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Rafael Mattoso Por Rafael Mattoso, historiador Curiosidades sobre o subúrbio carioca

Heranças pretas nos subúrbios

Histórias vividas no cotidiano dos moradores suburbanos

Por Rafael Mattoso - Atualizado em 7 jul 2020, 11h21 - Publicado em 7 jul 2020, 10h20

Como bem disse Cláudio Jorge, em seu Podcast semanal intitulado Lugar de Fala: “Parece que a questão racial virou moda no Brasil, está em todas as mídias. Espero que esse sentimento de indignação vindo de tantos lados da nossa sociedade não seja apenas uma passageira influência americana…” Cláudio, grande músico suburbano, comentava sobre o racismo estrutural a partir de sua própria experiência e ainda o impacto gerado pela entrevista do filósofo, professor e jurista Silvio Almeida ao programa Roda Viva, do dia 22 de junho.

Cláudio Jorge Divulgação/Arquivo pessoal

A morte de George Floyd, no fim de do mês de maio, gerou ampla repercussão internacional e trouxe novamente à tona os debates sobre o preconceito, a discriminação e violência policial cometidos principalmente contra cidadãos negros, que em nosso país compõem a maioria da população.

Entendo que estando à frente desta coluna, como autor branco, historiador e professor suburbano, preciso ficar muito atento a todos esses debates. É necessário aprender cotidianamente, e procurar a melhor forma para combater o machismo, o racismo, a homofobia e uma série de outros entraves oriundos do nosso processo colonial segregador.

Percebo, a partir do meu olhar suburbano, que mesmo tendo vivido nas últimas décadas um contexto de crescimento das lutas antirracistas, infelizmente, ainda temos muito a avançar.

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Estamos apenas a 8 meses de rememorar os 30 anos do fim do regime de apartheid, na África do Sul. A vitória contra este sistema separatista, que distinguia direitos entre negros e brancos, teve entre seus principais líderes Nelson Mandela. Também comemoramos, em 2020, duas décadas da III Conferência Mundial Contra o Racismo, convocada pela ONU. Em torno desse debate surgiu a proposta de implementação do sistema de cotas nas universidades públicas do Brasil, assim como a Lei 10.639/03, que estabeleceu as diretrizes curriculares para a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira.

Para falar com propriedade sobre a relevância da formação social e cultural dos subúrbios cariocas, pela ótica preta, convidamos o amigo e escritor Jeferson Pedro, autor do livro “Dandara”.

Ele nos brindou com a bela crônica que leremos a seguir.

Jeferson Pedro Divulgação/Arquivo pessoal

Com quinze anos ouvi pela primeira vez a palavra subúrbio. Na verdade, não era subúrbio e sim suburbanas mesmo, no plural. Trabalhava na rua como office boy e passei na porta do Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, onde ocorria o projeto musical Seis e Meia. Um anúncio me chamou a atenção, a saudosa cantora Selma Reis iria se apresentar e o show levava o nome de Emoções Suburbanas – homônimo à música de Altay Velloso e Paulo Cesar Feital.

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Esse episódio ficou marcado, pois eu não sabia ao certo o que era subúrbio e minha referência de lugar era morro, onde eu morava nesta época. Morro mesmo, favela mesmo. Esse papo de chamar morro de comunidade veio anos depois para deixar mais bonitinho, digamos assim.

Confesso que sou um carioca velho – hoje chamam velho de clássico – e só fui entender os subúrbios bem mais tarde, quando saía do Morro da Providência e embarcava numa viagem pela Avenida Suburbana – agora chamada de Dom Helder Câmara – onde moro atualmente.

A bordo do antigo busão 284 – que virou a linha 371 – indo para a Praça Seca ou Norte Shopping, cruzava tantos bairros e eu ia percebendo que a maioria dos subúrbios tinhas a mesma cor do morro. A diferença é que o morro estava na vertical e os subúrbios, predominantemente, na horizontal; do resto, a retina captava as semelhanças de um viver igual nos dois locais. No morro ou subúrbio eu via: bares abertos, crianças correndo e brincando, mulheres sambando, homens batucando. Fosse no Méier, em Todos os Santos, Cachambi, Morro do Urubu ou Juramento, que o também saudoso Bezerra da Silva, viu triste e chorando de dor.

As linhas das pipas coloridas, cortando as Linhas Amarela e Vermelha, ligando a Av. Brasil a um emaranhado de outros subúrbios, do mesmo subúrbio. Ilha do Governador, Irajá, Guadalupe, Cordovil, Vila da Penha.

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Onde o subúrbio começava eu sabia, mas onde terminava?

De tanto pensar, cheguei à conclusão de que o subúrbio terminava na cor. O subúrbio é o território democrático e de resistência, onde as cores de pele formam uma cor só. É a pele presente nas misturas do samba na Mangueira e da Portela, no coração do subúrbio, da raiz até as sementes. E por isso, para mim, favela e subúrbio têm a mesma medida – a porção singela de afeto, de poesia nos sorrisos das tias, na ginga dos primos, na beleza das minas, no respeito às monas, pois todos trazem a cor que confunde, que gera discussão, que até pode variar de irmão para irmão, mas vai estar sempre lá.

O estivador negro, que após o traballho no Cais do Porto subia o Morro da Providência, trabalhava com outro estivador negro que pegava o 355 na Rodrigues Alves e seguia para Madureira. Ele poderia ser a semente, nascida de uma das raízes do poderoso baobá que fundou o Império Serrano, em 1947.

Talvez por tudo isso, Altay Velloso – que curiosamente é de São Gonçalo, cidade onde aliás, Selma Reis também nasceu – escreveu a canção Emoções Suburbanas. Tudo no subúrbio está ligado, vai se ligando, vai atravessando. O subúrbio é como uma pipa que sobe e depois some no azul do céu. Tudo no subúrbio é cor e tudo isso emociona.

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Por fim, retomamos versos de Emoções Suburbanas e lembramos da estátua de João Candido, olhando para as águas do cais, quase escondido no final da Praça XV.

“Às vezes / Morro /por cantar demais / Nasci assim / Suburbanamente / Me fiz confidente / Das águas do cais.”

O mestre-sala dos mares, de costas para o Rio de Janeiro, fica ali contemplando a Guanabara, arrastando consigo os sentimentos de negros e negras, suburbanos ou favelados, no seu constante ir e vir do rodo cotidiano. “Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais.”

Livro Dandara Victor Lima/Divulgação

O texto escrito pelo Jeferson e o podcast contado por Cláudio Jorge me obrigam a referendar a importância do Movimento Negro, ou melhor dizendo, dos Negros em movimento, movimento constante de criação, de luta, de diversidade.

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Salve nossa herança negra que nos transformou, ao longo de séculos, em brasileiros. Obrigado a todos os heróis negros, anônimos ou não, que como Silvio de Almeida, têm nos feito entender melhor a necessidade urgente de usar todas as forças para rompermos com nosso racismo estrutural.

Quem tiver mais interesse pode assistir a live “Heranças pretas nos subúrbios”, no canal Diálogos Suburbanos do Youtube, que também motivou os debates da coluna.

Teresa Guilhon/Arquivo pessoal

Este texto foi feito por Rafael Mattoso em parceria com o jornalista e escritor Jeferson Pedro e teve a revisão da jornalista Sandra Crespo.

 

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