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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Paulo Freire e a defesa por um mundo menos desigual

Educar é ensinar a pensar, e não o quê pensar; é dar aos alunos o poder de questionar os fatos da vida cotidiana. Educar não é domesticar

Por Patricia Lins e Silva Atualizado em 22 set 2021, 17h28 - Publicado em 22 set 2021, 17h26

Paulo Freire, o grande pensador brasileiro, influenciou amplamente a educação no mundo inteiro e suas ideias são conhecidas em todos os países do planeta. Com teorias que refletem profunda compreensão dos problemas das desigualdades sociais e econômicas e das necessidades físicas e intelectuais das classes menos favorecidas – da fome ao conhecimento – propõe uma educação que une professores e alunos na construção de um pensamento libertador. As questões de opressão e humanismo estão na base de suas teorias educacionais. É inacreditável que seus princípios ainda sejam tema tabu no nosso país.

Qualquer educador reconhece a lacuna entre a educação que as escolas oferecem e as reais necessidades da classe trabalhadora, uma lacuna quase intransponível que não reconhece que a experiência e o processo de aprendizagem são mais importantes do que os conteúdos e conceitos ensinados. Os métodos tradicionais de ensino treinam alunos passivos, que não refletem sobre o que aprendem e que são obedientes a ordens superiores, a começar pelo professor.

Para Paulo Freire, a educação é um meio de libertação e mudança e não apenas um meio de transferir informações. Educar é ensinar a pensar, e não o quê pensar; educar é dar aos alunos o poder de questionar os fatos da vida cotidiana. Educar não é domesticar. Pelo contrário, o professor deve “libertar” os alunos para refletirem sobre a realidade, para que pensem de modo próprio, para que sua ação seja conforme o que decidiram após sua reflexão.

Todos os professores conhecedores das teorias de educação surgidas nos meados do século 20 concordam com estas premissas. Os alunos devem ser estimulados a discutir sobre os fenômenos à volta, sobre sua vida, sobre o conhecimento e devem reconhecer sua capacidade de raciocinar sobre o que acontece; professor e alunos dialogam, numa troca de pensamentos e de saberes, com a autoridade ao lado da liberdade. As ideias dos alunos são respeitadas como passiveis de discussão o que incentiva sua capacidade de pensar com autonomia.

A educação tradicional mantem um ciclo permanente de opressão e submissão; os alunos constantemente oprimidos e submissos se tornarão opressores. É conhecida a comparação de Freire entre a educação tradicional e o sistema bancário. Nesta, o aluno é um cofre de banco vazio em que se deposita conhecimento. No cofre se colocam letras, fórmulas, equações, conhecimento científico, o que “enriquece” o aluno. Estes alunos “enriquecidos” vão replicar o conhecimento adquirido. Do ponto de vista “bancário”,  não se reconhece nenhum conhecimento ou pensamento prévio do aluno que valha a pena discutir; devem aceitar tudo o que o professor diz (ou doa) como verdade absoluta; o saber é uma doação de quem sabe alguma coisa a quem julga não saber nada.

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Os alunos recebem, memorizam e repetem a informação, ao invés de serem estimulados e encorajados a criar pensamentos diferentes, a inovar. Este processo bancário destrói a capacidade criativa e chega ao ponto de não ensinar nada de relevante, o que é atraente para as sociedades opressoras, pois garante que as pessoas que frequentam a escola se satisfaçam com o mundo “indiscutível” que a elite oferece. Ao questionar a realidade, as pessoas mudam a consciência que têm do mundo e se tornam capazes de rejeitar um sistema que as oprime.

Libertar um aluno é mais complexo do que simplesmente transmitir a ele a possibilidade de pensar com autonomia. O professor precisa garantir que todos desenvolvam a capacidade de raciocinar e resolver problemas para que exercitem o pensamento crítico. A capacidade de pensar com autonomia torna as pessoas aptas a uma “leitura” de seu mundo, de sua situação histórica e social. A pedagogia de Paulo Freire envolve não só a leitura da palavra, mas a “leitura do mundo”. Para alcançar esses objetivos, o educador pratica a “educação problematizadora”, apresentando problemas crescentes quanto ao próprio mundo do aluno, num diálogo colaborativo entre todos. É uma educação em que o sujeito associa o conhecimento ao exame crítico do mundo em que vive.

As teorias e práticas de Paulo Freire são reconhecidas, admiradas, estudadas e aplicadas no mundo inteiro. Mesmo mais complexas do que desenvolvem muitos os que se apropriaram de sua obra, as teses de Paulo Freire se espalharam pelo globo, da América Latina à África e à Ásia. Alguns aspectos chegaram até ao mundo ocidental industrializado de hoje, em geral se concentrando no desenvolvimento econômico em uma sociedade educada e ignorando o trabalho sobre uma libertação política e econômica.

Uma visão provinciana do mundo obrigou o educador a passar anos fora do Brasil, exilado pela ditadura iniciada em 1964. Ao voltar do exílio, restabeleceu muitos de seus programas e políticas, hoje distribuídos para administração de organizações menores. Morreu em 1997, deixando um enorme, fascinante e inestimável corpo de trabalho para as gerações futuras. Mesmo que sua prática tenha se iniciado principalmente para alfabetizar adultos, a visão de mundo que propõe significa um modo de pensar uma sociedade mais igualitária, capaz de debater e discutir ideias para defender um modo de vida mais justo e livre para todos.

A educação que liberta o pensamento dos aprendizes é vital nos dias de hoje porque fornece ferramentas para avaliar e questionar adequadamente a atual ameaça crescente da opressão que emerge mundo afora. Se as pessoas não têm consciência do que significa realmente a liberdade, não conseguem perceber quando ela lhes está sendo tirada.

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