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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

O que representa para a cultura o fim das atividades do Baródromo

Semana difícil para a cultura carioca, com fechamento de bar temático, reduto do carnaval, e votação de projetos importantes na Câmara Municipal

Por Rita Fernandes 15 jul 2020, 18h01

Mais uma notícia triste para a cena cultural carioca. Ontem foi anunciado o encerramento das atividades do Baródromo, conhecido bar temático que chamava atenção na Rua do Lavradio, 163, pela decoração com alegorias, fantasias e elementos de carnaval.

O Baródromo fecha as portas neste momento sombrio, em que tudo parece estar se desfazendo principalmente quando o assunto é cultura. Com as atividades interrompidas há quatro meses e uma grave crise financeira derivada da pandemia do coronavírus, não conseguiu sobreviver tendo seu encerramento agravado pela falta de renegociação do aluguel com a proprietária do imóvel, segundo o idealizador e responsável pelo projeto, Felipe Trotta. Perdem o público, os artistas, a Lapa e a cidade.

Espaço dos mais democráticos, acolhia blocos e escolas de samba sem distinção, representados nos elementos espalhados, entre croquis e desenhos nas paredes, peças de desfiles – como a águia da Portela, um camelo da Mocidade Independente de Padre Miguel e o mago da Unidos da Tijuca – e inúmeras camisetas. Mas, era especialmente no samba compartilhado por ícones do carnaval, como Neguinho da Beija-Flor, Dominguinhos do Estácio, Ito Melodia, Leonardo Bessa, que a generosidade do espaço mais se fazia presente.

Passaram por lá, inúmeros representantes do samba, como o cantor e compositor Moacyr Luz. Foto Berg Silva/Divulgação

Nos últimos três anos, desde que saiu da Praça Onze para o novo endereço, o Baródromo recebia um público de 400 pessoas nas noites de quinta, sexta e sábado. No coração da boemia carioca, passaram por ali representantes da nata do samba, com shows de Martinho da Vila, Monarco, Moacyr Luz, Velha Guarda da Portela, Casuarina, Dorina, Marcelle Motta, Moyseis Marques, Roberta Sá, Zélia Duncan, Tia Surica e muitos mais.

“Era uma casa feita por pessoas que amam o samba, o carnaval e suas histórias e adereços, que amam nosso jeito carioca, da amizade e cantoria num bar. Tudo isso era sintetizado no Baródromo. Cantei lá desde quando ainda era na Praça Onze. E sinto muito a perda desse ambiente de amor, amizade e festa”, lamenta a cantora Dorina.

Todo o ambiente traduzia alegria, da porta de entrada ao “quintal” no fundo da casa, onde havia pintada na parede uma vila de casinhas coloridas, em homenagem às escolas de samba, e a imagem em grafite pontilhado da Apoteose do Samba, na Marquês de Sapucaí. Essa tornou-se o palco favorito das fotos e selfies de quem frequentava o lugar.

O bloco Põe Na Quentinha tinha o bar como uma sede e realizou muitos eventos por lá. Foto Berg Silva/Divulgação

“Recebo com uma tristeza enorme a notícia do fechamento do Baródromo, porque é um bar que simboliza o espírito do nosso povo, da nossa alegria, ali era carnaval o ano inteiro. Trabalhei lá fazendo o Cabaré do Milton e percebi o quanto aquele lugar era catalisador da energia do carioca. Que pena que a pandemia está reduzindo os espaços da carioquice. Perdem os músicos, os garçons, os profissionais, mas acima de tudo a alegria, a forma de viver exuberante do carioca”, desabafa o carnavalesco Milton Cunha.

Por diversas ocasiões, fizemos eventos do Bloco Imprensa Que Eu Gamo no Baródromo, regados à cerveja e feijoada, bolinhos e petiscos da gastronomia de botequim. O último deles foi a festa dos 25 anos do bloco, com roda de samba e muitas participações especiais, como Makley Mattos, Claudia Baldarelli, Simone Lial, Leonardo Bessa.

