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Rafael Mattoso Por Rafael Mattoso, historiador Curiosidades sobre o subúrbio carioca

De Paulo da Portela ao Maracanã

Os subúrbios e suas identidades

Por Rafael Mattoso Atualizado em 19 jun 2020, 22h17 - Publicado em 19 jun 2020, 20h31

No mês que ultrapassamos os 90 dias de quarentena e chegamos à triste marca de 40 mil mortos no país, sendo quase 20% deste percentual no Estado do Rio de Janeiro, a crise se intensifica enquanto o governo fala em reabertura. Em meio a tantos problemas na saúde, política e economia resolvemos escrever sobre temas ligados diretamente ao samba e futebol. Não se trata de um recurso para fugir dos graves problemas e sim uma forma de resistência, ou melhor, de reexistência, como sempre aponta Luiz Antonio Simas.

Cabe aqui lembrar da memorável frase do compositor Laudeni Casemiro, mais conhecido como “Beto Sem Braço”, recorrentemente usada com propriedade por Simas: “O que espanta a miséria é festa!”. Sabemos que não se fazem festas só porque a vida é boa, mas exatamente pela razão inversa. Logo, não podemos deixar de falar que Junho historicamente é um mês de festas, principalmente para os subúrbios.

As festas juninas merecem uma coluna à parte, principalmente por demonstrarem a potencialidade que o sincretismo produziu em nossa formação. Nestas festas celebramos tanto Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo, como Exú, Ogum, Oxossi e Xangô, sempre associada a uma gastronomia de forte influência indígena.

Não podemos deixar de fora nomes fundamentais para a nossa cultura suburbana que comemoram aniversário no mês de junho. Paulo da Portela, de Oswaldo Cruz, Aurea Martins, de Campo Grande, Ivan Lins, da Tijuca, e Guinga, de Madureira, são grades exemplos. No entanto, outros patrimônios relevantes também não podem ser esquecidos, entre eles destacamos o Museu Nacional, que fez 202 anos, o septuagésimo nono aniversário do campo do Madureira, o Aniceto Moscoso, e o Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, com sete décadas.

Para falar com mais propriedade sobre a importância dos 119 anos do nascimento de Paulo da Portela, comemorados no último dia 18, e dos 70 anos da inauguração do Maracanã, concluído em 16 de junho de 1950, convidamos Rogério Rodrigues, pesquisador e Diretor do Departamento Cultural da Portela, e Luiz Antonio Simas, historiador e escritor que está lançando um livro sobre a história do estádio, para pensarmos juntos.

Paulo da Portela

Paulo da Portela Departamento Cultural da Portela/Arquivo pessoal

Simas inicia sua contribuição lembrando que não podemos desconsiderar a importância histórica da Praça Onze, no entanto, sugere que o Rio é uma cidade de diversas Pequenas Áfricas e que o fenômeno de surgimento do samba carioca acompanhou os constantes fluxos de deslocamento da população negra.  Provavelmente este processo ocorreu de forma mais simultânea entre o porto, os morros e os subúrbios do que supõe a narrativa consagrada sobre o tema.

Inúmeros pontos da cidade se articularam como importantes espaços de circulação dos saberes, que vierem do lado africano do Atlântico e aqui se redefiniram, ambientes marcados pelas micro-diásporas negras. Um exemplo é o bairro suburbano de Oswaldo Cruz onde Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela, construiu parte significativa da sua história.

Paulo certamente é uma das figuras mais respeitáveis da história do samba e dos subúrbios. Porém, não era natural de Oswaldo Cruz, ele nasceu em 1901, na Santa Casa de Misericórdia, região central do Rio. Morou na Saúde, bairro da Zona Portuária situado na ampla região que se estendia da Pedra do Sal até os limites da Praça Onze, chamada por alguns cronistas de A Pequena África.

Ali viveu até o início da década de 1920. Aprendeu o ofício de carpinteiro e lustrador de móveis na adolescência e, com cerca de 20 anos de idade, foi morar com a mãe e a irmã na Estrada do Portela, numa localidade conhecida então como Barra Preta: Oswaldo Cruz.

Rogério Rodrigues lembra da importância do livro sobre Paulo da Portela escrito por Marília Trindade Barboza da Silva e Lygia dos Santos Maciel, obra vencedora do Concurso de Monografias da FUNARTE, na década de 1970.

Rodrigues nos diz: “Neste mesmo concurso, inscrevendo sobre “o maior de todos os bambas”, nas palavras do presidente da Portela, o meu querido amigo e estimado companheiro de lutas e militância cultural Luís Carlos Magalhães, participaram Antônio Candeia Filho e Isnard Araújo.” Isso mesmo!

