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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

Atenta & forte: a força feminina no Carnaval

Blocos de rua mostram a força do feminismo e que a pauta vai ter que ser incorporada às políticas de carnaval

Por Rita Fernandes - Atualizado em 9 mar 2020, 16h45 - Publicado em 9 mar 2020, 16h44

Essa década é nossa e será feminista! O carnaval de rua foi o primeiro a mostrar a cara e a luta está só começando. É luta na festa, é luta na luta, e as minas entenderam isso. Foram para a rua festejar, cheias de glitter e purpurina, donas de seus corpos com ou sem fantasia, mas também armadas de palavras de ordem agora ainda mais importantes: Não é Não, Meu Corpo, Minhas Regras, Todas por todas.

O ano começou dando seus sinais quando ainda nem tinham inventado a desastrosa “abertura de carnaval oficial” da cidade. Vieram os primeiros relatos de mulheres que haviam ingerido bebidas adulteradas e que haviam “apagado” por horas a fio, tornando-se vulneráveis a qualquer tipo de abuso e violência. Casos de assédio no carnaval não são exatamente novidade (infelizmente!). Mas esse ano, a coisa acabou sendo diferente. As notícias dos ataques espalhados por diferentes regiões moveram um sentimento coletivo de que ou a gente se juntava e fazia alguma coisa, ou as estatísticas da violência à mulher iam disparar ainda mais.

E foi da iminência do perigo que surgiu a Comissão de Mulheres Contra a Violência no Carnaval, que acabou ganhando o codinome Atenta & Forte. Começou juntando lideranças habituadas ao combate, como o Bloco Mulheres Rodas, o coletivo Todas por Todas, entre duas dezenas de grupos ligados ao carnaval. Em seguida, vieram os encontros com a Defensoria Pública, que já havia feito no carnaval de 2019 uma ação contra o assédio nos blocos em parceria com o Mulheres Rodadas, com a campanha Não É Não.

Uma trouxe a outra, e rapidamente um grupo de mulheres do carnaval de rua se juntou e fechamos o trabalho com cerca de sessenta representantes de diversos blocos e coletivos. Gigantes na Luta, Trombetas Cósmicas, Dali Saiu Mais Cedo, O Baile Todo, Calcinhas Bélicas, Toques para Odudua, Toco-Xona, Vem Cá Minha Flor, Coreto, Bloconcé, Bloka, Agytoê, Mulheres de Chico, Sebastiana, Amigos da Onça, Maria vem com as outras, Locomotiva da Baixada, para citar alguns. Impressionante foi ver como tem gente pra somar, e que mesmo sendo período de carnaval, quando parece que o mundo está só na brincadeira, a gente consegue avançar.

Se esse ano não pudemos fazer muito, pela falta de tempo e de recursos, ficou muito claro que a luta já está na rua e que não vai parar. A primeira coisa foi a produção de um manifesto, lido antes dos desfiles de mais de 100 blocos. Em apenas duas semanas, foi feita a distribuição de dez mil ventarolas, produzidas pela Defensoria Pública, e o atendimento em uma tenda de acolhimento e apoio na Cinelândia, projeto do coletivo Todas por Todas, comandado por Ju Storino, que elas já realizam e que foi estendido para acolhimento no carnaval.

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Thaily Reis, da Comissão, lê o manifesto no Boitolo
Rapha Silva/Divulgação

Houve muito esforço das manas para ampliar o número das tendas para outros locais em que fosse possível receber um número maior de mulheres. Mas o pouco tempo não foi suficiente para a vaquinha que se tentou. O projeto é incrível e pode ter um efeito multiplicador importante, na redução dos casos de violência, na divulgação dos canais e órgãos de apoio, no acolhimento e encaminhamento psicológico e legal às vítimas de abusos. Mas não dá para fazer sem apoio, seja público ou privado.

Fica evidente, quando fazemos uma ação como foi o Atenta e Forte, que esse tipo de planejamento e cuidado deveria estar antes de tudo integrado às políticas de carnaval. Não basta a cidade ter banheiros químicos, controladores de trânsito, postos de saúde, itens da infraestrutura da festa. É preciso pensar nas pessoas que fazem e que são convidadas para a festa. A questão da mulher vai ter que estar incluída na política pública do carnaval daqui pra frente. É pauta obrigatória!

É preciso apoiar ações que já existem, como essa das tendas de acolhimento do Todas Por Todas. É preciso aumentar cada vez mais o tom e a visibilidade do tema para que haja, de fato, mudança de comportamento. Deles e delas. Deles, para que se acabem os comportamentos baseados em um machismo cafona, vergonhoso, violento e castrador. Delas, para que tenham confiança e coragem de falar, de buscar apoio, de denunciar.

O carnaval não pode ser desculpa para comportamentos totalmente fora da ordem do século 21. O carnaval é festa! Uma festa com potencialidade enorme de reverberar as entranhas da sociedade, para o bem e para o mal. Vamos usá-lo para o nosso bem, aproveitando a força da sua ressonância.

Não é não! O nosso corpo é nosso! Ninguém mete a mão. Nosso desejo é primordial e nós escolhemos onde, como e com quem queremos estar. Como diz o samba de 2019 da Mangueira, que virou hino nacional: “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês!”

PS.: Quem quiser ajudar o projeto das tendas, segue o link: vaka.me/901110

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