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Rafael Mattoso Por Rafael Mattoso, historiador Curiosidades sobre o subúrbio carioca

Nascido no subúrbio nos melhores dias

João Nogueira e sua obra atemporal permanecem extremamente vivos após duas décadas de sua partida.

Por Rafael Mattoso - Atualizado em 5 jun 2020, 21h12 - Publicado em 5 jun 2020, 17h36

Buscando inspiração nos versos de João Nogueira procuramos aqui rememorar e exaltar um pouco de sua obra de grande valor.  Parafraseamos os versos da música “Espelho”, composta na década de 1970 com Paulo Cesar Pinheiro, para indagar: “Quanto tempo faz”.

Assim como na canção, o tempo teimou em seguir: “Vai no tempo, vai…”, E neste dia 5 de junho completam-se 20 anos da despedida do fundador do Clube do Samba. João Batista Nogueira Júnior, filho de João Batista, irmão de Gisa, marido de Ângela Maria e pai da Clarisse, Tatiana, Iara Valeria e Diogo.

Seu sobrinho, Didu Nogueira, descreve o tio como “um guerreiro generoso, um autêntico suburbano do Méier, flamenguista e portelense apaixonado”. Um compositor e sambista que procurou dar sequência ao samba urbano descendente do Estácio. Didu termina afirmando: “Sempre foi um radical defensor da cultura brasileira!”

Vale lembrar que João Nogueira criou o Clube do Samba, que completou 41 anos neste último mês, como forma de resistência. Numa época em que as músicas e cantores internacionais tinham preferência nas rádios e gravadoras.

Cláudio Jorge, amigo, músico e parceiro nos ajudou a desvendar um pouco mais da personalidade e história de João.

Fotos de família/Arquivo pessoal

João Nogueira se auto designava um “sambista da calçada”. Não nasceu no morro, nasceu no bairro do Méier, subúrbio carioca, numa família de classe média. O pai, advogado e músico, foi referência de vida para João, que desde cedo começou a “brincar” com a música.

Por ser um “sambista da calçada”, João tinha gosto por variados estilos, e na sua música é possível identificar as influências da MPB, do Jazz e do Samba tradicional.

Foi no Clube Mackenzie, na Rua Dias da Cruz, que Nogueira por algumas vezes foi o apresentador de encontros de música instrumental, bossa nova e jazz. Talvez venha daí a originalidade de seu cantar, com divisões personalizadas, dando a falsa sensação de que a qualquer momento iria “atravessar” o ritmo.

Na intimidade era um festeiro, e a cobertura em que morou em frente ao Cine Imperator foi local de encontro de muitos bambas da música, que compareciam para cantar, tomar umas e curtir uma feijoada ou um caruru, pratos que o próprio João se dedicava a produzir. Por lá passaram Nelson Cavaquinho, Walter Rosa, Nei Lopes, Hélio Delmiro, Joel Nascimento, Zé Katimba, Casquinha, seu companheiro da Portela, e muitos outros.

Foram reuniões importantíssimas acontecidas no Méier que mais tarde se ampliaram com a mudança de João para a Rua José Verissimo, e que terminou rendendo o nascimento do tradicional Clube do Samba. O “boca larga”, como também era conhecido no bairro nos tempos do Bloco Labareda, é referência artística eterna, embora tenha partido tão precocemente, aos 58 anos, no dia 5 de junho de 2000.

O fato do Imperator receber atualmente o nome de Centro Cultural João Nogueira, no mesmo local onde João fez um show quando ainda era cinema, é uma das mais justas homenagens àquele que foi um célebre artista do bairro. Pensar nestes tempos modernos em fechar este espaço ou atribuir a ele outro destino é no mínimo um tremendo vacilo, e no máximo, um crime cultural contra a população suburbana.

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João Nogueira foi um carioca daqueles que extrapolaram as fronteiras do subúrbio, juntando à tradição do samba que desceu os morros, a musicalidade das calçadas do Méier, do Rio de Janeiro, do mundo.

Álbum de família/Arquivo pessoal

Em roda de samba sou considerado

Em novembro de 2021 iremos celebrar os 80 anos do nascimento desse gênio, e nos parece que a alegria de sua música continua renovada a cada roda.

Mesmo após duas décadas da morte de João Nogueira, as melodias e poesias eternizadas em seu samba continuam a nos encantar. O Músico Cláudio Jorge de Barros nos dá uma dica sobre esse fenômeno: “Tenho a impressão que a obra se mantém contemporânea por ter estilo próprio, personalidade. Embora extremamente ligado às raízes do samba carioca, por conta da diversidade de informações musicais que recebeu. Joāo Nogueira criou um estilo que foi fundamental para um outro desdobramento do samba tradicional.”

Nem em seu velório o samba deixou de marcar presença. Foi um belo gurufim, com fama de uma das mais memoráveis despedidas onde, atendendo a um pedido do próprio João, os amigos beberam e cantaram o máximo que puderam.

Sua obra segue o curso da história da mesma forma que a força de sua voz deve continuar homenageando de forma digna e competente os herdeiros de uma tradição que merece ser valorizada.

Salve o samba!

Clube do Samba/Arquivo pessoal

Nessa bela foto de Roberto Garcia no desfile do Clube do Samba, nos anos 80, João aparece com o jogador Zizinho, Liete de Sousa e Roberto Ribeiro.

Nossa coluna de hoje foi escrita em parceria com Cláudio Jorge, um suburbano de corpo, alma e muita musicalidade. Violonista, cantor, compositor, arranjador, produtor, gestor cultural e parceiro de nomes como Cartola, Ismael Silva, Wilson da Neves, Sivuca, Matinho da Vila, Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, entre tantos outros.

 

 

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