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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Robinho, Mariana Ferrer e a tolerância com o estupro

Vergonhosa audiência de vítima e negociação para contratação de jogador após condenação explicitam o machismo na sociedade brasileira

Por Elizabeth Carneiro Atualizado em 12 nov 2020, 12h14 - Publicado em 12 nov 2020, 09h36

“Infelizmente existe esse movimento feminista. Muitas mulheres, às vezes, não são nem mulheres, para falar o português claro”. Machismo. Homofobia. Transfobia. Sexismo. Quantos absurdos cabem numa frase? A declaração do jogador de futebol Robinho, tentando se defender da condenação a nove anos de prisão por violência sexual a uma mulher na Itália, é a expressão clara da reiteração de velhos preconceitos que insistem em permanecer vivos na sociedade brasileira. A forma como Robinho fala da mulher estuprada coletivamente por ele e seus parceiros, mostra uma indiferença humana, uma desconexão afetiva consigo mesmo e com o outro.

A fala de Robinho ganhou projeção por ele ser famoso. E o que acontece quando o machismo sai da boca de anônimos? Pior, anônimos com poder. O Brasil assistiu, em choque a jovem Mariana Ferrer, que denunciou ser vítima de estupro, lutando sozinha durante a audiência contra a agressividade do juiz, do advogado e do promotor. Se dependesse do trio, ela passaria de vítima a culpada.

No curto espaço de semanas, testemunhamos que a sociedade brasileira permite que um estuprador condenado como Robinho siga sua vida normalmente, a ponto de receber até propostas de trabalho, mas essa mesma sociedade impõe às mulheres vítimas de abusos, como Mariana Ferrer, inúmeros questionamentos e humilhações.

O 13o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro de 2019, registrou recorde da violência sexual no país. Foram 66 mil vítimas de estupro no Brasil em 2018, maior índice desde que o estudo começou a ser feito em 2007. Além do crescimento da violência sexual, o anuário contabiliza ainda a alta dos homicídios contra mulheres em razão de gênero. Em 2018, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio, alta de 4% em relação ao ano anterior. De cada dez mulheres mortas seis eram negras. A faixa etária das vítimas é mais diluída: 28% tem entre 20 e 29 anos, 29% entre 30 e 39 anos e 18% entre 40 e 49 anos. Nove em cada dez assassinos de mulheres são companheiros ou ex-companheiros.

Por todos esses dados alarmantes é que a eventual contratação de um jogador de futebol condenado pela Justiça chocou a opinião pública. O fato é que a negociação de Robinho com o Santos Futebol Clube estaria transcorrendo normalmente se não fosse a indignação que tomou conta da mídia e das redes sociais nos últimos dias. O caso ganhou dimensão gigantesca e a negociação foi interrompida para evitar a debandada dos 20 milhões de reais dos patrocinadores. Como sempre, a força do dinheiro falou mais alto e somente o medo de perdê-lo foi capaz de fazer com que o clube tomasse a decisão correta.

O comentarista Casagrande usou seu espaço na TV Globo para fazer uma veemente defesa do bom senso e citou a letra da música “Bola de meia, bola de gude”, de Milton Nascimento: “Não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal”.

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Robinho era um mito. Fez diferença no futebol como um atacante disputado a peso de ouro. Parecia mais dos bons menino de origem simples que ganhava os campos do mundo. Muitos deles não souberam administrar fama, status, dinheiro e mulheres. Perderam-se no caminho do prazer efêmero das drogas, da ostentação, da comitiva de bajuladores que não lhe dariam sequer um “bom dia”, não fossem eles ricos e famosos. Sempre defendi, sem muito sucesso, que cada vez que um menino desses é descoberto por olheiros e preparado para ser um campeão de futebol, deveria ter uma psicóloga ao seu lado, acompanhando seu desenvolvimento e o impacto por vezes negativo trazidos por uma mudança brusca de estilo de vida. Subitamente pode-se perder os valores que norteiam – ou deveriam nortear – a vida. Aquele que por anos era um “invisível” passa a ser “o rei das festas”, cobiçado por amigos e mulheres. Como se manter em sua essência diante de uma escalada social tão vertiginosa?

Se perder neste caminho é fácil. Os jogadores são preparados para a superação no gramado, mas no campo da vida são jogados às feras e, frequentemente, engolidos pela sua própria confusão mental. No caso de Robinho, fica claro que os valores que trazia ainda da sua origem simples na vida não foram preservados: eles sequer existiram. Nenhum trabalho psicológico teria dado conta porque estamos falando de caráter.

Pedalar no futebol significa rodar a perna várias vezes para “enganar o outro”. Pedalar era uma das maiores habilidades de Robinho. Ecoa até hoje nos nossos ouvidos o famoso “pedala Robinho!” gritado pelo locutor. Realmente, Robinho pedala como ninguém. Pedalou em campo e enganou a todos na vida real: a nós brasileiros, aos estrangeiros e toda uma legião de fãs que depositam no futebol momentos de alegria.

O que homens como Robinho precisam entender de uma vez por todas é que “existe esse movimento feminista” sim. Felizmente, ao contrário do que afirma o jogador. Toda manifestação de afirmação e empoderamento das mulheres deve ser apoiada e endossada. Apenas os homens fracos, acuados, não acordaram para o fato de que a afirmação de identidades é um caminho sem volta. Gays não voltarão para o armário, negros não voltarão para a senzala e mulheres não voltarão para a cozinha. A não ser quando este for o desejo delas mesmas e não por imposição masculina.

Eu não desejo ver Robinho pedalar no campo. Se o preço de ajudar o Brasil no futebol é viabilizar, por meio de sua fama, o acesso às muitas mulheres que são aniquiladas, fica meu pedido: por favor, Robinho, se recolha e tente evoluir como ser humano. O que você fez com esta vítima não tem perdão. A vida está te dando a chance de parar de pedalar e enganar aos outros e a si próprio.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

 

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