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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Diário da quarentena: a enésima semana

Uma escola on-line não é mera reprodução da versão presencial no ambiente virtual porque a atenção e a relação de aprendizagem na tela são outras

Por Patricia Lins e Silva - 6 abr 2020, 12h11

E o vírus nos confinou sem nenhum aviso prévio, e é verdade!

Há um mês as crianças deixaram de ir à escola. A escola se reinventou para chegar aos alunos e continuar a apoiar o seu desenvolvimento cognitivo. Professores e equipes pedagógicas, corajosos, puseram de pé uma escola online em alguns dias, um projeto que, em tempos comuns, levaria meses de muito estudo, pesquisa e preparação.

Uma escola on-line não é nada simples porque não é mera reprodução da escola presencial no ambiente virtual. Não basta ter uma câmera e um professor falando para alunos. A dinâmica é muito diferente. Ninguém pode esperar repetir, imitar, reproduzir a escola presencial no modo virtual. A atenção e a experiência de aprendizagem mudam totalmente da sala para a tela.

A atenção do aluno na tela é muito curta. Não está na sala de aula, mas no quarto em frente a um computador. A própria mídia leva à dispersão porque, de repente, quer saber alguma coisa, acessa um site de busca e daí para ir atrás de outros interesses é um segundo. Todos surfamos a internet e conhecemos essa distração.

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Para enlaçar a atenção do aluno na tela, o professor precisa intrigá-lo, propor tarefas que exijam que pense sobre questões interessantes, dilemas complexos, de preferência da vida real, porque são os mais atraentes. A solução deve exigir reflexão e argumentação, para debate virtual com os colegas.

O aluno virtual é o verdadeiro protagonista da própria aprendizagem. O professor orienta e incentiva para que o pensamento se mantenha ativo e curioso sempre buscando soluções para as questões propostas.

A educação virtual, no início, pode parecer mais exigente porque demanda um esforço diferente do aluno, mas ele logo se adaptará.

Para os professores, a aprendizagem a distância é uma mudança considerável. Precisam descobrir novas práticas, deslocando a preocupação da atenção imediata da turma para o engajamento do interesse e do desejo de um aluno, durante e depois do contato na tela.

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As famílias também precisam se adaptar à aprendizagem virtual, nunca viveram essa experiência, que é inteiramente diferente da representação interna que todos temos da escola, com salas de aula, alunos da mesma idade, carteiras umas atrás das outras, e o professor na frente.

Estamos num momento de mudança de paradigma e vivendo, de modo contundente, a transformação da realidade. A escola está dando um salto qualitativo na proposta de formar pessoas para a vida no século 21. Uma mudança involuntária, mas necessária desde a chegada da tecnologia digital e da internet, que permite o acesso à informação e ao conhecimento, de qualquer lugar e a qualquer hora, pelos sites de busca.

O professor continua com o papel fundamental de orientar o aluno para aprender a fazer perguntas inovadoras e descobrir respostas originais, que é do que se precisa nessa era de incertezas. 

A experiência da quarentena está afetando nossa visão de mundo, duvidamos de quem somos, do que fazemos aqui, quem são os outros. O mundo, a escola, os educadores, os alunos, todos estaremos muito diferentes quando isso acabar. Resta saber se melhores, mais tolerantes e mais generosos.

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