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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Sobre Guerras e Germes

Num momento em que o espírito humanista deveria imperar, somos expostos a uma angústia ainda maior

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 4 Maio 2020, 16h14 - Publicado em 4 Maio 2020, 15h46

O tempo é implacável. Veio mostrar o valor da ciência, mesmo àqueles que a desacreditavam, na capacidade de prever o curso das doenças. O que começou com uns poucos casos de COVID-19 oriundos de outros países, foi se disseminando pela comunidade, chegando cada vez mais perto. Se antes eu ouvia histórias de um-primo-de-um-cunhado-de-uma-colega que faleceu, ou do pai do “personal trainer”, agora, mesmo com todos os cuidados, a doença está dentro da minha casa, do meu ambiente de trabalho, e aniquilando meus colegas que lutam nas trincheiras. Estamos em guerra, e guerras mostram o espírito solidário. Revelam os heróis. Mas também tiram as máscaras. Desvelam os mesquinhos.

Enquanto ficamos todos ilhados em casa, muitos demitidos, vários com redução de seus salários, ansiosos, deprimidos, inquietos, solitários, assistimos à notícia da Organização Mundial de Saúde de que a violência doméstica aumentou significativamente nos países afetados pela pandemia. O Brasil não está fora das estatísticas. O isolamento evidenciou a misoginia, o abuso infantil, o abandono de idosos.

Em paralelo, uma denúncia de que o Hospital de Bonsucesso, indicado pelo Ministério da Saúde como referência para tratamento de pacientes com coronavírus, tem enfermarias montadas com respiradores e não libera seus leitos. Outros hospitais se encontram em situação similar. Parte deles está parada por falta de mão de obra, em virtude da crescente falta de investimento na contratação de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde nos últimos três anos. Mas isso não é verdade em todos os casos. Enquanto o Rio de Janeiro tem mais de mil pacientes com Covid-19 à espera de vagas, dos quais 361 em estado grave, muitos hospitais funcionam com metade de sua capacidade. O governador do Estado entregou até agora um hospital de campanha, com 42 leitos, e o Município entregou outro, disponibilizando no momento 100 leitos. Mas, seriam esses leitos realmente necessários, se os recursos materiais e humanos já disponíveis fossem utilizados com eficiência?

Não bastasse isso, o Whatsapp, que já era protagonista dos noticiários antes da pandemia, confirma sua vertente danosa, espalhando fake news que confundem ainda mais a população desavisada. Tudo vira disputa partidária, onde nada é verdadeiro ou tudo é verdadeiro, dependendo do ponto de vista do leitor. Aqui a guerra é outra, mas a pequenez é a mesma. Num momento em que o espírito humanista deveria imperar, somos expostos a uma angústia ainda maior. O que vemos são aglomerações, pessoas se estapeando para defender seus mitos e, enquanto isso, a doença se espalhando em nosso país. Estaríamos cegos?

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Nem tanto. Um inquérito com a finalidade de apurar a existência de uma rede de fake news já repousa na mesa dos ministros do STF, bem como outra apuração, sobre quem tem interesse e quem financia as recorrentes manifestações contra o Estado de Direito no Brasil. As instituições democráticas, como o Supremo e o Congresso, seguem ativas e atentas, trabalhando pelas demandas urgentes da população e os heróis da saúde pública persistem lutando como podem na tentativa de salvar o maior número de vidas.

Que todo o sofrimento da atual pandemia sirva de lição para a importância no investimento em saúde e da construção de um país mais justo. Mais uma vez, estamos testemunhando que o melhor e o pior do ser humano sempre existiram, e continuarão existindo. Guerras e germes só expõem isso.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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