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Rafael Mattoso Por Rafael Mattoso, historiador Curiosidades sobre o subúrbio carioca

Como manter a esperança em tempos de pandemia?

As janelas suburbanas têm muito a nos ensinar sobre como resistir ao isolamento social

Por Rafael Mattoso - 22 abr 2020, 18h37

Contabilizado um mês de quarentena desde o decreto do governo do Rio de Janeiro, certamente muitas coisas mudaram em nossas vidas. A pandemia do coronavírus não afetou apenas a cidade, o estado e o país em que vivemos. Também uma parcela significativa da população mundial teve que parar abruptamente suas atividades rotineiras frente à velocidade e à letalidade com que o novo vírus avança.

Em meio a tantas incertezas, buscamos sem sucesso projetar como e quando tudo isso vai acabar. As dúvidas se acumulam, e as poucas respostas que surgem são muitas vezes conflitantes. Sentimos na pele o estresse e a ansiedade aumentando a cada longo dia, fechados em casa. E abusamos da nossa imaginação em busca de meios para nos distrair e manter a calma. Assistir a filmes, procurar novos jogos, resgatar leituras, buscar músicas e até receitas culinárias na internet, tudo que possa ser um prazeroso aliado.

Seguindo essa estratégia, resolvi revisitar a obra do mestre mangueirense Angenor de Oliveira, principalmente por este ser o ano em que lembramos quatro décadas de seu falecimento. A grandiosidade poética da obra de Cartola confrontou-me, especialmente, através dos versos da canção A Cor da Esperança. Fiquei ainda mais surpreso ao descobrir que a música foi gravada primeiramente em 1978, pelo genial João Nogueira, criador do Clube do Samba. As coincidências vão além da parceria suburbana, pois neste ano também lamentamos os 20 anos da partida de João, do Méier para a eternidade.

O que não saiu da cabeça é a forma com que os versos se enquadram perfeitamente à realidade que estamos vivendo. Logo de início, a fórmula otimista assegura: “Amanhã a tristeza vai transformar-se em alegria e o sol vai brilhar no céu de um novo dia. Vamos sair pelas ruas, pelas ruas da cidade, peito aberto, cara ao sol da felicidade.”

Sonia Fragozo/Arquivo pessoal

Com perdão do trocadilho, o confinamento tem-nos levado a olhar de forma mais cuidada para dentro, tanto em relação ao espaço que ocupamos quanto ao peso das relações sociais. Temos refletido sobre a importância de nos afastar de pessoas que amamos, das rotinas de trabalho, do lazer e dos passeios pelas ruas da nossa cidade, tudo para combater o avanço da Covid 19.

Buscando resistir a tudo isso, muitas ideias criativas vão se sucedendo, e é claro que nos subúrbios isso não seria diferente. Além de muitas opções de lives, mais familiares e realistas quanto aos temas que envolvem nossas periferias, também temos trocas poéticas, correntes de solidariedade para os mais necessitados, músicas para os diversos gostos, ou seja, uma grande oferta de atrações que denunciam a nossa cumplicidade para superar este momento tão duro.

Algumas dessas atividades são divulgadas nas redes sociais de coletivos como Diálogos Suburbanos, Viradão Cultural Suburbano, Tem no Subúrbio, Espaço Travessia, IHGBI e Cineclube Subúrbio em Transe, entre outros. Foi assim que, integrando esse movimento, criamos em março de 2020, um canal no Youtube chamado Papo de Subúrbio. Trazendo sempre um convidado diferente para uma boa conversa, dividimos experiências, memórias, histórias e leituras de mundo a partir do ponto de vista dos subúrbios.

Uma outra iniciativa surgiu de um gesto simples. Recebi uma mensagem de uma amiga que estava muito tensa com o confinamento, alegando que o pior é não conseguir ver nem a vida em volta da sua casa, já que mora em um apartamento térreo, cercado de muros altos e outras construções. Tivemos, então, a ideia de compartilhar nossas vistas, nossos olhares para o mundo de quintais, varandas, portas e janelas suburbanas disponíveis.

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Uma prima querida, Sheila Senna, escreveu, do alto de sua sensibilidade: “Dizem que os olhos são a janela da alma, mas hoje as janelas são nossos olhos para o mundo.” Eu me identifiquei tanto com a ideia, que me juntei ao pessoal para fotografar e trocar o que podíamos ver a partir de nossas janelas, criando, assim, uma forma de aproximação que, mesmo virtual, mostra que não estamos sozinhos, e sim unidos por algo maior – a vida e a saúde.

Roberta Domingos/Arquivo pessoal

Aqui o leitor poderá, então, contemplar uma pequena mostra das belas fotos compartilhadas durante a quarentena. E junto a elas, uma importante dose de esperança, tão necessária em tempos difíceis como este.

Ana Carolina Mota/Arquivo pessoal

Na semana da Festa da Penha e de São Jorge, sem perder a fé e a resiliência, seguimos lutando e resistindo, como já bem dizia e cantava Cartola:

 “O sol há de brilhar mais uma veza luz há de chegar aos corações.”

Ou:

“Sei que não é vã a cor da esperança a esperança do amanhã.”

Amália Dias/Arquivo pessoal

Este texto foi escrito pelo historiador Rafael Mattoso em parceria com a jornalista Sandra Crespo.

 

 

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