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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

“Pieces of Woman” e a arte de viver uma perda

Filme da Netflix reflete sobre o luto em um momento do mundo em que a morte é assunto diário

Por Analice Gigliotti Atualizado em 5 fev 2021, 12h27 - Publicado em 5 fev 2021, 09h47

No próximo dia 15 de março serão anunciados os indicados ao Oscar de 2021. Aos poucos, alguns favoritos começam a ser citados, como “Mank”, “A Voz Suprema do Blues”, “Os 7 de Chicago”, “Nomadland” e “One Night in Miami” são alguns dos mais cotados. Mas há um outro forte candidato procurando seu lugar ao sol. Trata-se de “Pieces of a woman”, também da Netflix.

Pra começo de conversa, não é um filme fácil. “Pieces of a woman” tem um dos começos mais angustiantes da história recente do cinema. O talentoso diretor húngaro Kornel Mundruczo se vale de longos (e tensos) planos sequência para narrar, praticamente em tempo real, a agonia e ansiedade de um parto em casa. Não é para os fracos. Mas quem consegue atravessar a primeira meia hora de filme é brindado em seguida com o que o jornal “The New York Times” definiu acertadamente como “um cru e áspero estudo sobre a perda”.

“Pieces of a woman” conta a história de Martha e Sean (os atores Vanessa Kirby e Shia LaBeouf), um jovem casal americano às vésperas do nascimento de sua primeira filha. Mas um terrível contratempo os arrasta para uma realidade inesperada, quando a gravidez era apenas um sonho acalentado a dois. A dificuldade em lidar com a perda do projeto de futuro expõe as vísceras de uma relação traumatizada pelo luto, que se sustenta por um fio à beira do vazio. O casal se vê diante da jornada de redescobrir a intimidade, o sexo (ou a aversão a ele), o amor e, por que não, a própria razão de permanecerem juntos.

Vanessa Kirby, indicada ao Globo de Ouro na categoria melhor atriz esta semana, também tem sido citada como uma forte candidata à uma vaga no Oscar por sua performance como uma mulher que vê o seu casamento se desmantelar em pedaços enquanto tentam assimilar a perda de seu bebê – e mais, a vida idealizada a partir dele. Cada personagem vai tentando sobreviver ao luto do jeito que pode: enquanto o marido tenta seguir com a vida, mesmo que de forma artificial e até violenta, a avó pensa apenas em se vingar da parteira e Martha vai digerindo, com o passar dos meses, este que é um dos maiores tabus da cultura ocidental: a morte.

As diferentes reações dos personagens à morte formam um caleidoscópio de fácil identificação, especialmente no momento atual, em que a morte e o luto por Covid-19 fazem parte da nossa vida diária. Esse sentimento é percebido por mim e pelos meus colegas nos consultórios. O trauma coletivo que ainda estamos atravessando e que ceifou tantas vidas deixa muitos pacientes perplexos. O que posso fazer é compartilhar com eles – e agora com vocês, leitores – minha experiência pessoal.

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Minha mãe, a atriz Lupe Gigliotti, morreu há 10 anos, depois de um longo processo, em decorrência de um câncer. Não deixa de ser doloroso, como qualquer perda, mas ao menos há o tempo para se aceitar a partida. Todo o trabalho de elaboração da morte da minha mãe é baseado em identificar e alimentar o que há dela em mim. Tive a sorte de ser filha de uma mulher muito engraçada e bem humorada. Muitas das brincadeiras, olhares, trejeitos e reações à vida que eu tenho no dia a dia são heranças dela. Portanto, isso me dá certeza que quando alguém morre, não desaparece simplesmente. Fica algo de concreto dentro de nós.

Hoje, uma década depois de sua partida, sei que tenho a minha mãe dentro de mim, eu não a perdi. “Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim”, resumiu à perfeição Carlos Drummond de Andrade no poema “Ausência”. E é justamente este o percurso trilhado por Martha na elaboração do luto: quando a protagonista adquire a capacidade de rever o olhar da pessoa amada é que ela, finalmente, aceita que a perdeu.

“Pieces of a woman” ainda toca num ponto muito interessante: a tomada de consciência perante o incontrolável que é a vida. Em uma sociedade doutrinada para controlar tudo – tempo, dinheiro, relacionamentos, o próprio futuro –, o filme nos lembra que a vida sempre se impõe, tão majestosa quanto inexplicável. Remar contra essa realidade é inútil e cansativo.

“Não se encontra paz evitando a vida”, diz a personagem Virginia Woolf no livro “As Horas”, de Michael Cunningham. Por essa mesma lógica, é possível afirmar que só se encontra paz vivendo, aceitando e respeitando o luto e seu tempo.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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