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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

Eu sou o samba

Centenário de nascimento de Zé Kéti será comemorado com a participação de diferentes gerações de sambistas, trazendo ânimo e alento em tempos de pandemia

Por Rita Fernandes 5 jan 2021, 16h00

Se os tempos fossem outros, no último domingo, dia 3 de janeiro, teria acontecido o Carnaval Não Oficial dos blocos independentes, também chamados de “não oficiais”, que fazem no Centro do Rio o primeiro movimento carnavalesco na cidade. Mas esse ano não vai ser igual àquele que passou e não deu para botar o bloco na rua. A pandemia da Covid-19 ainda nos mostra, todos os dias, aumento nos números de pessoas contaminados e de mortos, vítimas da doença.

Longe da cidade maravilhosa, em um afastamento necessário depois dessa overdose de boletins médicos, histórias de perdas e posts em redes sociais, penso que, no entanto, nem tudo está perdido. O projeto “Zé Kéti – 100 anos da Voz do Morro”, que acontece dos dias 14 a 17 de janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, traz alento a essa alma carente de samba e alegria. Serão quatro shows em homenagem ao centenário de nascimento de um dos mais importantes representantes do samba carioca, com a participação de cantores e cantoras de diferentes gerações, como Zé Renato, João Cavalcanti, Cristóvão Bastos, Fabiana Cozza, Casuarina, Nilze Carvalho, Moacyr Luz e Sururu na Roda.

João Cavalcanti faz homenagem a Zé Kéti
João Cavalcanti, com Fabiana Cozza, abre o projeto do centenário de nascimento de Zé Kéti. Flora Pimentel/Divulgação

No repertório, clássicos como A Voz do Morro, Acender as velas, Cicatriz, Diz que fui por aí, Madrugada, Malvadeza Durão, Máscara Negra, Mascarada, Psiquiatria, Amor passageiro e Leviana. Além dos quatro shows, bate-papos com Zé Renato, João Cavalcanti e Fabiana Cozza, nas datas das apresentações. Isso sim é um presente para quem começa o ano, buscando esperança e alegria.

Zé Kéti nasceu José Flores de Jesus, no Rio de Janeiro, em 1921, década da “Belle Époque” carioca. E chegou em uma família de músicos,  com o pai, o marinheiro Josué Vale de Jesus,  cavaquinista e seu avô, João Dionísio de Santana, flautista e pianista. Como era comum naquele Rio de Janeiro, em sua casa eram frequentes as rodas de choros, com a participação, entre outros, de artistas como Pixinguinha. E foi ainda menino que ganhou o apelido de Zé Quieto, encurtado depois para Zé Quéti, depois escrito com K e que se tornou seu nome artístico.

É mesmo para tirar o chapéu e reverenciar esse artista que se tornou um ícone do samba carioca. Os shows trazem um panorama da sua trajetória, passando por várias etapas de sua vida e obra. A boemia e a malandragem, o amor à Portela e ao Carnaval, a parceria com o cinema, com o Opinião e os encontros no Zicartola marcam sua história. Foi ali, na casa de samba comandada por Cartola D. Zica, que conquistou amigos e parceiros como Paulinho da Viola, Monarco, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Nara Leão e Roberto Menescal.

Nilse Carvalho, com o grupo Casuarina, apresenta o show “Um Sambista de Opinião”.
Nilse Carvalho apresenta o show “Um Sambista de Opinião” com o Casuarina. Divulgação/Divulgação

A Voz do Morro se tornou uma de suas músicas mais famosas, composta no início de 1950, e que se tornou tema do filme Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos. Foi gravada, depois, por grandes intérpretes, como César Guerra-Peixe, Demônios da Garoa, Elis Regina e Jair Rodrigues, Luiz Melodia e pelo próprio autor. Em 1963, o compositor e cantor já tinha se tornado uma referência para os músicos da Bossa Nova. A peça Opinião, de Oduvaldo Vianna Filho, ganhou esse título a partir do samba homônimo de Zé Kéti, e contou com a participação de João do Vale, Ruy Guerra, Nara Leão, Carlos Lyra, Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri e Maria Bethânia. Nesse espetáculo, lançou também Diz que Fui por Aí, com Hortêncio Rocha, e Acender as Velas. Com o sucesso da peça, Zé Kéti viria a formar o grupo A Voz do Morro, ao lado de Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Paulinho da Viola. No Carnaval de 1967, com Hildebrando Pereira Matos, compôs a marcha-rancho Máscara Negra, um dos maiores sucessos de sua carreira, gravada por Dalva de Oliveira, Jair Rodrigues, The Fevers, Eduardo Dusek, Elza Soares e Maria Rita.

“Zé Kéti compôs algumas das mais brilhantes crônicas do samba, e isso já seria o bastante para colocá-lo no panteão da canção popular brasileira. Mas, em uma cidade talhada de espaços silenciados, ele foi uma das principais pontes da cidade, um raro amplificador da voz da favela dentro da sala (alheia) da classe média carioca. Sua obra, tão robusta quanto capilarizada, contribuiu estética e simbolicamente para a gênese do cinema novo e da MPB, fazendo dele um dos artistas brasileiros mais influentes do século”, resume o cantor e compositor João Cavalcanti, que com Fabiana Cozza abre o projeto. Efemérides como essa têm que servir para iluminar a importância do artista e a nossa cidade. Viva Zé Kéti!

Programação:

Dia 14, quinta-feira: “Eu sou o samba”, com João Cavalcanti Trio e Fabiana Cozza (participação especial)

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Dia 15, sexta-feira: “Zé Kéti e o Cinema” – Zé Renato e Cristóvão Bastos

Dia 16, sábado: “Diz que fui por aí” – Sururu na Roda e Moacyr Luz (participação especial)

Dia 17, domingo: “Um Sambista de Opinião” – Casuarina e Nilze Carvalho (participação especial)

Ingressos: R$ 30,00 – R$ 15,00 (meia)

Venda através de agendamento no site eventim.com.br

Horário das palestras: 17h

 

Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultura e carnaval.

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