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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

O perigo da tarja preta durante a pandemia

O cenário mundial e a restrição de sair de casa resultaram num alarmante crescimento da automedicação de ansiolíticos

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 11 jun 2020, 09h57 - Publicado em 10 jun 2020, 11h34

Sejamos honestos: manter a calma no Brasil de 2020 não é das tarefas mais fáceis. A pandemia e a instabilidade política e econômica brasileiras tem colocado à prova os nervos da população. Ainda nem chegamos ao pico de contaminação do coronavirus e percebe-se o aumento da incidência de ansiedade, depressão e insônia na sociedade, dos consultórios médicos aos grupos de WhatsApp. Estudo da UERJ com 1460 pessoas de 23 estados confirma a constatação: os casos de depressão aumentaram 90%, estresse agudo 40% e crises de ansiedade cresceram 71% durante a pandemia. Diante do cenário mundial pouco confortável e da restrição de sair de casa, o resultado é o alarmante crescimento da automedicação de ansiolíticos. Ou seja: o brasileiro está tomando mais remédios e sem supervisão de um professional capacitado.

Os dados de comercialização de Rivotril (clonazepam) comprovam: um aumento de 22%, saltando de 4,6 milhões no bimestre de março e abril de 2019 para 5,6 milhões de caixas nos mesmos meses de 2020. Esse crescimento é constante nos últimos anos. Segundo dados da Anvisa, em 2018 os brasileiros compraram 56,6 milhões de caixas de medicamento para ansiedade e para dormir. Foram cerca de 6.471 caixas vendidas por hora, ou seja, aproximadamente 1,4 bilhão de comprimidos em um ano.

Os benzodiazepínicos alprazolam, bromazepam, clonazepam, diazepam, lorazepam, flunitrazepam e midazepam, assim como as chamadas “drogas Z” (zopiclona, zolpidem e eszopiclopa), mais conhecidos como os medicamentos “tarja preta”, estão entre os remédios mais populares do Brasil, apesar da exigência de receita para serem comprados. Mas o aumento do consumo pode estar sendo estimulado, justamente, por quem mais deveria prezar pela saúde do brasileiro: o Ministério da Saúde. Há dois meses, a Anvisa, agência reguladora vinculada ao Ministério, publicou uma resolução mais do que controversa por contrariar o bom senso. Ela amplia a quantidade máxima de medicamento permitidas em uma única receita dos atuais 2 meses de tratamento para até 6 meses. Resultado: o médico prescreve uma caixa e o farmacêutico oferece seis. Ou seja: um convite ao uso abusivo e porta de entrada para a dependência.

Se consumidos de forma errada, os ansiolíticos podem causar dependência e, com isso, a síndrome de abstinência, tendo o efeito contrário ao que se deseja: aumentando e não diminuindo a ansiedade. Além disso, o uso indiscriminado desta categoria de medicamentos pode trazer tonteira, amnésia, depressão e diminuição da coordenação motora, facilitando desde a ocorrência de quedas a acidentes automobilísticos. Estudos mais recentes reportam inclusive que, se usados de forma continuada, podem resultar em quadros de demência. Entre os idosos, estas medicações estão ligadas a um aumento de 50% na incidência de fraturas de bacia.

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Em tempos tão extremos como o que estamos atravessando, medicamentos calmantes podem parecer grandes aliados. Mas também podem ser perversos inimigos e por isso devem ser entendidos como um último recurso. Meditação, terapia e outros medicamentos que não levem à dependência são opções mais saudáveis e seguras. Ninguém melhor que um médico para aconselhar o melhor caminho.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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