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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Pandemia: emoções paradoxais na flexibilização

Seremos obrigados a criar novos códigos de demonstração de afeto por trás de máscaras que escondem os sorrisos e dominam boa parte dos nossos rostos

Por Elizabeth Carneiro - Atualizado em 3 jun 2020, 09h40 - Publicado em 2 jun 2020, 22h03

Vamos começar a sair de casa. O momento pede uma parada reflexiva. Parada? Mas estamos “parados” há meses. Tudo com que sonhamos nos últimos tempos foi justamente em não ficar parados: caminhar no calçadão, dar um mergulho no mar, andar de bicicleta, tirar as crianças de casa sem medo de sermos contaminados e sem o peso na consciência de não estar contribuindo para a diminuição da curva de contágio da covid-19.

Mas eis que, subitamente, numa segunda-feira, as autoridades comunicam que esse “nosso dia chegou”. A sensação é similar à de reféns ou pessoas assaltadas violentamente quando aparece alguém para dizer que já está tudo bem, que o susto passou e a vítima ainda grita de terror, achando que aquele que vem em seu socorro pode machucá-lo.

Será que esse é nosso atual estado psíquico? Será que estamos em um congelamento emocional que não sabe se ri, se chora, se grita, se fica ansioso, se acha os governantes irresponsáveis, se avalia que é cedo ou tarde para a prática do tão falado “novo normal”? Mas como nós, que estávamos trancafiados (ou sequestrados?) da vida, agora podemos, de uma hora pra outra, simplesmente sair “como se nada tivesse acontecido”. Então, só porque alguém diz que podemos começar a seguir em frente, a gente segue em frente? Simples assim? Minha cabeça deu um nó: meu corpo tem que ir, minha cabeça tem dúvidas.

Fico escabreada pensando se não serei posta em cárcere novamente se a curva voltar a subir ou se simplesmente um político “mudar de ideia”. Também fico eufórica porque finalmente eu vou ver pessoas, mesmo sem abraçá-las. Não deixo de ficar estarrecida com o fato de me sentir uma alienígena recém pousada de uma espaço nave. Sou um novo ser. Somos novos seres. Seremos obrigados a criar códigos de demonstração de afeto por trás de máscaras que escondem os sorrisos e dominam boa parte dos nossos rostos. Precisaremos aprender a ter cuidado na hora de nos expressarmos para não haver interpretação equivocada. Teremos que redescobrir um jeito de dizer “eu te amo” ou dar um beijo na alma sem encostar no rosto do outro. Ainda não consigo dizer “vai dar tudo certo”. Alguém tem clareza sobre o que é, afinal, “dar tudo certo”?

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Estou anestesiada por uma profusão de sentimentos e ideias ambíguas que estão longe de ser uma comemoração. A sensação de alívio de ter sobrevivido, que tanto almejamos, não pode ser aproveitada em toda sua potência porque não é totalmente verdade; há um presente e um futuro ainda incertos. Diante do comando para começar a flexibilizar a quarentena, há algo interno que sopra em meus ouvidos dizendo: “não se comporte como quem já venceu a batalha; não relaxe; não seja espontânea; continue com medo porque ele te protege”. Socorro!

Mais uma vez, só temos uma certeza: precisamos ser suporte uns dos outros em momentos agudos de crise diante do incontrolável, precisamos uns dos outros para lidar com o que não tem resposta cartesiana de certo ou errado. Como escreveu o grande poeta Carlos Drummond de Andrade: “Chega o tempo em que a vida é uma ordem. A vida, apenas. Sem mistificação”.

Então, vamos à (nova) vida.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

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