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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

As novidades do Museu Bispo do Rosario

Exposição virtual Utopias, projeto Arte.Vital., Catálogo Raisonné e bloco de carnaval estão entre os múltiplos projetos do museu que une arte e saúde mental

Por Rita Fernandes - Atualizado em 8 out 2020, 16h27 - Publicado em 8 out 2020, 16h26

Quem gosta de arte e de cultura não pode perder a visita virtual à exposição Utopias, do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, localizado na área da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá. A exposição, realizada em tour virtual, iniciou no dia 29 de setembro e já contou mais de 700 visitantes em apenas uma semana.

O tour começa pelo pórtico de entrada da Colônia, o hospital psiquiátrico construído na década de 1950 em um local que, originalmente, era habitado pelos índios Tupinambás, e onde Bispo do Rosário esteve internado por 50 anos. O prédio, que atualmente se encontra fechado por causa da pandemia da Covid-19, foi construído em estilo modernista e guarda todo o acervo do artista.

A edição virtual da exposição “Utopias: A vida para todos os tempos e glória” reúne obras de Arthur Bispo do Rosario, Hugo Denizart, Atelier Gaia, Pola Fernandez, Val Souza, Ercília Stanciany, Veridiana Zurita e seu Hernandez. A curadoria, realizada por Diana Kolker e Ricardo Resende, é resultado de um processo colaborativo que envolveu artistas, educadores, crianças, profissionais e usuários dos serviços de saúde mental.

Manto da Apresentação é um dos mais conhecidos trabalhos de Bispo do Rosário, que traz o verso todo bordado com nomes de pessoas. Foto Rodrigo Lopes/Divulgação

Arthur Bispo do Rosário foi descoberto pelos críticos de arte e pela mídia na década de 1980, e criou um sistema capaz de dar vazão àquilo que chamava de sua missão espiritual e à toda a sua força poética. Bispo fez uma espécie de inventário do mundo, em que buscou reunir todos os objetos criados pela humanidade a fim de representar a existência na Terra. “Esse era o caminho para a materialização do mundo glorioso por ele imaginado, sem miséria, tristeza e doença mental: sua utopia”, diz o texto de apresentação da exposição no site do museu.

A primeira vez que Bispo do Rosario expôs, apresentou ao mundo seus quinze estandartes na mostra “Margem da Vida”, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, em 1982, e dali em diante ficou internacionalmente conhecido com seus mantos, faixas de misses, veleiros e outros trabalhos que estão guardados no Museu.

Arte. Vital.

Além da exposição virtual Utopias, o Museu Bispo do Rosário prepara o projeto Arte. Vital., um resgate histórico dos trabalhos de artistas que passaram pela Colônia desde os 1950, incluindo os trabalhos em conjunto com artistas da geração do Parque Lage nos anos 1980, quando Bispo foi descoberto, chegando até os dias atuais.

“A pandemia não nos imobilizou, ao contrário. Estamos em constante movimento, e criando exposições e projetos virtuais que buscam repensar as relações entre arte e saúde mental”, diz a diretora do Museu, Raquel Fernandes.

Arte. Vital. será apresentado inicialmente como uma exposição virtual, mas no primeiro semestre de 2021 deve virar uma exposição presencial, se as condições de segurança de saúde permitirem. Além da reconstituição de uma linha do tempo, que vai dar visibilidade a toda a produção que ali já foi realizada, o projeto também faz conexão com a Casa B, projeto de residência artística que atualiza toda essa trajetória.

A diretora do Museu destaca que esse olhar da arte como algo vital na vida das pessoas foi potencializado ainda mais no contexto da pandemia. “Onde e como a arte entra como elemento apaziguador, ou como ruptura, ou como subversão da lógica anti manicomial? É importante trazer tudo isso para o diálogo”, diz Raquel.

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Projeto Interfaces

Dentro do projeto Arte.Vital se insere o Interfaces, realizado pela artista residente Jessica Barbosa – atriz e performer– em lives que vêm discutindo essas questões. Jessica tomou contato com o universo da arte no campo da saúde mental a partir do convívio com a avó, que esteve em uma instituição em Salvador. Foi a partir disso que começou a residência artística no Museu para composição de um espetáculo teatral chamado “Em busca de Judith”, em que buscava entender suas questões familiares. Do aprofundamento da residência surgiu o Interfaces.

A atriz e performer Jessica Barbosa criou o projeto Interfaces, lives que vêm discutindo questões da arte e da saúde mental. Divulgação/Arquivo pessoal

A ideia, segundo Raquel Fernandes, é trabalhar cada vez no formato híbrido, com atividades online e presenciais, quando essas foram possíveis, uma mudança que vem acontecendo em praticamente todas as instituições culturais do país.

“É importante continuar o trabalho no território, mas também nas redes sociais, até mesmo porque o museu está longe do centro do Rio, e ao mesmo tempo já tem alcance internacional”, diz a diretora.

Ponto de cultura

No rol das novidades, o Museu Bispo do Rosário passou a ser um novo Ponto de Cultura, contemplado pelo edital da secretaria municipal de Cultura. Um dos mais importantes projetos será o desenvolvimento do bloco de carnaval Império Colonial – nome dado pelos pacientes – que desfila nas imediações da Colônia desde 2012, e que agora vai ganhar uma maior organização. No projeto, estão previstas oficinas de adereços, bonecos, estandartes e fantasias. A ideia é fazer um trabalho com os próprios usuários da Colônia, criando uma lógica no campo da economia criativa em diálogo a obra de Bispo do Rosário, e os temas da loucura e carnaval.

O bloco de carnaval Imperio Colonial é formado por pacientes e usuários da Colônia Juliano Moreira e é um dos projetos do Museu Bispo do Rosário. Divulgação/Arquivo pessoal

O projeto segue experiências bem-sucedidas como os blocos Loucura Suburbana e o Tá Pirado, Pirando, Pirou, que deram frutos importantes sobre maior engajamento da sociedade na luta anti manicomial.

Catálogo Raisonné

A catalogação da obra de Bispo está terminando agora, para conclusão do Catálogo Raisonné. Ao fazer a transcrição dos nomes bordados no verso do manto, a equipe de catalogação encontrou o nome da médica Nise da Silveira, que Bispo não conheceu. Como o nome da médica chegou a ele e ao manto é um mistério que a turma do Museu está tentando entender.

Para visitar a exposição virtual:
https://museubispodorosario.com/exposicao-atual/#

Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultura e carnaval.

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