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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Quarentena-Ostentação

A vaidade de mostrar casas de campo, mansões à beira-mar, apartamentos luxuosos e drinques na piscina escancara diferenças e atiça a inveja

Por Analice Gigliotti Atualizado em 27 ago 2020, 21h36 - Publicado em 27 ago 2020, 19h04

Agora que estamos às portas da última fase da flexibilização do isolamento social e olhamos para trás, podemos sentenciar: não foi fácil. Trancados desde março, privados até do mais banal cotidiano, nos vimos em casa, atolados de afazeres domésticos e convívio familiar intenso. Nem todos os lares foram preparados para abrigar seus moradores 24 horas por dia, semana após semana. Para muitos, era apenas o lugar em que desabavam de cansaço, depois de uma longa jornada extenuante de trabalho.

E o que descobrimos correndo os dedos frenéticos de foto em foto do Instagram? Houve uma parcela da população que não sofreu a quarentena. Ao contrário, saiu de férias. Alugou uma casa na Serra e foi “aproveitar o tempo com as crianças”. Ou que “finalmente conseguiu usar a casa de Búzios”. Um perfil de gente que trabalha tanto que “nunca usufrui da piscina que tem em casa”. Enquanto a lista de desempregados crescia aos milhões e tantos outros faziam fila na porta da Caixa Econômica em busca do auxilio emergencial, houve gente que foi pegar sol no verão europeu.

Nessa toada, as fotos da “Quarentena-Ostentação” se multiplicaram. Evitar o coronavírus é bom, mas evitar o coronavírus com vista para o mar é ainda melhor. Enquanto boa parte da população está trancada num quarto e sala com vizinhos barulhentos, cercada por ruídos de obras e assistindo a milhares de mortos por semana, o Instagram mostra aquele ator popular dando um mergulho na piscina de borda infinita com a legenda “#gratidão”. O narcisismo se sobrepõe à empatia e quem posta não se importa se os outros sofrerão por não poderem partilhar do mesmo conforto. Nessa ciranda, muita gente foi contaminada por um outro vírus que corrói a alma aos poucos: a inveja. Porque na contemporaneidade, não basta desfrutar. É preciso mostrar. Se despertar a cobiça alheia, tanto melhor. Cria-se assim o embate entre os pecados capitais: a inveja contra a soberba.

Se antes da pandemia as consultas com pacientes já explicitavam como as redes sociais estimulavam esse sentimento de forma perversa, nos últimos meses ele foi escancarado. “As mídias sociais criam e ampliam uma inveja instantânea e destrutiva. Tem sido tempos terríveis para muita gente e a última coisa que as pessoas querem ver é uma casa milionária com um gramadão”, resumiu o acadêmico inglês Andrew Oswald ao jornal The New York Times.

Durante a pandemia, a inveja não se deteve apenas aos bens alheios, mas também ao estilo de vida. “Como é que alguém está se organizando para ler todos os volumes de “Em busca do tempo perdido” enquanto eu tô lutando pra dar conta da aula remota das crianças?”, me perguntou uma amiga, exausta, confessando – não sem uma gota de vergonha – desejar a falta de compromissos da outra.

Os grandes livros se tornam clássicos porque abordam assuntos universais e se há sentimento que qualquer ser humano identifica com facilidade, assim como o amor e o ciúme, é a inveja. Sem ela, muitas obras de arte não teriam sido criadas. Não é à toa que Proust a tem como um dos seus temas centrais. O invejoso coleciona histórias a respeito do invejado em sua “câmara de tortura particular”, afirma o autor francês no volume “O caminho de Swann”.

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A inveja é uma resposta cerebral dúbia para quem a sente: ao mesmo tempo que quer o que é do outro, se envergonha desse sentimento. Em casos extremos, como o talentoso Ripley criado pela autora Patricia Highsmith, não basta querer o que é do outro, mas ser o outro, nem que para isso seja preciso lançar mão da violência ou da ilegalidade.

Não deixa de ser curioso que os invejosos sejam seletivos: o olho cresce com a riqueza ou status de uma pessoa, sem dar atenção à doença, problemas ou infelicidades que essa mesma pessoa possui, pois é dos detalhes que a cobiça se alimenta: do tamanho da piscina, do bronzeado da pele, do carro novo. A inveja não vê o todo, só a parte. Se exercessem a empatia de olhar “para baixo”, descobririam um monte de pessoas em situação pior que a sua. Apesar de nascer da admiração, a inveja pode ser embaraçosa porque nos revela a nós mesmos e nem sempre a imagem é bonita: é um sentimento que expõe nossa agressividade, ambição e também nossas fraquezas, faltas e dores.

Porém, é importante ressaltar que nem sempre ela é a vilã, porque administrada de forma saudável, pode ser um excelente estímulo para correr-se atrás de objetivos – e conquistá-los.

Se muitos sofrem calados de inveja, outros relatam que a pandemia os levou a descobrirem valor e beleza em tudo que possuem. A cada dia de isolamento, o reencontro consigo mesmo e com aqueles que escolheram dividir a intimidade e a vida. Este é o caminho saudável: viver o agora, com o que se tem, aceitando-se não ter o controle sobre nada.

Não deixa de ser uma epifania invejável.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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