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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Ignorância orgulhosa e futuro preocupante

A verba destinada à Educação no Brasil foi a menor nos últimos trinta anos. Em meio a tantas carências na educação, é um descaso absurdo

Por Patricia Lins e Silva 2 mar 2021, 13h13

          Há poucos dias citei aqui um relatório publicado na Universidade Diego Pontales, no Chile, que festejava o fato de que o mundo, durante a pandemia, reconheceu o papel central da escola na vida socioeconômica e política dos países, contribuindo para sua prosperidade.  

       Duas semanas depois, lemos nos jornais que, no ano que passou, o ano da pandemia, dificílimo para a humanidade e, claro, para a escola, a verba destinada à Educação no Brasil foi a menor nos últimos trinta anos. Em meio a tantas carências na educação, é um descaso absurdo.

       O país atravessa um momento triste, com enorme número de desempregados e muitas famílias passando fome. A prioridade é atender  quem tem fome rapidamente. Mas condicionar este auxílio urgente e imprescindível à aprovação de medidas compensatórias que desvirtuam  finalidade das verbas da educação e saúde é um acinte. Educação e saúde não são despesas, são investimentos. E pode-se pensar em outras possibilidades para as medidas compensatórias, como o aumento da tributação sobre os mais ricos.

         O Congresso, afinal, não votou a proposta disparatada. Mas só o fato de ter passado pela cabeça de congressistas modificar – que não seja para aumentar – verbas da saúde e da educação mostra que nossos representantes não acreditam que uma formação cultural com qualidade é condição para a prosperidade do país. As nações que se desenvolvem são as que prezam a saúde e valorizam a educação porque sabem que são os alicerces do seu futuro.

           O espantoso desprezo pelo conhecimento não deixa reconhecer a escola como estruturante das nações desenvolvidas; a escola é que estimula o desenvolvimento cognitivo das novas gerações, é que promove seu encontro com a cultura da sociedade. Mas é uma  importância incompreensível para quem convive bem com a ignorância e talvez, até, não a perceba e a considere virtude. Estamos envolvidos numa mentalidade opaca, impermeável ao saber, à ciência, à arte, à cultura, aos valores civilizados. Talvez não seja por má-fé, mas por excesso de incultura, que pode funcionar como uma barreira para o entendimento.

              A civilização é uma história de séculos e continua a acumular o vasto acervo cultural, diverso e interessante. A ciência, os saberes, os valores, que são parte do que se aprende na escola, resultam na possibilidade de ampliar a capacidade de solucionar problemas humanos.

              Antes da civilização, os grupos caçavam e guerreavam outras tribos. As grandes virtudes, então, eram ser guerreiro, ser forte e ser capaz de matar a caça e os rivais. Parece que se resgatou este modo de viver violento de outrora, considerado como mais relevante do que o conhecimento. Assistimos a uma espantosa louvação da ignorância e a uma indiferença perversa pelo futuro das novas gerações e do país. Não era o que se esperava de uma humanidade civilizada.

       Afinal, as verbas não foram alteradas pelo Congresso, agora. Mas sabemos que a ideia continua rondando. Para um educador, o episódio revela que ainda levará tempo para o país dar valor à educação e ao conhecimento. Mas apostamos na escola como o lugar de aprender que o diálogo, a razão e o bom senso superam a ofensa, o disparatado e a insensatez.

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