Candeia, o jovem prodígio vencedor do concurso de sambas de enredo, com apenas 17 anos, para o carnaval de 1953, no qual a agremiação do subúrbio de Oswaldo Cruz não só conquistou o carnaval com nota máxima em todos os quesitos do julgamento, como foi declarada campeã do Supercampeonato que reuniu, pela primeira vez, as escolas filiadas às duas entidades existentes na época.

Como dizia um antigo samba cantado pela Portela, em 1976, “Voando nas asas da poesia/a Portela em euforia/vive um mundo de ilusão…”, foi mergulhando nos silêncios ou pelo não escrito que nos permitimos tentar voltar no tempo levados pela imaginação para Oswaldo Cruz na época em que emerge o Paulo da Estrada do Portela.

Rogério Rodrigues lembra de uma palestra de Marília Trindade, em um ciclo de debates dedicado ao “Professor Paulo da Portela”, organizado pelo incansável Luís Carlos. Durante esse encontro Marília refletia: “Imaginem Paulo, acostumado à altivez daqueles negros yorubás, das Tias baianas, dos babalorixás e yalorixás afamados, de repente, numa roça longínqua, carente de todo tipo de serviço e trabalhos, uma favela na planície, habitada por negros e pequenos sitiantes, muitos vindos das decadentes lavouras de café do Vale do Paraíba do Sul, da zona da Mata Mineira, da extremidade das terras a oeste do sertão carioca…”

Tal como muitas famílias pretas, pobres, mestiças e migrantes, Paulo, sua mãe e sua irmã (o irmão Rogério morrera pouco antes da mudança) vieram para o então distante bairro de Oswaldo Cruz. Provavelmente, antes de se tornar um mediador de culturas, ele deve ter sentido na pele o choque por se afastar do cotidiano agitado dos entornos da Saúde e demais localidades centrais da capital republicana.

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal, nos anos 1920. Departamento Cultural da Portela/Estúdio ABC

Existe algo neste rapaz Paulo e seus companheiros, tão semelhantes na idade, na cor da pele, no quase esquecimento da distância, que mais aguça a imaginação do que estabelece certezas. Como e por quê conseguiu, na contramão das adversidades, fazer o percurso contrário e reocupar aquela cidade que, um dia, já foi dele?

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Provavelmente graças a seus laços de fraternidade, seu senso comunitário, à simples vontade de fazer e criar, à obra comum: Bloco Baianinhas, o Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz, a Escola de Samba da Portela.

Paulo vai além das biografias, ainda que nelas permaneçam os enigmas do reverso dos heróis cheios de notoriedade, do homem que não deixou descendentes, do orixá engendrador de um “mundo azul e branco”, do mensageiro de saberes de tantas terras e histórias que só podemos mesmo imaginar.

No dia 11 de abril de 2023, o Grêmio Escola de Samba Portela celebrará o seu Centenário de Fundação.

Salve Paulo da Portela!

O Maracanã

Vista aérea do bairro Maracanã em 1930 Hemeroteca Digital/Arquivo pessoal

Para Luiz Antônio Simas, quem atravessa de barca a Baía da Guanabara e chega ao Rio de Janeiro pelo terminal da Praça XV, se depara hoje com duas estátuas, dois Joões, que dizem muito sobre as complexidades da cidade: Dom João VI a cavalo, e João Cândido Felisberto, o marinheiro negro que liderou, em 1910, a revolta contra os castigos corporais na Marinha do Brasil. Um ergueu o cetro; o outro quebrou a chibata.

A presença da Corte no trópico alterou profundamente não apenas os rumos da história do Brasil, mas também o cotidiano do Rio de Janeiro. A falta de moradias capazes de abrigar a família real foi resolvida pelo comerciante lusitano Elias Antônio Lopes, metido com o tráfico negreiro, que doou a Dom João o casarão em que morava, em São Cristóvão, com vista deslumbrante – hoje em dia tampada por prédios horrendos, aterros e asfaltos – para as enseadas da Baía da Guanabara; origem do nome “Quinta da Boa Vista”.

A presença da Corte em São Cristóvão valorizou algumas regiões próximas da Quinta, que andavam abandonadas. É o caso de uma extensa área alagada entre os rios Maracanã e Trapicheiros, antiga propriedade dos jesuítas, expulsos do Brasil em 1759 pelo Marquês de Pombal. Com a valorização trazida pela presença dos nobres portugueses, a área foi adquirida pelo comerciante de pedras preciosas Francisco José da Silva Rocha, o Barão de Itamaraty.

