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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Paulo Gustavo e a afirmação gay no Brasil homofóbico

Ator conseguiu um feito raro: conquistou o coração do público sem escamotear sua orientação sexual

Por Analice Gigliotti Atualizado em 17 Maio 2021, 17h26 - Publicado em 17 Maio 2021, 15h42

O Brasil, país que parece ter se acostumado a contar mortos todos os dias, viveu uma gigantesca perda recentemente. A Covid-19, doença que já levou tantos talentos das nossas artes, como Nicette Bruno, Aldir Blanc, Ismael Ivo, Eduardo Galvão, ceifou, tão prematuramente, a vida do ator Paulo Gustavo, aos 42 anos. A morte do ator choca porque é a antítese de tudo que ele sempre representou, dentro e fora de cena. Alegria, deboche e ironia eram a matéria prima do seu trabalho. Uma explosão de vida, de projetos e de planos castrada precocemente.

Paulo Gustavo ganhou o coração do público dando vida à Dona Hermínia, inspirado em sua mãe, Déa Lucia, mas que conseguia a façanha de gerar identificação com mães e filhos das mais diferentes classes e origens. Com muito humor e ternura, o ator confirmou a máxima de que “mãe é tudo igual” e arrastou uma multidão para as três produções da franquia “Minha mãe é uma peça”. A cada novo filme, Paulo Gustavo ia dando seu recado contra a homofobia. Sem militância ostensiva ou demagogia política. À medida que Dona Hermínia ia se acostumando com a homossexualidade do filho na ficção, o Brasil ia se acostumando também a ver Paulo Gustavo se tornar um artista gigante, abarrotando salas de teatro e de cinema.

Aos poucos, Paulo Gustavo foi compartilhando com o público a forma como vivia, o relacionamento de sete anos com o marido, Thales Bretas, e a escolha pela paternidade dos pequenos Gael e Romeu. Pela primeira vez, um artista do mainstream normatizou  uma relação homoafetiva em sua produção artística e nas redes sociais. O país descobriu que a vida de dois gays casados com dois filhos era absolutamente igual a de qualquer outra família brasileira.

Por tudo isso, é simbólico que a morte do ator seja tão próxima a um dia fundamental na luta pela afirmação gay. Hoje, 17 de maio, é celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia, uma data importante em um país que ocupa os altos postos no vergonhoso ranking de nações que mais matam homossexuais no mundo. Em 2019, o Brasil registrou 297 homicídios e 32 suicídios por homofobia, uma média de uma morte a cada 26 horas, de acordo com relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB). Não estão computados nestes dados as centenas de casos de violência que não chegaram à óbito.

Com Paulo Gustavo morre um pouco a esperança de um país mais tolerante com a comunidade LGBTQI+. O ator passou pela vida como um cometa, defendeu a igualdade de gênero com sua arte, influenciou pessoas e ajudou outras tantas a se assumirem e aceitarem como são. Que Paulo Gustavo seja a semente para o aparecimento de mais Paulos Gustavos no Brasil.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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