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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Empresas podem resolver a exclusão digital

Elas pagarem para os desfavorecidos entrarem no mundo digital não é caridade, mas uma decisão de negócios

Por Patricia Lins e Silva 7 set 2021, 15h30

A pandemia mostrou que milhares de brasileiros não têm acesso à internet em casa, o que os exclui da vida no século 21. Milhares de crianças ficam fora da escola, cada vez mais conectada, e como consequência se tornam adultos fora da realidade do mundo do trabalho que, hoje, funciona apoiado na tecnologia digital.

No passado, os governos levaram a eletricidade para todo o país. Hoje, uma visão estreita de governança não gasta com as classes menos favorecidas e, no entanto, o país só teria a ganhar com uma população mais qualificada para o trabalho, mais preparada para o atual funcionamento da realidade.

Há algum tempo, li uma sugestão curiosa feita pelo chefe de estratégia de tecnologia do Deutsche Bank, Apjit Walia, propondo que as próprias grandes empresas de tecnologia paguem para que as classes desfavorecidas obtenham o necessário para entrarem no mundo digital. Walia afirma que o gesto não seria caridade, mas uma decisão de negócios, pois adquiririam novos clientes e teriam uma chance de resgatar sua reputação, que é em geral, bem ruim.

Atualmente, as empresas não investem em lugares com pouca população e nem nos bairros com população de baixa renda. Baseada em pesquisas, dados e análise de informações, a investigação de Walia reforça o fato de que os menos favorecidos têm menos probabilidade de ter acesso à Internet e computadores em casa. A investigação revela, também, que os negros têm mais probabilidade de ter um serviço de internet de baixa qualidade do que os brancos. O estudo foi feito nos EUA e para a população norte-americana. Mas não é difícil inferir uma situação semelhante para a população brasileira.

Com uma inusitada combinação de frieza de investidor e indignação com a desigualdade social, Apjit Walia propõe uma solução para o problema: um plano de cinco anos para as grandes empresas de tecnologia, em que gastariam coletivamente uma quantia considerável com famílias de baixa renda, com foco em três coisas: fornecer serviço de internet com desconto, fornecer computadores básicos e fornecer orientação e educação sobre habilidades técnicas.

Como hoje o trabalho requer a habilidade digital e é preciso ter mão de obra qualificada para lidar com a tecnologia, as empresas agiriam por interesse próprio, pois essa parte da população sem acesso à internet é um risco de falta de mão de obra para elas no futuro, além dos problemas para o país. “Trata-se de investir em um mercado que será um grande grupo demográfico em mais uma geração”, diz Walia.

O investimento digital das grandes empresas de tecnologia na população menos favorecida não resolve a desigualdade, que tem razões muito mais profundas. Mas permitiria incluir uma grande parcela da população na realidade, o que pode significar o início de um caminho para menos desigualdade.

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