Simas comenta sobre a origem do nome Maracanã, rio que alagava as terras e posteriormente nomeou o estádio de futebol e o bairro. Se não há dúvidas sobre o Maracanã ser um pequeno papagaio, há controvérsias, entretanto, sobre a nomeação do rio. A hipótese mais propalada é a de que bandos de papagaios e periquitos voavam pela região fazendo uma barulheira tremenda. O escritor flamenguista Alberto Mussa, conhecedor do tupi e autor de obras sobre mitologias indígenas, afirmou o seguinte quando perguntado sobre o nome do estádio: “Maracanã é um psitacídeo, da turma dos papagaios e araras. Agora, porque o rio e o bairro se chamam Maracanã é outra história. Minha hipótese (baseada na tradição tupinambá) é que devia haver ali uma taba cujo nome era Maracanã, por ter como tuxaua, uma espécie de cacique, um homem chamado Maracanã, já que as tabas eram nomeadas muitas vezes pelo nome de seu líder. Um homem com nome de Maracanã é plenamente verossímil. Essa conversa de que na região toda havia revoadas de maracanãs não me convence: sendo assim, a cidade iria se chamar Maracanã também”.

A despeito da discussão sobre o nome, que a rigor não pode ser resolvida, o fato é que com a morte do Barão de Itamaraty, a propriedade cortada pelo rio Maracanã passou para o filho dele, o Visconde de Itamaraty. Com a morte deste, as terras foram para a viúva, Dona Maria Romana Bernardes da Rocha.

Nos tempos em que Dona Maria era dona das terras dos papagaios barulhentos, na segunda metade do século XIX, uma nova onda esportiva andava fazendo sucesso entre os cariocas: a turma da cidade estava vidrada em corridas de cavalos.

Derby Club Divulgação/Arquivo pessoal

Na onda da paixão pelos equinos, foi fundado em março de 1885 o Derby Club do Rio de Janeiro, na Rua do Hospício, 91, atual Rua Buenos Aires. No local funcionava o escritório do engenheiro Paulo de Frontin, fanático por corridas de cavalos e primeiro presidente do Derby. Logo depois, o clube de corridas comprou as terras da viúva do Visconde de Itamaraty. Com a drenagem e o aterro do solo alagado, o Derby foi inaugurado no dia 6 de agosto de 1885. Já no início do século XX, porém, o Derby queria transferir o prado de corridas para a Zona Sul.

No contexto de uma cidade pulsante que modernizava o Centro em moldes parisienses, demolia com violência habitações populares e via seus morros e subúrbios ocupados pela população expulsa das zonas centrais pelas reformas, o ricaço Lineu de Paula Machado sugeriu a transferência do Derby Club das margens do rio Maracanã para a Zona Sul.

Em 1919, Paula Machado (vice-presidente do Derby na gestão do Engenheiro João Teixeira Soares) negociou com o próprio presidente da República, Epitácio Pessoa, a permuta entre o terreno do Maracanã e uma área com aterros de mangue às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.

A pedido do presidente, o prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio, naquela altura empenhado no projeto de demolição do morro do Castelo, fez a permuta. O Derby ficou com um terreno entre a Lagoa e o Jardim Botânico, região cada vez mais valorizada da cidade, e o município herdou – e abandonou às traças de imediato, já que a própria prefeitura admitia não ter nada o que fazer ali – o hipódromo às margens do rio Maracanã.

O antigo prado do Maracanã acabou tendo uma utilidade chinfrim: parte dele virou estacionamento de um grupamento de carros de combate militares, onde inclusive serviu o soldado Nelson Mattos, mais conhecido no meio do samba como Nelson Sargento, baluarte da Estação Primeira de Mangueira. A outra parte, um enorme terreno baldio, teve destino mais nobre do que o de abrigar carros de combate: virou espaço de lazer para a garotada que vivia na região e, dentre outras coisas, começava a jogar bola.

Tudo ia nessa toada até que, na onda da popularização do futebol e dos esportes em geral, o Brasil passou a querer duas coisas: ter um estádio monumental, capaz de representar materialmente o crescimento do país, e sediar uma Copa do Mundo.

Construção Maracanã Internet/Divulgação

Esta coluna foi escrita em parceria com Luiz Antonio Simas, mestre em História Social pela UFRJ, professor, escritor, compositor, Ogã e Babalaô, e Rogério Rodrigues Diretor do Departamento Cultural da Portela, professor de Língua portuguesa e Literatura, mestrando em educação, cultura e comunicação em periferias urbanas pela UERJ.

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