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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Ficção científica como disciplina escolar

As novas tecnologias ainda podem ser reguladas para que sejam usadas pra o bem da humanidade

Por Patricia Lins e Silva 1 jun 2021, 11h34

Como alguém concebia o ambiente de Marte em 1934? Foi o ano em que o autor Stanley Weinbaum escreveu um conto de ficção científica com o título de ‘Uma Odisseia Marciana’, em que ele imagina alguns tipos de vida no planeta Marte. E não importa nem um pouco que a gente saiba hoje que não existe vida em Marte. Primeiro porque em 1934, não se sabia quase nada de nada. E depois a narrativa é tão interessante que os fatos reais não importam. O encontro com tipos estranhos de vida leva o herói da aventura a explicar como conseguiu estabelecer comunicação com uma outra forma de vida  recorrendo à matemática por meio de sentenças matemáticas escritas no solo arenoso de Marte. Fascinante.

O conto faz parte de uma antologia de Isaac Asimov, célebre autor de ficção científica, que escolheu diversas histórias com a intenção de fazer um livro “didático”. Ao final de cada história, há comentários sobre as concepções científicas da narrativa, explicações de conceitos, apontando os delirantes e assinalando o que a ciência da época ainda não sabia. Depois das explicações científicas, segue-se um questionário para os alunos responderem que, na verdade, são temas para pensarem ou se aprofundarem.

Penso que a escola é o melhor lugar do mundo (ou deve ser o melhor lugar do mundo) porque é onde podemos exercer a curiosidade natural de nossa espécie e, o que é ainda melhor, junto com os amigos, o que a amplia e intensifica. Não entendo por que os alunos ainda não estão com a Antologia de Asimov nas salas, provocando pesquisas interessantes e discussões acaloradas.

A escola é, por princípio, um lugar divertido. Não significo divertido como ‘estar à toa’, sem atividades que façam os estudantes agirem, física e mentalmente. Pelo contrário, divertido é trabalhar muito a mente e/ou o corpo para resolver o que for necessário. Não é o aprender burocrático. É uma aprendizagem ativa, em que o aluno participa da construção do próprio conhecimento, junto com colegas, orientados pelo professor que, por sua vez, também se diverte acompanhando o desenvolvimento das soluções que os alunos dão para os problemas, orientando sua ação no caminho do saber instituído.

A leitura de ficção científica traz um aprendizado importante para a aceitação de diferenças, para enfrentar surpresas e pensar de modo divergente. Além das histórias serem interessantes, exigem o trabalho de representar mentalmente e compreender o que o autor imaginou e inventou como outros modos de viver e formas de vida desconhecidas e, ainda, relacionar isso com a nossa vida. O pensamento se alarga para admitir que outras sociedades podem funcionar de maneiras estranhas a nós, com outros parâmetros, com outras visões de mundo. No espaço sideral ou na própria Terra, aprende-se que o mundo pode ser outro, sempre. É um exercício de imaginação, de adaptação a transformações radicais, de compreensão de princípios diferentes e da rejeição de dogmas. Para aprender a “pensar fora da caixa”, a leitura de ficção científica é, certamente, um bom começo.

A ficção científica vale como uma espécie de aula de filosofia, uma investigação sobre a vida, um questionamento sobre a verdade, sobre o humano. E, ainda por cima, o professor e os alunos podem se divertir muito investigando a veracidade a as possibilidades das teorias propostas pelos autores.

“Quando se está em Marte, é possível ver Mercúrio?” Pergunta Asimov ao final de Uma Odisseia Marciana.

Para muitos, ficção científica é mero escapismo, fuga da realidade e mergulho em mundos fantásticos. É claro que existe a literatura boa e a ruim, como em todos os gêneros. Mas é mais complexo do que escapismo ou do simples desejo de fugir do dia-a-dia. A ficção científica atrai porque acena com uma possibilidade de futuro numa perspectiva cuidadosa; mesmo que haja muita especulação, o futuro é abordado com certo realismo, com base no saber científico e tecnológico contemporâneo.

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O historiador israelense Yuval Harari afirma que hoje “a ficção científica é o gênero artístico mais importante” porque esclarece a opinião pública sobre os problemas atuais, que são muito complexos, como compreender o que é ‘inteligência artificial’ e ‘biotecnologia’, vertentes tecnológicas que podem mudar o mundo radicalmente nas próximas décadas. No futuro próximo essas duas questões serão críticas. Ele conclama autores e cineastas de ficção científica para abordarem os temas da Inteligência Artificial e da Biotecnologia para que sejam discutidos e, quem sabe, ainda poder transformar e controlar sua forma e utilização. O ideal, diz ele, seria que essas histórias reproduzissem cenários reais, como a inteligência artificial ocupando o lugar de trabalhadores. Uma história ou um filme sobre este assunto provocaria muito mais impacto e mais compreensão do que mil artigos em revistas especializadas. Essas questões graves precisam ser de conhecimento público.

Harari chama a atenção para um outro tema atual e urgente, ainda a  ser explorado, que é a tendência provável e assustadora de que as pessoas precisarão se reinventar completamente em espaços bastante curtos de tempo. Se tudo for automatizado, o trabalho de cada um pode desaparecer de repente e é preciso começar da estaca zero e aprender alguma outra ocupação, totalmente diferente e nova. Quantas vezes um ser humano pode se reinventar durante sua vida? Teria capacidade para se reinventar quatro, cinco, seis vezes durante a vida? Aguentaria o estresse psicológico?

A opinião pública precisa estar informada das ameaças implícitas e explícitas que existem no desenvolvimento das tecnologias. Afinal, o desdobramento delas não é imutável. Podem ser reguladas para impedir a criação de cenários disruptivos. É possível e desejável lutar para que a tecnologia seja usada para o bem da humanidade.

A leitura de ficção científica faz refletir sobre estes assuntos, os diversos tipos de relações e interações entre as pessoas, delas com a tecnologia, com o ambiente. Essas leituras sempre apresentam uma visão de futuro, mas se aprende que o futuro não é um único, que existem diversas possibilidades de futuro. As escolhas, as decisões coletivas e individuais, os desejos de realização, as ideias compartilhadas, os modos de relação com os outros, tudo isso nos conduz a um futuro possível. A ficção científica faz pensar no futuro que desejamos e mostra que nossas ações atuais podem contribuir para sua realização. A ficção científica liga o presente e o futuro.

Ler ficção científica nos revela o tamanho do espaço que ocupamos no mundo, nos obriga a entender o planeta e a humanidade dentro de uma perspectiva lúcida, para perceber o contexto amplo, com alta possibilidade de mudança. Aprende-se que tudo o que parece constante talvez não o seja. As permanências podem mudar.

No momento, o problema dramático do excesso de consumo de combustíveis fósseis está nos levando a um futuro indesejável, e ainda não conseguimos mudar hábitos. Para descobrir uma saída, é preciso pensar diferente, acreditar que é possível brigar por energia barata, limpa e acessível e desenvolver sistemas para usá-la da maneira mais eficiente possível.

Não existe um futuro previsível, melhor, único. O mundo é grande e diverso, o que torna inviável imaginar um mesmo futuro igual para todos. A ficção científica permite fantasias de muitos futuros possíveis, desejáveis e diferentes.

A escrita de ficção científica não tem o propósito de prever o futuro, até porque muito raramente acertou alguma previsão. Mas muitas têm um propósito ou objetivo social, no sentido de que as mudanças são sempre para melhorar o mundo.

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