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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Trinta anos de SUS

Em um país que tem como projeto desfazer conquistas dos governos anteriores, o Sistema Único de Saúde resiste há três décadas e faz diferença na pandemia

Por Sabrina Presman Atualizado em 15 dez 2020, 20h56 - Publicado em 15 dez 2020, 11h34

Em fevereiro, quando a pandemia de coronavírus começou a se prenunciar como uma ameaça real em todos os países, o rei ficou nu. Inesperadamente, descortinou-se a real situação dos sistemas de saúde em todo o mundo. A Itália colapsou. A Espanha ficou no fio da navalha. A lógica elitista do sistema americano, que não prevê a universalidade, atingiu em cheio os mais pobres. No Brasil, ainda tivemos algumas semanas para nos prepararmos para o pior, erguendo hospitais de campanha às pressas e garantindo respiradores antecipando-se ao pico, que só viria em maio. No entanto, em meio ao caos, o que ficou explícito foi a capilaridade, a força e a competência do Sistema Único de Saúde do Brasil. Sem o SUS, centenas de milhares de pessoas mais teriam morrido neste momento trágico.

Apesar de todos os contratempos que estampam as manchetes dos jornais quase que diariamente – corrupção nos editais, compras fraudulentas – entra governo, sai governo de todas as ideologias e o que vemos são profissionais de saúde comprometidos com o trabalho. A importância do SUS será, mais uma vez, lembrada hoje, 15 de dezembro, numa marcha virtual às 14h em Defesa do SUS e pelo seu fortalecimento, numa ação da campanha #BrasilPrecisadoSUS

O SUS prevê o direito à saúde universal e gratuita, desde 1988, quando foi criado junto com a nova Constituição, amparado nos pilares da Universalidade (para todos), Integralidade (cobertura de todas as necessidades) e Equidade (destinar mais recursos para quem mais precisa). É o único sistema público do mundo que atende mais de 200 milhões de pessoas, com mais de 1,5 bilhão de procedimentos realizados por ano. É o SUS que chega à regiões e cidades do país que o sistema privado, com sua lógica particular, não tem interesse em investir.

Segundo a OMS, saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Talvez pelo eterno déficit de políticas públicas preventivas, estamos sempre trabalhando com a lógica invertida do que seja saúde. Uma prova dessa mentalidade perversa: quando alguém busca um plano de saúde, a primeira coisa que quer saber é sobre a rede hospitalar, o tipo de internação, os leitos de UTI para quando tiver uma ocorrência grava. Mas ninguém presta atenção àqueles fatores que vão evitar a doença, de cuidar da prevenção em saúde e não apenas quando a doença está instalada.

A sociedade deveria investir em políticas que promovam o bem estar, desde alimentação balanceada e atividade física à programas de tratamento a comportamentos de risco, como tabaco, álcool e outras drogas, ou até mesmo aprendizado de lidar com o estresse. Tudo isso evita que se evolua para uma doença. Mas, de forma geral, corremos atrás de compensar o prejuízo, na lógica do “leite derramado”. A pandemia de coronavírus deixou essa vertente ainda mais evidente.

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A boa notícia é que o SUS é muito mais do que uma rede hospitalar, como muitos supõe. Ele tem no DNA a preocupação de cuidar da saúde. A começar pelo programa de imunização, o maior do mundo. É a vacina a responsável por diminuir a chance de adoecer futuramente. Prevenir para não remediar, subvertendo o ditado. Várias doenças foram erradicadas no Brasil por vacinas, como sarampo, poliomielite, difteria e rubéola. A distribuição gratuita de remédios é outro diferencial relevante. Além disso, o SUS é responsável por programas de excelência, verdadeiras referências no mundo, como assistência neonatal, tratamento de AIDS e Programa de Controle de Tabagismo, este último fundamental para que a tragédia do COVID-19 não fosse ainda maior, ao conquistar a diminuição da prevalência de tabagismo de 35% em 1989 para menos de 10 % na atualidade. A prova cabal que políticas públicas são de fundamental importância para mudanças sociais.

A Estratégia Saúde da Família (que em algumas cidades ganhou outro nome), por exemplo, visa aproximar unidades de saúde com os usuários que estão nas pontas: as famílias nas milhares de comunidades. Num país de diferenças tão gritantes – e ainda mais grave em uma cidade como o Rio –, em que o Estado se ausenta em tantas frentes, é fundamental levar à sociedade serviços básicos em saúde, com uma equipe médica que passa a ser referência na comunidade.

De vez em quando, surgem projetos esdrúxulos que visam alterar ou restringir a cobertura do Sistema Único de Saúde. Isso jamais acontecerá, por uma razão simples: o SUS é uma conquista do povo brasileiro. Ele está longe de ser perfeito. Tropeçamos no peso da máquina estatal, nas mudanças de governos, nos mal feitos de uma ou outra pessoa. Mesmo aqueles que acreditam que não precisam dele por contar com o privilegio do sistema privado, tem a sua saúde também cuidada por essa maquina: a comida, seja nos restaurantes ou supermercados, a água em casa, o resgate nos acidentes de trânsito em vias públicas, a menor exposição ao tabagismo passivo em ambientes fechados e até a possibilidade de que seu bebê ou animal de estimação possa estar protegido para viver plenamente, tudo isso só é possível por conta do SUS. Ou você nunca ouviu a frase “ele só pode sair depois de tomar as vacinas”?

Mas não há duvidas que se trata de um direito fundamental, baseado nos princípios corretos, pelo qual todos devemos lutar: cuidar da saúde e não da doença. Em época de final de ano, onde cada um faz a sua retrospectiva, a minha sem dúvida é a importância de políticas públicas de promoção da saúde e do trabalho contínuo por maiores investimentos e melhorias no SUS.

Sabrina Presman é psicóloga, mãe de dois filhos, especialista em Psicoterapia Breve. Divide seu tempo entre o cuidado com paciente, a gestão de saúde e desenvolvimento de liderança e educação dos filhos através da Psicologia Positiva. É fiel defensora do SUS, onde atuou por anos na politica de controle de Tabagismo. Também é diretora da Espaço Clif e vice-presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas).

 

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