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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Você tem fome de quê?

A pandemia liberou nosso apetite como válvula de escape de ansiedade e frustrações

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 26 Maio 2020, 16h42 - Publicado em 26 Maio 2020, 15h49

Depois de dois meses de isolamento social, um novo fenômeno tem sido percebido em várias casas do Brasil: as roupas estão ficando apertadas. O bolo caseiro e os doces fora de hora consumidos entre o sofá e a cozinha nos últimos 60 dias estão começando a dizer a que vieram. O cantor César Menotti, por exemplo, tem usado as redes sociais, com muito humor, para falar da dificuldade de parar de comer. “Acho que as minhas roupas estão com saudade de mim. Coloquei uma camisa agora e ela me apertou tanto…”, brincou. Na semana passada, um vídeo do ator Marcio Machado parodiando a música “Esquadros”, de Adriana Calcanhotto, viralizou nos grupos de WhatsApp. “Eu ando pela casa querendo me encher de doces que eu nem sei o nome/ Doces de padaria, doces de supermercado, doces”.

Afinal, estamos comendo mais e pior durante a pandemia?

Pesquisa da Fiocruz, UFMG e Universidade Estadual de Campinas com mais de 40 mil entrevistados concluiu que sim. De acordo com o estudo, o percentual de consumo de alimentos não saudáveis disparou. É como se a pandemia tivesse liberado nosso apetite como válvula de escape de frustrações, um salvo conduto para exageros. Pizza e lasanha congeladas, salgadinhos de pacote, chocolates, biscoitos, doces e tortas cresceram 14%, se compararmos com os dias antes da epidemia de coronavírus. O aumento foi maior entre as mulheres: quase 50% afirma que vem consumindo doces rotineiramente.

E por que esses alimentos tem sido tão procurados? Comidas ricas em açúcar, gorduras e carboidratos agem como “tranquilizantes” no nosso corpo, nos confortam e acalmam diante da sensação de instabilidade. Mas quanto mais aliviamos o estresse com tais alimentos, mais comida o organismo pede, criando um ciclo vicioso perigoso para a saúde.

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O amplo naipe de medos que nos cercam (medo de morrer, de ficar doente, do desemprego), somados à interminável instabilidade política nacional servem de gatilho para o descontrole alimentar. Quem tende a compensar a ansiedade através do consumo de comidas, tem dois comportamentos padrão: ou estocam alimentos, geralmente com alto valor calórico, ou fazem restrição de consumo como forma de controle. Ambos são portas de entrada ou agravantes para transtornos alimentares, como bulimia e anorexia.

A palavra de ordem é bom senso. Preocupação excessiva com a estética neste momento pode ser muito ruim. O problema não está em consumir doces, mas sim a frequência e a quantidade. Grandes permissividades, se transformadas em cotidianas, podem trazer prejuízos também à saúde mental, chegando ao quadro de compulsão alimentar em indivíduos vulneráveis ou complicando a condição de quem já sofre com a doença.

Diante do grande trauma coletivo que estamos vivendo, falar em educação alimentar pode parecer secundário ou até mesmo supérfluo. Ledo engano. Ela também colabora para a estabilidade emocional que tanto buscamos neste momento. Depois que tudo isso passar, fortes e saudáveis, nos preocuparemos em encarar novamente as roupas apertadas da “vida pré-pandemia”.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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