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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

O “Homem-Pateta” e os perigos da internet para crianças e jovens

Pais devem controlar e vigiar os filhos no ambiente virtual

Por Elizabeth Carneiro - Atualizado em 24 jul 2020, 15h25 - Publicado em 24 jul 2020, 08h44

Muitos pais vem relatando a dificuldade de impedir seus filhos de ficarem horas no computador ou celular. Eles se sentem sem argumentos para tirá-los dos aparelhos. Antes da pandemia ainda conseguiam falar: “Larga esse celular e vamos à praia!”. Mas agora… Dar conta da alta potência da inquietação psíquica e motora de crianças durante o isolamento tem sido um grande desafio diário. A frustração das crianças por não verem amigos, não terem contato com a natureza, espaço para correr ou jogar futebol tem gerado um efeito emocional devastador. Identificados com os filhos no sentimento de confinamento e opressão, os pais não querem limitá-los ainda mais e passam a ser mais permissivos com os aparelhos eletrônicos.

Uma outra questão é que, de certa forma, os olhos vidrados na tecnologia dão um descanso aos pais nas demandas infinitas que filhos presos em casa trazem. É compreensível estar exausto e fazer vista grossa para o excesso de internet. Mas se alguns pais soubessem o preço alto que podem pagar a posteriori por não quererem enfrentar os tais argumentos incessantes dos jovens para se manterem conectados, eles certamente optariam pela luta.

Não é novidade falarmos sobre a necessidade de monitoramento de conteúdos que os filhos acessam. O que é novidade é que os golpes de todas as ordens vem se sofisticando cada vez mais, e se aproveitando do aumento da vulnerabilidade atual do ser humano. Desde artimanhas de clonagem de WhatsApp para pedir dinheiro até a maldade “do golpe” em seduzir crianças com supostas brincadeiras que na realidade os coloca em risco de segurança, de vida, de saúde mental.

Um assunto dominou as redes sociais – e a preocupação dos pais – nos últimos dias: o “Homem-Pateta”, que assim se denomina numa alusão ao personagem da Disney. De acordo com a polícia, o pateta também responde pelo nome de Jonathan Galindo. Já foram identificados cerca de 50 perfis no Facebook e 120 no Instagram com variações do mesmo nome.

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O “Homem-Pateta”, vem na esteira de outros “fenômenos” que viralizaram nas redes com desafios perigosos, que vão da automutilação ao suicídio, como a “Baleia Azul”, uma série de tarefas num crescente de dificuldade a serem cumpridos em 50 dias, e o “Momo”, um boneco que puxa papo no WhatsApp enquanto, na verdade, rouba os dados do usuário. O mais recente foi o “Desafio do Quebra Crânio”, em que os jovens eram orientados a derrubar os outros no chão com uma rasteira.

Em tempos de pandemia, em que os mais jovens estão passando horas na frente do computador ou celular, o cuidado deve ser redobrado. A velha prática dos nossos pais e avós, de conhecerem nossos amiguinhos e os pais deles – quem não lembra? –, agora também se aplica às páginas de redes sociais e chats. Acompanhe o histórico de navegação e tenha todas as senhas de acesso do seu filho. Deixar uma criança navegar à deriva na internet é como deixá-la desacompanhada em um shopping ou um parque. Existem filtros que podem ser instalados pelos adultos para impedir o acesso ou apenas monitorar as páginas e programas frequentados pela criança.

Os adolescentes mais velhos podem ser mais resistentes. Mas o dever dos pais de educar e proteger é maior que o direito dos filhos à privacidade. É fundamental conversar e esclarecê-los sobre os perigos da internet e essa nova modalidade de abordagem aos menores. O monitoramento dos pais é o “bote salva-vidas” dos filhos.

Tais perfis da internet podem ter como consequência alguns transtornos mentais, além de automutilação e suicídio. Os pais devem ficar atentos a eventuais alterações de comportamento, como nervosismo, irritação ou medo sem causa aparente, alteração nos hábitos alimentares e isolamento.

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Caso o seu filho tenha tido contato com um desses “desafios”, é muito importante não apagar as mensagens e fazer um boletim de ocorrência. Essas informações serão muito importantes para a investigação policial.

Aos pais, cabe controle e vigilância nos ambientes real e virtual no intuito de evitar figuras sinistras como o “Homem-Pateta”, que tendem a se tornar uma constante na vida de crianças e adolescentes quanto mais nossas vidas se tornem virtuais – e tudo caminha a passos largos para isto.

Muitos homens patetas ainda surgirão para “convidar” nossos filhos para um mundo de sombra e autodestruição. Um comportamento perverso e psicopático capaz, inclusive, de ameaçar pais que tentam interagir com ele no intuito de proteger o filho. Chegam a ameaçar os adultos, alegando ter poder psicológico sobre seu filho a ponto de fazê-lo se matar, a despeito de qualquer ato protetivo de pais zelosos.

Esse artigo é um convite à reflexão sobre a necessidade de mudarmos nosso pensamento acerca de onde se escondem os verdadeiros perigos da modernidade. O atual contexto depressivo e gerador de ansiedade pode funcionar como fator de risco para a iniciação de um processo traumático e irreversível.

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Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

 

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