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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

“Sessão de Terapia”: quem cuida de quem cuida?

Série lança um olhar afetivo e instigante sobre o trabalho dos terapeutas

Por Analice Gigliotti Atualizado em 14 jul 2021, 16h19 - Publicado em 14 jul 2021, 14h28

A quinta temporada de “Sessão de Terapia” que acaba de estrear no GloboPlay guarda boas novidades. Não chega a ser exatamente uma surpresa, tendo em vista o alto padrão de qualidade que o programa atingiu ano após ano: a série, dirigida por Selton Mello, tem um público fiel desde que estreou, há quase uma década. São muitos os espectadores que acompanham, com prazer, o painel de dramas que se desnudam na intimidade da sala de terapia.

Na nova leva de episódios, Selton volta ao papel do terapeuta Caio. Atormentado por suas questões amorosas e familiares (sem spoilers!), ele se reveste de profissionalismo quando está diante dos pacientes desta temporada: a insegura Manu, que passa pela descoberta da maternidade enfrentando uma depressão pós-parto; o motoboy Tony e suas questões identitárias; a vendedora Giovana, que por trás de seu sobrepeso e compulsão alimentar esconde problemas familiares e a enfermeira Lidia, que enfrenta em uma crise profissional depois do atendimento traumático a pacientes com Covid-19. Consulta após consulta, as questões que os pacientes trazem acabam por tocar em pontos sensíveis e íntimos do próprio terapeuta, o que atrapalha sua conexão com os pacientes.

Toda a fortaleza e impessoalidade que Caio demonstra diante dos pacientes se desfaz quando os lugares se alternam e ele se senta na cadeira de paciente do terapeuta Davi (Rodrigo Santoro), ele mesmo em crise no casamento, num ciclo que reafirma o caráter humano da relação médico-paciente. Aqui é preciso abrir um parêntese para falarmos do talento e da inteligência que Selton Mello empresta a seu personagem, um trabalho de saborosas nuances, não só na atuação, bem como na sua direção delicada. A construção de Selton encontra em Rodrigo Santoro um par perfeito. Presença bissexta na televisão brasileira, Santoro reaparece agora um ator maduro, que carrega seu terapeuta Davi com segurança e brilho. Amigos de longa data, os atores imprimem o prazer da intimidade que desfrutam na alegria de estarem juntos em cena. O resultado é emocionante para quem assiste.

Para mim, foi extremamente prazeroso ver a construção da relação de Caio e Davi, o “paciente-terapeuta” e seu próprio terapeuta. O médico que cuida do médico. Pessoalmente, acredito que o fato de fazer terapia melhore significativamente a qualidade da minha relação com os meus pacientes. Profissionais de saúde – e, mais no detalhe, os de saúde mental – tem na sua capacidade empática um valioso material de trabalho. E é isso que a terapia nos leva a aprimorar: a empatia. Na medida em que tomamos conhecimento de nossos problemas, conseguimos nos aproximar mais dos outros.

A nova temporada de “Sessão de Terapia” chega ao público em um momento crucial, depois de ficarmos mais de um ano confinados em casa, testados em nossa capacidade de resiliência. Nestes últimos meses, houve um severo agravamento de diversas doenças mentais. A terapia foi a tábua de salvação de uma infinidade de pacientes, presenciais ou online – assim como os pacientes de Caio.

A forma mais potente de arte é aquela que estabelece diálogo direto com a vida de quem a assiste. Não está tudo bem na vida de Caio, de Davi e nem na de seus pacientes – assim como provavelmente também não está tudo bem na vida dos espectadores da série. Mas a predisposição de encarar a vida de frente é um belo passo inicial. Como adicionou Michael Cunningham às palavras de Virginia Woolf em “As Horas”: “Olhar a vida nos olhos. Sempre olhar a vida nos olhos”.  A série de Selton Mello reafirma que a terapia é uma potente aliada nessa caminhada.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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