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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Diário de uma quarentena: primeira semana

O período de isolamento físico permite calma para refletir sobre o mundo em que nossos filhos vão crescer e viver

Por Patricia Lins e Silva 27 mar 2020, 11h57

VIVENDO A QUARENTENA – A PRIMEIRA SEMANA.

Aproveito o tempo de quarentena para aprender. Ontem, li um artigo do físico brasileiro Mario Novello (https://cosmosecontexto.org.br/os-transgressores/), sobre cientistas do século 20 que ousaram fazer novas interpretações para teses conhecidas, trazendo diferentes pontos de vista para compreender esse estranho mundo em que vivemos, que é mais enigmático e intrigante quanto mais se aprofunda a investigação. Não é fácil para nossas mentes de não-cientistas lidar com teorias do cosmos, do mundo quântico, do tamanho do universo, matéria escura e anti-matérias desaparecidas. Além do artigo ser interessante, é estimulante perceber o desenvolvimento da capacidade de abstração que o estudo da Física encoraja no pensamento humano. Ou melhor, o que é mesmo fascinante é a capacidade desses cientistas de abstrair, analisar, refletir, raciocinar e criar teorias complexas sobre temas obscuros. Encantada, tentei me alçar a esse mundo de ideias provocantes, que me desviam do cotidiano comezinho do confinamento.

Como acredito na competência da espécie humana para solucionar problemas, surpreendo-me que a humanidade – que conta com cientistas tão eminentemente capazes e pensantes, e que acumulou um incrível acervo de conhecimento – tenha chegado a esse momento extraordinário de uma quarentena em escala mundial. Em que ladeira escorregamos para o poço do mundo da Rainha de Copas, junto com a Alice no País das Maravilhas? Lá, o coelho tinha pressa, muita pressa, os jardineiros pintavam as flores e a rainha gritava ‘cortem-lhe a cabeça’. Será que, sem nos darmos conta, estávamos vivendo com muita pressa e pintando as flores da rainha que corta cabeças?

Foi uma doença contagiosa que freou a correria. Não foram os protestos de adolescentes lutando por seu futuro, liderados por uma simpática menina sueca, não foram os líderes mundiais reunidos em Davos. Foi um vírus que prendeu a humanidade em casa, obrigando-a a se adaptar rapidamente à interrupção brusca das rotinas, balizadoras do cotidiano. A ausência delas instala uma sensação incômoda de irrealidade. Se é estranho para nós, imaginemos para as crianças, arrancadas da rotina diária que tanto lhes dá segurança.

Como será que vamos sair dessa experiência? Às vezes acredito ter clareza de que as consequências dessa crise passarão por mudanças acentuadas nos nossos hábitos de vida. Mas é pura especulação, já que nunca vivemos um evento tão global e tão grave, o que bloqueia a imaginação para apostar possíveis futuros.

A exemplo dos notáveis cientistas de que falamos no início, temos capacidade para encontrar soluções para os desafios atuais. Mas torço para que esse tempo de vicissitude sirva para uma reflexão sobre o mundo em que nossos filhos vão crescer e viver. Queremos um mundo em que cada indivíduo resolva prontamente suas necessidades e desejos pessoais imediatos? Ou será que já conseguimos perceber que a sobrevivência da espécie depende de colaboração, do grupo, do outro, da troca, da solidariedade, da saúde do planeta, das soluções para os graves problemas sociais?

Temos a chance de nos tornarmos melhores: mais sensatos, mais solidários, mais generosos, mais sábios. Vamos ensinar às crianças que todo mundo tem o direito de viver bem (que é diferente de viver melhor) e viver bem é ter suas necessidades de sobrevivência atendidas, boa alimentação, água potável, ambiente saudável e amoroso. Todas as crianças devem viver bem, tranquilas, sem pressa, sem pintar flores porque apreciam as flores naturais, sem ouvir o ‘cortem-lhe a cabeça’ da rainha de copas na correria.

Para ter uma vida significativa, a educação deve ser o eixo fundamental da nossa existência. A educação leva ao pensamento abstrato dos cientistas, ao pensamento que contribui para o desenvolvimento da civilização. A educação ensina a pensar, a refletir, a aprender, a respeitar os outros, a valorizar o conhecimento, a acreditar na ciência para preservar a cultura e os valores civilizados. A educação sustenta uma boa vida, mais atraente e mais plena.

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