Reduto de carnaval e de samba, o Baródromo recebeu muitos blocos e escolas de samba. Foto Berg Silva/Divulgação

O bar foi também uma das sedes do Bloco Põe Na Quentinha, desde os tempos da Praça Onze, ainda no pequeno imóvel em que cabiam no máximo cem pessoas e que já trazia as características que se tornariam sua marca. Foram muitas rodas de samba, lançamentos de camisetas, que ocupavam o interior e as calçadas do que antes tinha sido uma oficina mecânica. “Uma perda enorme para a cidade. Era um museu vivo do carnaval”, diz Berg Silva, fotógrafo e fundador do bloco.

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Gabriel Azevedo, cantor e compositor do Casuarina, também lamentou o fim do bar. “O Baródromo celebrava o carnaval, nossa festa mais importante e o samba, matriz principal da nossa música popular. Perde toda a cidade com o encerramento das atividades desse lugar tão mágico, que marcou história na vida cultural do Rio de Janeiro”, diz o cantor, que se apresentou muitas vezes naquele local.

O que nos traz algum alento é que Felipe Trotta mantém planos para o futuro: “Vou deixar a poeira baixar e, quem sabe, abrir uma casa em outro lugar. Pode até ser com outro formato, mais próximo do que era lá na Praça Onze, para um público que de fato ama o carnaval”, diz. Oxalá a vacina chegue logo, a gente possa retomar os encontros, o samba e o Baródromo encontrar um novo endereço.

SOS Cultura Carioca

A cultura estará seriamente ameaçada no Rio ser prevalecer a retirada do 1% de incentivo do ISS Foto Fernando Maia I Riotur/Divulgação

Nesse cenário de perdas no campo da cultura, outro assunto tem chamado a atenção e está tentando entrar em pauta na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

No início da pandemia, foi aprovada Lei que permitia o remanejamento de receitas para aplicação no combate à Covid-19. A primeira regulamentação feita pela Prefeitura optou por desvincular justamente a receita de fomento à cultura e sustar a obrigação da prefeitura de aplicar 1% do ISS no setor, retirando da cultura carioca a única ação pública efetiva de fomento.

A cultura, que tem sido a área mais afetada pela interrupção de suas atividades por causa da Covid-19, vem perdendo cada vez mais as poucas fontes de sobrevivência, em todas as esferas.
Para corrigir o estrago anunciado por esse decreto do prefeito Crivella, precisa tramitar em caráter de urgência um Projeto de Decreto Legislativo que susta o Decreto anterior, de nº 47.393/2020 (o que retirou o incentivo à cultura). O PDL vai garantir assim a aplicação do 1% do ISS na cultura e, com isso, o pagamento das centenas de projetos já aprovados pela prefeitura para captação de recursos.

“É ilegal a regulamentação do decreto da pandemia”, afirma o vereador Tarcísio Motta (PSOL), vice-presidente da Comissão de Cultura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. “É claro que renúncia fiscal não é receita que o governo pode desvincular, é dinheiro recolhido e destinado a projetos aprovados. Para corrigir esta ilegalidade, propomos sessão exclusivamente para tratar da cultura da cidade e esperamos reverter esta situação”, diz Tarcísio.

Deve entrar em pauta também o projeto SOS Cultura Carioca ( PL 1821/2020), de autoria de Tarcísio, que cria renda emergencial para trabalhadores do setor, propõe novos editais e assegura o pagamento de contratos já aprovados.

Em todo o Brasil, a cultura emprega 5 milhões de pessoas e é responsável por 5,7% da mão de obra ocupada no país. É esse contingente de trabalhadores que nos permite desfrutar da música, do teatro, do cinema, da dança, das artes plásticas, da literatura, entre tantas outras linguagens que produzem arte. A cultura, em todas as suas vertentes, é que está nos salvando da doença do confinamento. Que os nossos representantes legislativos tenham um olhar mais generoso com os artistas e os profissionais do setor cultural.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana, idealizadora do projeto Casabloco e pesquisadora de cultura e carnaval.

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