.Vital., catalogação de obras para Catálogo Raisonné e bloco de carnaval marcaram o ano do museu.

Novas Frequências – se o festival que completou dez anos já era ousado, em 2020 ele se superou, tendo que manter suas características no ambiente virtual. Além de uma curadoria audaciosa e apurada, trouxe pela primeira vez a pioneira da arte multimídia Jocy de Oliveira.

Demarcação Já Remix – outro festival que contra todos os obstáculos impostos por esse ano de pandemia, corte de patrocínios e muita dificuldade conseguiu se manter ativo, com a parceria da Anistia Internacional e mantendo o seu chamado para a questão da luta indígena no Brasil.

Jacksons do Pandeiro – o trabalho impecável do musical apresentado pela Barca dos Corações Partidos, dirigida por Diego de Godoy e realizado pela Sarau, foi um presente.  A Barca levantou mais de 400 canções gravadas por Jackson do Pandeiro, um painel vasto do canto brasileiro das décadas em que atuou, dos anos 1950 até 1982, quando morreu.

Mariene de Castro – a cantora, reunida com a família em seu refúgio, revisitou seus discos e shows e foi indicada, junto com Almerio, ao Grammy Latino com o show e dvd “Acaso casa”. Pudemos rever, entre outros, “Santo de Casa”. E teve ainda as resenhas da Maricotinha, que ela conduzia sempre às 18h iniciando com a Ave Maria, e com muitos convidados do mundo sagrado, de pastores, padres, pais de santo a rabinos. Momentos de luz e pura delicadeza.

Roda do Bip Bip – e, claro, não poderia esquecer de jeito nenhum a permanência e resistência da roda do Bip Bip, comandada pelo músico Thiago Prata, o Pratinha, que manteve acessa aquela chama do samba carioca, recebendo um monte de representantes da nossa cultura, como Thiago da Serrinha, Alice Passos, Pedro Paulo Malta, entre tantos outros.

A delicadeza do projeto
Instagran Monica Salmaso/Reprodução

Foram muitos dias difíceis, muitas perdas, muita vida passando pela janela e muito repensar. Mas foram também muitos presentes, muita música, muita arte e o estreitamento de relações realmente importantes e verdadeiras. Para completar, no último dia 21 de dezembro, quando pudemos assistir ao fenômeno da Estrela de Belém, foi anunciado que estávamos entrando numa nova era, a de Aquário. Pois que venha plena, com todos os seus significados: uma vida mais justa para todos, mais empatia, um pensar mais coletivo, sem preconceitos, sem críticas, sem violência. Que 2021 chegue com boas notícias para todos nós, as tão sonhadas vacinas e muita transformação para um mundo novo com mais luz!

Feliz Natal! Rumo a 2021!

Rita Fernandes é jornalista, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultura carioca e carnaval.

 

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