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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Aguardamos um Ministro da Educação

No Brasil, não damos o devido valor à Educação

Por Patricia Lins e Silva - 29 jun 2020, 20h45

O Brasil desconsidera a Educação. Embora se acredite que educar bem as novas gerações é fundamental para o desenvolvimento de uma nação, embora muitos digam que o legado a deixar para a próxima geração é uma boa educação, embora tenhamos as melhores intenções, a Educação não está nas nossas prioridades. Não temos o ímpeto de brigar por boas escolas nem exigimos iniciativas educacionais que sejam competentes para assegurar o preparo de nossas crianças e jovens.

Nos últimos 50 anos, ou mesmo há mais tempo, temos assistido ao esvaziamento, em todos os sentidos, das escolas públicas e também ao crescimento da crença de que a escola particular educa melhor que a pública. O desmonte das escolas públicas é uma realidade, mas não é verdade que a escola particular sempre eduque bem.

O sistema público educacional é uma estrutura imensa, responsável pela formação de todas as crianças e jovens desse país continental. Dirigir e organizar o funcionamento dessa estrutura, mantendo uma política educacional coerente, contínua e esclarecida, é uma tarefa hercúlea. E com resultados a longo prazo, o que desinteressa os investimentos públicos, pois outras áreas trazem resultados mais imediatos. Para liderar essa pasta com eficiência, é preciso saber transitar no mundo politico-educacional e acreditar que é possível e necessário educar

com qualidade as crianças e jovens brasileiros.Educar exige estudo e uma visão de mundo abrangente, que considere a realidade como objeto de aprendizagem e interpretação. Educar é muito mais do que transmitir matérias e conteúdos. É preparar os alunos para enfrentarem os problemas e obstáculos de um mundo em mudança. Ainda mais agora, com o impacto da pandemia, que fechou as escolas por meses seguidos. Mais do que nunca é preciso refletir sobre a extensão e qualidade do abalo provocado, sobre como ficará o mundo e como as crianças e jovens vão reagir à saída do confinamento e às mudanças que vão encontrar. Certamente é uma geração já marcada por esse evento significativo para o funcionamento da sociedade, para a vida de cada um e para a adaptação de todos a um novo modo de viver.  

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Tivemos muitos planos educacionais promissores e interessantes, propostos por ministros assessorados por pessoas com o domínio das especificidades do mundo da educação, atualizadas, estudiosas do pensamento contemporâneo sobre teorias do conhecimento e da aprendizagem e cientes da necessidade de formar pessoas para o mundo pós-tecnologia e internet. Infelizmente, não é raro que muitos planos sejam substituídos pela administração seguinte, que as verbas encolham, impedindo a continuidade de boas experiências. Entra ministro e sai ministro e o tema da Educação continua preocupando porque não prosperamos, embora os professores se dediquem e tentem corajosamente, mesmo desvalorizados e sem apoio adequado.

O último Ministro da Educação não parecia saber o que é a escola contemporânea, nem parecia se importar com a Educação Básica. Em nome de impedir uma ideologia nas salas de aula, a ideia era insistir na educação burocrática, sem estímulo ao pensamento crítico e inovador. A preocupação com ideologia é irrelevante quando se sabe que a inteligência é uma característica da espécie humana. Os alunos sabem pensar – ou devem aprender a pensar – e são capazes de refletir sobre o que escutam, conseguem discutir, responder, inquirir, argumentar, e essa troca é uma maneira contemporânea de considerar a Educação. A atenção do Ministro ficou focalizada em hostilizar Universidades e órgãos de pesquisa, com acusações fantasiosas e descabidas, cortes de verbas e – para um Ministro da Educação – uma surpreendente rejeição ao conhecimento e à produção de conhecimento.

A obsessão com uma ideologia cultural que estaria na escola e na academia – uma preocupação obsoleta, como um fantasma do século passado, do tempo da Guerra Fria, que já acabou há muito tempo – acaba levando ao retrocesso. E o retrocesso educa mal porque forma pessoas desinformadas, alheadas e crédulas. A falta da cultura, da ciência, do pensamento científico, da pesquisa e do saber são desastrosos para o adiantamento e o crescimento de um país.

Só a indiferença ou o desapreço pela Educação justifica que tenhamos consentido em ter um Ministro da Educação deseducado, contra a ciência, iletrado e que desdenhava do conhecimento. Perdemos o ensejo de mostrar enfaticamente nossa indignação com a falta de respeito pelos alunos, pelos educadores e pelo futuro do país.

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Uma população educada, que é capaz de analisar os acontecimentos criticamente, faz um país se desenvolver. A ignorância torna as pessoas frágeis para avaliar a realidade de modo abrangente, o que as deixa indefesas diante de influências enganosas. O avanço das ciências e da pesquisa chancela a qualidade do conhecimento, portanto o adiantamento e a evolução de uma nação.

Um novo Ministro foi anunciado, um professor com riso afável, o que era um começo auspicioso. Mas somos gato escaldado que tem medo de água fria. E logo se soube que o Ministro trazia um currículo inverídico e questões administrativas, que podem impedir que tome posse do cargo.

Enquanto não sabemos quem vai tomar conta da Educação brasileira, aguardamos alguém que possa liderar acertadamente a volta das crianças e jovens à educação presencial, a data do ENEM, a questão do Fundeb, as metas do PNE e as outras muitas e árduas tarefas. Mais do que tudo, esperamos alguém que tenha um projeto para garantir educação com um máximo de qualidade para todas as crianças e jovens brasileiros.

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